Abertura de inquérito contra manifestações é primeira grande brecha na blindagem do governo Bolsonaro

Moro tem se mostrado um Ministro subserviente, mas em crise com Bolsonaro. Poderá atrapalhar as investigações ou utiliza-las como moeda de troca para ser reabilitado.

Vamos organizar um pouco os dados de ontem.

As investigações sobre as manifestações

É a decisão que comporta maiores desdobramentos. O Procurador Geral da República Augusto Aras saiu da inércia, pressionado por seus pares, e pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) autorização para investigar os organizadores das manifestações contra a democracia. O STF só é acionado quando existem suspeitos com foro especial. No caso, os alvos iniciais são deputados federais. Dentre eles, o mais notoriamente envolvido é Eduardo Bolsonaro.

A autorização foi concedida pelo Ministro Alexandre Moraes.

O PGR não pediu investigações sobre o chamado Gabinete do Ódio, comandando por Carlos Bolsonaro. Mas não haverá como ocultar o envolvimento do grupo e do próprio Bolsonaro nessas organizações.

O inquérito será conduzido pela delegacia de Inquéritos Especiais, lotada no Edifício Sede da Polícia Federal. A indicação para presidir o inquérito será do delegado geral Maurício Valeixo, vinculado ao Ministro da Justiça Sérgio Moro. E os policiais são ligados à Associação dos Delegados de Polícia Federal, simpáticos a Moro.

Moro tem se mostrado um Ministro subserviente, mas em crise com Bolsonaro. Poderá atrapalhar as investigações ou utiliza-las como moeda de troca para ser reabilitado. Sua única manifestação recente, sobre a crise da pandemia, foi anunciar que a PF atuará contra a corrupção – em um momento em que pairam dúvidas enormes sobre as compras emergenciais do governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, inimigo declarado de Bolsonaro. Além disso, colocou a PF para investigar a compra de ventiladores pelo governo do Maranhão, uma atitude abominável em um momento de luta para salvar vidas.

Manteve-se mudo e quedo ante as inúmeras operações suspeitas do governo Bolsonaro, como as incursões do Ministro do Meio Ambiente, o desmonte das fiscalizações sobre garimpos e madeireiros. Além disso, um dos principais suspeitos de organizar as carreatas é a deputada Carla Zambelli, sua afilhada de casamento.

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Do lado do STF, apesar de algumas atitudes recentes mais resolutas, Alexandre de Moraes sempre misturou de forma imprudente suas funções públicas com ambições políticas. Quando Ministro da Justiça de Michel Temer, há relatos de encontros seus com membros da ADEPOL (Associação dos Delegados de Polícia) visando montar um sistema de financiamento para uma eventual candidatura de José Serra à presidência da República e dele, Moraes, para o governo de São Paulo.

Qualquer que seja a atitude de um e outro, exigirá um acompanhamento de perto de outros setores. De qualquer modo, é uma abertura de flanco relevante. Mesmo com todos os controles acionados, dificilmente se terá controle sobre delegados e procuradores envolvidos nas investigações.

O presidencialismo de coalisão

Depois das imprudências de domingo, Jair Bolsonaro voltou atrás na segunda e, na terça, seu grupo palaciano deu início à negociação de cargos políticos com o centrão.

Repete-se a saga das fragilidades da presidência brasileira, que vêm desde o governo Collor. Assume um presidente. No primeiro momento, embalado pela popularidade pós-eleições, tenta montar seu Ministério sem muitas negociações. Quando eclodem as crises – apagão e câmbio, com FHC, mensalão, com Lula – enfraquecem-se e são obrigados a se render ao centrão.

Assim, o parafuso dá várias voltas e volta ao mesmo lugar, vários quilômetros abaixo da linha da terra. Os vícios do modelo político brasileiro produziram vulnerabilidades em sucessivos presidentes. Em vez de se trabalhar no modelo, utilizou-se a necessidade de financiamento de campanha como arma politica contra os adversários. Para tanto, desmoralizou-se o sistema político, o judicial, a Constituição. Foram colocados no poder os piores exemplares da história da política brasileira. Que trazem de volta o presidencialismo de coalisão.

De qualquer modo, mesmo sem esses acenos, seria difícil, neste momento, obter os 2/3 de votos necessários para o impeachment.

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A impotência das instituições

Com as instituições nacionais absolutamente impotentes para impedir as barbáries de Bolsonaro contra a saúde pública, o fenômeno novo que surge é o veto imposto pelas redes sociais, censurando de forma inédita mensagens presidenciais abusivas.

Neste momento, ainda não há espaço político para o impeachment. Mas Bolsonaro não irá parar. Ele é uma máquina de criar conflitos.

Nas próximas semanas, haverá um agravamento inédito da pandemia e os espíritos estarão mais armados do que nunca. Mas, deste vez, com as tropas bolsonaristas colocadas ante o risco de suas manifestações serem criminalizadas.

É possível que sua reação não seja a de recolher as armas.

 

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7 comentários

    • Era uma vez um pais republicano….

      A logica da politica regressista : Estado minimo pro povão e máximo pro barão (1.2 tri reais para os banqueiros)

      Bastou Lula mudar a orientacao do PT para apoiar o Fora Bolsonaro, que Felix Fisher, da Republica de Sabujos de Curitiba, na calada da noite agendasse para horas depois o julgamento de Lula na 3a. instancia.

      Lula deu autonomia para o ministério público Federal e polícia federal fez a lei da ficha limpa e da delação premiada para combater a corrupção os corruptos se uniram para derrubar o Pt.

      E o povão não entende e nem quer entender dessas queatoes juridicas…..muito complexo para o povao e ate mesmo para quem tem curso superior mas nao tem senso critico

      A superestrutura, responsavel por fazer a cabeça do povo, é formada pelos sistemas midiatico, educacional, religioso e judicial.

      Fato.

  1. Quem irá colocar o sino no pescoço do gato? Agripino Maia, Antonio Carlos Magalhães, Severino Cavalcanti, Paulo Preto, José Serra e Filha, Engavetador Geral da República, José Dirceu, Antonio Palocci, Roberto Jefferson, Aécio Neves, Aloisio Nunes, Delcídio do Amaral, Michel Temer, Cel Lima, Jorge Borhausen, Picolé de Chuchu, Fernando Capez, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros, José Sarney,… Ja estao com saudades. Por que isto foi ontem.

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  2. Por mais que exista uma tendência da PF de ser submissa a Moro, não podemos desprezar um fator bastante provável: a vaidade pessoal de delegados e procuradores. Podem sim, surpreender.

  3. Moro e seu grupo vai deitar e rolar em cima destas investigações, só não sei ainda o que é que ele pode exigir como moeda de troca para manobrar as investigações para não esbarrar na familicia.

    Ele deve saber que com Bolsonaro não se negocia nada como o próprio confessou na frente do QG do exército, pois ele nada cumpre, portanto qualquer tratativa tem que passar pela junta governativa, se é que existe de fato, coisa que eu já não tenho tanta convicção ou pelo menos não é aquele freio de arrumação que se esperava, tá mais para freio de mão, para não deixar descer na banguela de tudo. Nesse aspecto, para livrar a cara do Bozo e família uma das exigências poderia ser mais poder para a junta. A ver o que moro e sua quadrilha ganha com isso.

    Penso que a nossa aposta deve se voltar para o pedido de afastamento feito ao stf e que tá nas mãos de Celso de Mello, que nada tem a perder pois já está limpando as gavetas para partir e poderá fazê-lo em grande estilo livrando o povo brasileiro do verme por 180 dias, que todos sabemos será em definitiva.

    Essa é a aposta a ser feita. O decano precisa de estimulo, de incentivo. Talvez um abaixo assinado de grandes operadores do direito a lhe afagar o ego.

  4. quando foi a ultima grande apreensão de cocaína ?

    Na Espanha, em junho de 2019 os 39 Kgs

    Parabéns juiz-ladrão, atuando fortemente para proteger os traficantes e assassinos instalados no Alvorada

  5. Bozonaro recuou um passo atrás para dar dois passos a frente daqui um dias ate conseguir realizar seu sonho : ser o grande ditador e indicar os bionicos para os tres poderes, entre eles stf

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