Que vivemos numa sociedade corrupta todo mundo sabe e não é novidade. A corrupção se manifesta em diversas maneiras e atinge todo o organismo social, desde as administrações de sociedades anônimas, condomínios residenciais, empresas estatais e privadas. escolas e Universidades públicas e privadas, polícias estaduais e federais. Seria longa lista a citar.
Apesar de amplamente disseminada, o que não se pode afirmar é que todos os membros destes órgãos sejam corruptos. Afirmar isto seria o mesmo que dizer que todos os que moram nas favelas onde ocorre tráfico de drogas sejam traficantes, ou que todos os cidadãos de países como os Estados Unidos, França e Inglaterra, são culpados por políticas militaristas de seus governos.
Entendida a abrangência da incidência da corrupção, pode-se pensar nos meios, formas e timing para se lutar contra este mal.
Ao combater a corrupção com o lema Doa a quem doer, Dilma mostra que é uma neófita em política, e que, apesar de ser honesta, isto é, não corrupta, age com um senso de prepotência inviável numa sociedade democrática, na qual certas convicções para serem aceitas necessitam de muito diálogo e capacidade de convencimento.
Um remédio pode ser efetivo num momento e ruim em outro. Isto acontece frequentemente em organismos debilitados em demasia, incapazes de tolerar os efeitos colaterais indesejáveis de um remédio.
Em circunstâncias nenhuma um governo realista e realmente preocupado com o combate à corrupção pode deslanchar uma luta sem fim e sem limites contra a corrupção sob pena de atingir tantos interesses pessoais e de grupos sociais, que colocará em risco a própria permanência deste governo. Um bom general nunca age de forma a ter contra si tantos inimigos que não possa dar o combate. Vale o ditado, dividir para vencer, ou como dizia a sapiência popular, deve-se saber que o mingau quente se come pelas beiradas.
Diante de uma imprensa hostil, e diante da abrangência que tomaram as atuais investigações, atingindo ou ameaçando atingir grande parte da classe política, inclusive o seu vice-presidente, era inevitável que muitos políticos se unissem, em frentes além dos limites partidários para tentar salvar a própria pele, num ato de sobrevivência. O que eles procuram não é somente o poder para voltar a se locupletar, como sempre o fizeram, mas antes de mais nada, pleiteiam o poder para tentar frear as ameças que pairam sobre suas cabeças.
Não é de se admirar que um político imoral e cínico como Eduardo Cunha fosse escolhido para comandar a guerra pela salvação da classe, pois é capaz de usar de forma ousada e sem nenhum constrangimento democrático, o poder que lhe foi colocado em mãos, além do que, como um corrupto em vias de ser cassado, nada mais tem a perder e tudo tem a ganhar.
A principal arma que Dilma teria para colocar alguns limites, e mais objetividade nas atuais investigações seria exigir mais profissionalismo e menos atividade teatral de sua polícia federal. Seria também exigir que esta atuasse estritamente dentro dos parâmetros legais. Como, por vontade própria, ou a mando da presidente, o ministro da justiça se recusa a assumir este papel, podemos afirmar que, mais do que a cassação da presidente, a atual classe política quer um novo ministro da justiça, capaz de colocar freios na Policia Federal e que atue para que muitas das investigações sejam paralisadas ou devidamente arquivadas.
Enfim, ao dar continuidade à luta contra a corrupção, doa a quem doer, Dilma corre o risco de provocar um grande retrocesso em nossa incipiente democracia. Ela, pessoalmente, pouco tem a perder, mas milhões de brasileiros que ainda não foram prejudicados por esta política quixotesca, serão certamente prejudicados. Uma nova década perdida será inaugurada. O retrocesso nas políticas sociais jogarão na miséria, novamente, milhões de brasileiros e seus filhos perderão a chance de colocar um fim na história de miséria da família.
Do ponto de vista geopolítico, a perda poderá ser o retrocesso no Plano Nacional de Defesa, com o abandono da política de aquisição de tecnologias militares e construção em solo nacional de uma nova frota de caças e submarinos e a entrega de grandes jazidas minerais nas mãos de interesses estrangeiros.
Do ponto de vista econômico poderemos ver o Brasil cristalizando sua vocação passada de ser mais um dos países montadores e fornecedores de mão de obra barata para os países desenvolvidos, tudo à custa do arrocho salarial e da superexploração da força de trabalho.
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