26 de julho de 2026

A Conjugação do Verbo Furtar

Este artigo trata de um tema tão comum, que de tão comum, já se tornou banal. Esse artigo trata de uma quase instituição. Trata da corrupção que assola a nossa e a todas as demais sociedades, seja em maior ou menor grau, e que é fruto da ambição do homem e do pouco – ou nenhum valor – dado para a coisa pública.

Para começar nada mais apropriado do que o texto a seguir, que foi escrito em 1655 e continua tão atual como naquela época. A conjugação do verbo furtar…Do verbo se apropriar do que não é seu. Do que não é fruto do seu trabalho. Da rapina pública.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Padre Antônio Vieira – A conjugação  do verbo furtar

Presente do Indicativo

Eu furto….Não eu não furto..!

Tu furtas…Espero que não. Que seja uma pessoa de bem.
Ele furta…Talvez..
Nós furtamos…Não. A generalização é sempre perigosa e injusta.
Vós furtais….Espero, da mesma forma, que não. Que sejais uma pessoa digna
Eles furtam…Sim. Verdade. Muitos e muitos furtam. Em seu proveito próprio justificam tudo.

“… Conjugam por todos os modos o verbo; porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato nem Despautério. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções na rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quando lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem; e gabando as cousas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimónia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados e as terceiras, quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente (que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o triénio; e para incluírem no presente o pretérito e o futuro do pretérito desenterram crimes de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas de que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos que lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz activa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas…”

Parte do Sermão do Bom Ladrão VIII, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), no ano de 1655.

Sermão do bom ladrão – Padre António Vieira

E tendo como ponto de convergência o Maranhão, o  Padre Vieira mencionou em 1662 as possíveis causas do empobrecimento moral daquela parte dos domínios, então portugueses, ao discorrer sobre as seguintes faces: a desonestidade, as injustiças e tiranias, os desregramentos e os abusos do poder constituído:

“São os interesses dos que governam, porque as rendas dos dízimos de Vossa Majestade em todo aquele Estado, chegam a montar seis até oito mil cruzados, os três dos quais toma o Governador inteiramente e no melhor parado, e na mesma forma se pagam de seus ordenados os procuradores e os oficiais da fazenda, com que vem a ficar muito pouco para as despesas ordinárias das igrejas, vigários, oficiais de milícia e soldados, aos quais se não paga nem a quarta parte do que lhes pertence, com que é força que busquem outros modos de viver e se sustentar, que muitas vezes são violentos, e todos vêm a cair às costas do povo.

Assim também levam consigo os ditos governadores muitos criados, que provêm nos melhores ofícios, e eles com confiança no poder de seu amo ou servem com insolência, dominando não só as pessoas, mas as fazendas, de que se recolhem a Portugal ricos e os povos ficam despojados.

Assim mesmo vendem os provimentos das companhias e não uma senão muitas vezes com que não só tiram aquele prêmio militar aos soldados velhos e beneméritos, mas está com isto todo o Estado cheio de títulos, de capitães e de sargentos-mores, que, para sustentar a vaidade do nome, é força que também busquem com opressão alheia, o que por outra via não podem alcançar. O mandar alistar a uns por soldados e riscar praças a outros também é modo de adquirir mui usados dos que governam, com tanta opressão dos que cativam, como dispêndio dos que se resgatam”.

Voltando ao assunto, a verdade é que a corrupção campeia por todos os lados desde tempos imemoriais. A conjugação do verbo furtar não tem fim? Ou será que terá? Mesmo vindo de tempos tão distantes, até bem antes de 1655, há de se combater a corrupção e o furto públicos. A questão é de que forma a Sociedade pode contribuir para isso. Fazer com que isso aconteça. E a sociedade só vai realmente tomar esse problema para si quando o cidadão de fato exercer a cidadania. Entender que ele não é somente responsável por si próprio e pelos seus. A ele, como ser social, cabe uma parcela de responsabilidade pelos problemas que afligem a toda a Sociedade. A conjugação do verbo furtar também é responsabilidade dele. É um dos males sociais que se alimenta do silêncio, da pactuação, do calar. E isso tem que mudar. E para que isso aconteça, a Sociedade deve se organizar cada vez mais. A organização é base de tudo. A organização da sociedade é sinônimo de união de forças. E a união de forças é uma arma formidável.

Exemplo do que falamos foi a mobilização história pelas Diretas Já e a proposição popular pela Lei da Ficha Limpa foi o povo mandando um recado direto para a classe política de que não iria mais tolerar que a corrupção campeasse livremente,  impunemente.

O Brasil está mudando….Há um claro embate. De um lado as forças retrógradas, corporativistas e, em muitos casos, corruptas ou corruptíveis de forma vil. Do outro lado, ao lado do povo organizado, a imprensa imparcial e livre, os blogs progressistas, as mídias sociais. Essa imprensa e esses novos veículos de comunicação, de interação com e entre os cidadãos, dão visibilidade a ações positivas da Sociedade. Agem como caixa de ressonância e favorecem a mobilização e o levantar de bandeiras. Denunciam os desmandos dos corruptos e induzem o Estado a se instrumentar no combate contra a corrupção em resposta à pressão popular. Esse processo traz em si uma sinergia positiva. É auto alimentado.

Esse é um tempo de mudanças e o Padre Antônio Vieira se fosse vivo, cá estivesse conosco, certamente celebraria.

Tomando por base o trabalho da ONG Transparência Internacional , para o ano de 2012 a figura mostra como a corrupção é percebida no mundo.

Índice de Percepção da Corrupção (IPC) no mundo – 2012

Desde 1995, a Transparência Internacional publica o relatório anual Índice de Percepção de Corrupção (IPC) que ordena os países do mundo de acordo com o grau em que a corrupção é percebida a existir entre os funcionários públicos e políticos. A organização define a corrupção como o abuso do poder confiado para fins privados”.

A série histórica acerca da percepção do IPC relativo do Brasil, calculada a partir da relação entre a posição absoluta ocupada pelo Brasil no ranking e o número de países avaliados [(1- Posição Brasil/Número de países avaliados) x 100] – no pior cenário (100% de corrupção), o  IPC relativo teria valor igual a ZERO e  na Sociedade ideal (corrupção zero), o valor do IPC relativo seria igual a CEM – mostra que o pior cenário mensurado pela Transparência Internacional foi justamente o ano de 1995, quando chegamos ao IPC relativo de 2,4%.  Ao longo dos anos a percepção da corrupção diminuiu no País e o IPC relativo aumentou rapidamente até o ano de 1999, Desde 2003 o IPC relativo se mantém na faixa de 60%. Isto é, entre os anos de 1995 e 2003 houve melhora na redução do IPC relativo e daí em diante estamos “andando de lado”. Não houveram mudanças significativas nos últimos anos. O que mostra que apesar dos esforços em instrumentar o Estado com  mais “ferramentas” visando o combate à corrupção, ela continua endêmica, e que há muito a ser feito para nos aproximarmos de países como a Dinamarca  (IPC relativo= 99,4% – 2014) ou a Nova Zelândia (IPC relativo= 98,9% – 2014), com baixíssimos índices de corrupção. Para o ano de 2014, os Estados Unidos da América tem um IPC relativo de 90,3% e na “lanterna” vem a empobrecida Somália com IPC relativo 2014 igual a  zero ( o último do levantamento 2014).

Índice de Percepção de Corrupção Relativo – Brasil – Série Histórica

Sobre a evolução do IPC absoluto percentual, a figura a seguir, como no caso anterior, mostra que o pior cenário foi em 1995 e o melhor desempenho, ainda pífio, no ano de 2014. O IPC ótimo – Sociedade livre da corrupção – seria  igual a 100%.

Consultando os dados do IPC para os anos mensurados pela Transparência Internacional (1995 a 2014), claramente se vê que há uma relação direta entre o IPC e  a riqueza e educação de uma sociedade. Quanto mais rica e desenvolvida é a Sociedade tanto maior é o IPC. Quanto maior a miséria de uma nação tanto menor é o IPC. Ou seja, furta-se dos que menos tem. É uma tragédia que embute uma imensa desumanidade.

Para os leitores dessa matéria deixamos uma provocação:

O que podemos fazer para combater a corrupção? Em que estamos contribuindo para que a corrupção tenha fim? Lembre que não há pequena ou grande corrupção. Corrupção é corrupção.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados