5 de junho de 2026

A mídia comete um grave erro quando chama os manifestantes de Baltimore de “bárbaros” e “vandalos”

Ontem escrevi algumas palavras sobre a Intifada Negra em Baltimore, mas o fiz de maneira muito genérica http://www.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/washington-luis-hg-wells-e-a-intifada-negra-em-baltimore . Hoje farei algumas digressões históricas e estéticas sobre o comportamento de alguns manifestantes capturados em vídeo.

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Na Grécia, no inicio deste mês de abril de 2015, manifestantes queimaram carros

http://in.reuters.com/article/2015/04/08/greece-protest-idINKBN0MY1YP20150408 . O mesmo comportamento foi visto e em maior escala na França em outubro 2010 https://www.youtube.com/watch?v=sGHIfeVmASY . Em Baltimore carros também tem sido queimados nos últimos dias de abril de 2015 http://news.yahoo.com/video/raw-rioters-burn-cars-baltimore-071836238.html . Fazer fogueiras em público para demonstrar insatisfação política não é um comportamento novo. Após narrar a vida e o assassinato de Julio César, Caio SuetônioTranquilo afirma que o corpo dele foi levado até a Tribuna róstria, no Fórum:

“…Uns mostravam o desejo de incinerá-lo no santuário Capitolino e outros na Cúria de Pompeu, quando, repentinamente, dois homens de gládio à cinta, empunhando cada qual dois dardos, aí acenderam o fogo com duas tochas inflamadas. No mesmo instante, a multidão que os cercava construiu no local tribunas e bancos com tábuas e tudo o que mais estivesse ao alcance. Depois, tocadores de flauta e histriões tiraram as vestes triunfais que haviam vestido para a cerimônia, rasgaram-nas e as atiraram nas chamas. Legionários veteranos também lançaram às chamas as armas com as quais se adornaram para os funerais. Da mesma forma agiram muitas matronas com os enfeites que traziam e os seus filhos com os colares de bolinhas de ouro e suas togas pretextas.”  (A vida dos doze Césares, Caio Suetônio Tranquilo, editora Prestígio, Rio de Janeiro, 4a. edição, p. 84/85)

A mesma história é contada de maneira um pouco diferente por Plutarco. Diz ele:

“Quando, porém, foi aberto o testamento de César e se viu que ele deixara a cada romano um legado notável; quando foi levado no Fórum seu corpo coberto de feridas, a multidão, em violenta agitação, não se conteve: precipita-se, acumula-se nos bancos, nas divisões e nas mesas do mercado; forma-se uma fogueira na mesma praça e ali o cadáver é queimado. Depois, apanhando os tições inflamados, corre às casas dos assassinos para atear-lhes fogo…” (Alexandre e César, Plutarco, editora Prestígio, Rio de Janeiro, 2001, p. 249)

As discrepâncias entre as narrativas são evidentes, mas não serão discutidas. O que nos interessa aqui é apenas provar que o comportamento político/incendiário dos modernos gregos, franceses e negros norte-americanos não é incomum. De fato, ele é uma tradição herdada dos romanos. Portanto, a imprensa comete um erro conceitual e histórico quando chama os incendiários de Baltimore de “bárbaros” ou “vandalos”. Aqueles que fizeram uma fogueira em frente ao Fórum e nela incineraram o cadáver de Júlio César não eram “bárbaros”, nem “vandalos”. Eles eram cidadãos romanos civilizados que demonstravam publica e simbolicamente sua raiva em razão da injustiça cometida no Senado.

O que mais me chamou no vídeo a seguir foi um aspecto muito específico https://www.facebook.com/disturbreality/videos/984022158308528/?pnref=story . Estou me referindo ao rapaz que aparece pulando sobre o carro esportivo vermelho. E ao outro que pula de carro em carro com admirável habilidade. Os aspectos jurídicos ou políticos da conduta dele, explorados à exaustão pela imprensa não me interessam.

Ao rever várias vezes este vídeo notei que os dois rapazes encenam aos pulos uma dança ritual. A princípio a mesma me pareceu dionisíaca e orgiástica, mas o contexto (o que vemos não é uma celebração do prazer e da vida e sim uma guerra civil ritual sem tiros motivada pela violencia policial recorrente) me fez pesquisar um pouco mais e então me deparei com o seguinte fragmento que reproduzo:

“Siempre el motivo fundamental de estas danzas guerreras, y em general de todas las danzas africanas, es el salto repetido en diversas actitudes, para lo que muestran los negros una elasticidad de cuerpo que parece increíble, así como un sincronismo en el pateo de la tierra, cuyo retumbar puede escucharse desde lejos cuando estos festivales llegan a su punto culminante. Entonces el viajero puede observar la excitación en los ojos de los que presencian las danzas y lá exaltación progresiva en los bailarines. Así, a través del Africa central, desde Uganda, en las fuentes del Nilo, hasta los yorubas, en Nigeria, tierras de famosos maestros de baile, son los saltos el elemento que enlaza una actitude con outra en la danza…” (La Danza en el Mito e en la Historia, Luis Bonilla, Biblioteca Nueva, Madrid, 1964, p. 202/203).

Aqueles dois garotos negros que dançam sobre carros aos pulos com grande habilidade, extraindo deles o som que aqueles objetos podem produzir, repetiram ou recriaram uma dança ritual ancestral. Nada do que eles fazem pode ser atribuído aos “bárbaros” e aos “vandalos” que confrontaram e ao final derrotaram o Império Romano. Durante a guerra civil ritualizada em Baltimore aflorou nos afro-americanos o que neles há de mais genuíno, talvez até mesmo inato. Não há nada de primitivo na conduta daqueles garotos. Primitivo é submeter à mesquinha moralidade da propriedade e do capitalismo, que valoriza sempre mais os objetos e menos a cultura e a vida humana, todos os comportamentos das pessoas.

O jornalismo presta um grande desserviço público ao imbecilizar os leitores, ao rotular de maneira equivocada os comportamentos humanos e ao desprezar as oportunidades que tem para refletir de maneira mais séria sobre as crises sociais produzidas pela modernidade. O avanço da privativização do mundo, aliás, está na origem da dança ritual guerreira encenada pelos manifestantes negros de Baltimore.

“Os carros tem menos valor que a vida de um dos nossos.” No fundo é isto o que os negros norte-americanos disseram de maneira simbólica ao dançar sobre aqueles objetos. Além disto, esta mesma sociedade privativizada que os impele a consumir não lhes fornece a necessária capacidade de fazer isto. Então eles dançam sua dança de guerra sobre os carros dos outros. Do ponto de vista estético o comportamento deles é perfeito. Mais do que é isto: é belo. Para falar a verdade não gosto de fogueiras, pois elas são mais perigosas do que danças inofensivas.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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