A expansão de evangélicos e do consumo no período petista, por Bruno Reikdal Lima

A primeira década dos anos 2000 viu não apenas o número de fiéis e de igrejas crescer absurdamente, como de supetão percebeu uma bancada constituída por evangélicos.

A expansão de evangélicos e do consumo no período petista

por Bruno Reikdal Lima

A guinada de evangélicos no Brasil e no continente latino-americano é um fenômeno crescente nos últimos 30 anos, coincidente com o processo de redemocratização. O moledo político estruturado nas democracias da América Latina seguiram a cartilha de instituições liberais e os projetos neoliberais de cidadania, que reduzia os sujeitos políticos a cidadãos consumidores tendo como ponto de partida direitos individuais – indivíduos abstratos, sem considerações a respeito de condições históricas, étnicas, comunitárias, etc. Pós-ditaduras, com seus efeitos positivos e negativos, intencionais e não-intencionais, as organizações sociais que se constituíram nesse processo acompanharam e deram condições para que uma religiosidade adequada aos novos moldes se proliferasse.

boom de evangélicos deve muito aos grupos de pentecostais e neopentecostais. Os primeiros com suas comunidades instituídas no Brasil desde os anos de 1930; e os segundos a partir do final dos anos de 1980. Outros grupos como os chamados evangélicos históricos (ou reformados, dependendo de como se discute o tema) cresceram moderadamente, muitos incorporando traços das outras duas vertentes, que hegemonizavam o movimento evangélico. Apesar das diferenciações doutrinárias, mesmo dos ritos, dos cultos, etc., o papel que o amplo espectro evangélico cumpre para a organização de uma sociedade de produtores e consumidores capitalistas é fundamental: como religião constituída no ambiente urbano, seja nos centros ou nas periferias das cidades, propõe uma moral individualista e justificativas para a acumulação de riquezas. Desse modo, auxilia na organização de relações sociais nas cidades que se expandiam no país desde os anos de 1950.

Temos, portanto, que nesse processo histórico se estabelecem “afinidades eletivas” entre religião e organização social e produtiva. Trata-se do mesmo tipo de relação percebida por Weber no famoso A ética protestante e o Espírito do capitalismo. Em uma Europa que se aburguesava (criava uma nova organização produtiva centrada nas cidades e com uma classe social que dominava os centros urbanos), as práticas religiosas do campo, feudais, que cumpriam um papel legitimador de outra ordem social, conflitavam com as novas necessidades e novas práticas políticas e econômicas. Nesse meio de campo surgem os movimentos protestantes por uma reforma da instituição religiosa, e deflagram séries de transformações. A nova religião burguesa, urbana, dá condições para outra sociedade e recebe desse novo projeto um campo de atuação próprio.

No nosso caso, contudo, temos dois movimentos: uma religião (especialmente a pentecostal) que recebia nos centros urbanos em rápida expansão os imigrantes, tanto os vindos do êxodo rural, quanto de outros países, e a partir do final dos anos de 1980, a expansão religiosa para os interiores do país, que se urbanizavam e em curtos espaços de tempo eram incluídos nas novas relações sociais “globalizadas”. Com pessoas deslocadas, retiradas ou mesmo expulsas de seus territórios, ou aquelas que viram a rápida transformação de seu terreno, o entorno, da vila em pequena cidade e a chegada dos novos recursos tecnológicos de trabalho e entretenimento, esses novos ambientes urbanos e novas cargas de trabalho fragmentavam os laços sociais e comunitários, com aglomerações amorfas e sem história, que encontraram nas instituições religiosas grupos de apoio, acolhimento de famílias e laços de fraternidade.

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Isto posto, o acesso a crédito e a ampliação da capacidade de consumo de indivíduos sem que essa relação de afinidade fosse percebida, tocada e mesmo transformada, deu condições para que a justificativa da melhora de condições de vida de famílias brasileiras nesse período fosse dada pela prática religiosa, fortalecida – e que já cumpria intencional ou não intencionalmente o papel de criar os laços sociais necessários para essa nova organização social. A aquisição de bens de consumo e mesmo a possibilidade de um micro, pequeno ou médio empreendimento que perseveraram em um determinado momento de conjuntura nacional favorável, assim como políticas de governo e de Estado que criavam a possibilidade de ascensão social (mensurada e comemorada pelo padrão de consumo) estavam ligadas às bênçãos de Deus e ao mérito individual, legitimado e explicado pela moral individualista e pela justificativa para acumulação de riquezas.

Dessa maneira, a cada conquista no mercado realizada por um indivíduo, havia o reforço do papel institucional das igrejas e da fé que tornou possível esse êxito. As condições históricas, os fatores produtivos e a macro-economia eram papo exclusivo de especialistas e internos aos governos, que desenvolvia suas estratégias sem se dar conta de que uma massa contente por suas realizações não devotavam a graça alcançada para a conjuntura e sabendo o que é que está acontecendo, e sim à liderança religiosa e a autoridade divina, que recompensava o esforço de cada pessoa que se submetia às leis do mercado capitalista.

A primeira década dos anos 2000 viu não apenas o número de fiéis e de igrejas crescer absurdamente, como de supetão percebeu uma bancada constituída por evangélicos. Conservadora, aliada a projetos neoliberais e a programas anti-populares, contrastava com um poder executivo progressista, de liberalismo com compensação social. E a cada conquista da massa mais pobre e da classe média tutelada pela política do governo petista, o poder dos partidos religiosos e das candidaturas de lideranças evangélicas aumentava. A cada reforço da ordem social baseada no consumo e na democracia representativa burguesa, potencializava a religião que legitima e conforma parcelas populares à sociedade baseada nas leis de mercado. Nem uma e nem outra foram tocadas.

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A expansão evangélica, portanto, não é um fenômeno apenas de carisma de lideranças religiosas ou de uma argumentação teológica irresistível, ou ainda de uma estrutura de fé que cresce sem explicações que não sejam seu próprio funcionamento, e sim efeito de condições históricas peculiares, fruto de seu tempo. E a expansão de crédito e consumo produzidos na era petista trouxe condições ótimas. Percebe-se, assim, que religião reduzida a um âmbito privado, como sonha a ilusão burguesa de separar preferências individuais da esfera “técnica” do mercado e da política (que deve funcionar em favor do mercado), apenas impede de perceber o papel que conteúdos ideológicos desempenham, assim como  das instituições (todas elas) na coordenação das relações humanas.

Dessa forma, sem colocar as estruturas de fé para conversar e sem dispor de uma instituição que explique como é que “chegamos até aqui” (ao invés de deixar o “como você, campeão fiel e individualmente virtuoso, foi capaz de entrar no jogo do consumo e do empreendimento”), girar o parafuso na manutenção e potencialização da sociedade capitalista é entregar de bandeja essa função para outros grupos e agentes políticos. Não há mudança que transforme ou supere a organização social burguesa que deixe de lado as disputas no campo religioso. Elas azeitam a formação social, e se não há outras instituições que desempenhem a função de estabelecer, manter e fortalecer laços sociais, constituindo sujeitos e comunidades, serão as igrejas que majoritariamente ocuparão esse espaço – como já o fazem há algumas décadas.

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