A diferença crescente entre o desempenho dos bancos europeus e das grandes instituições financeiras dos Estados Unidos voltou ao centro do debate econômico na União Europeia.
Relatório recente da Comissão Europeia mostra que, enquanto no início dos anos 2000 os cinco maiores bancos da União Europeia superavam individualmente o maior banco americano em valor de mercado, hoje a situação se inverteu: o JPMorgan Chase vale mais, na bolsa, do que os cinco maiores bancos europeus somados.
O dado foi destacado pela Comissão Europeia em um documento publicado no fim de julho e ganhou repercussão em análise do economista Howard Davies, professor da Escola de Relações Internacionais de Paris e ex-presidente da extinta Financial Services Authority (FSA) do Reino Unido.
Em artigo publicado no Project Syndicate, Daves afirma que a comparação busca reforçar a necessidade de reformas estruturais defendidas nos últimos anos por lideranças europeias, como o ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, e o ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta, que vêm alertando para a perda de competitividade da economia europeia frente aos Estados Unidos.
Recuperação econômica mais lenta ampliou diferença
Após a crise financeira de 2008, a economia americana apresentou uma recuperação significativamente mais rápida do que a europeia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos consolidaram mercados de capitais mais profundos e desenvolvidos, oferecendo às empresas alternativas de financiamento além do crédito bancário e permitindo maior flexibilidade na gestão financeira das instituições.
Na avaliação do autor, a fragmentação regulatória dentro da própria União Europeia também dificulta fusões entre bancos e impede o surgimento de grandes instituições verdadeiramente pan-europeias.
O principal ponto de divergência envolve as exigências de capital impostas aos bancos.
Após a crise de 2008, reguladores internacionais endureceram as regras prudenciais por meio do chamado Acordo de Basileia III, obrigando as instituições financeiras a manter maiores reservas de capital para absorver perdas em momentos de estresse.
O BCE continua defendendo essa estratégia, argumentando que bancos mais capitalizados tornam o sistema financeiro mais resiliente e reduzem o risco de novas crises. Já parte da Comissão Europeia considera que o excesso de exigências pode limitar a capacidade dos bancos de conceder crédito, especialmente para pequenas e médias empresas, que dependem mais do financiamento bancário na Europa do que nos Estados Unidos.
O debate ganhou força após mudanças na postura do Federal Reserve. Segundo Howard Davies, o banco central americano abandonou parte das propostas mais rigorosas conhecidas como “Basel Endgame” e discute mudanças que, na prática, poderão reduzir em aproximadamente 5% o capital exigido das grandes instituições financeiras americanas.
O Banco da Inglaterra também iniciou uma flexibilização moderada das regras prudenciais ao reduzir parte dos requerimentos mínimos de capital, mas o BCE mantém posição cautelosa.
Na visão do articulista, esse debate coloca em evidência um dos principais dilemas da política econômica contemporânea. Reduzir exigências regulatórias pode ampliar a rentabilidade dos bancos e estimular a oferta de crédito, favorecendo investimentos e crescimento econômico, mas também podem deixar o sistema mais vulnerável.
Segundo Davies, esse debate tende a ganhar intensidade nos próximos meses e poderá influenciar inclusive a escolha do sucessor de Christine Lagarde na presidência do Banco Central Europeu, prevista para 2027 – a depender do desempenho da economia europeia, a pressão por uma política regulatória mais favorável ao crescimento poderá ganhar força dentro das instituições da União Europeia.
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