Aborto, política e mídia: The Guardian se recusa a reproduzir expressão incompatível com a ciência

Decisão editorial do jornal mostra que a imprensa tem responsabilidade e deve "evitar linguagem medicamente imprecisa e enganosa ao cobrir os direitos reprodutivos das mulheres"

Foto: AFP

Jornal GGN – O jornal The Guardian publicou nesta sexta (7) um editorial explicando por que parou de reproduzir em suas reportagens a expressão “fetal heartbeat bill” para se referir às leis aprovadas nos EUA que restringem ao máximo o acesso ao aborto. A exceção é quando o termo é utilizado por algum entrevistado.

Guardian mostra que a imprensa tem responsabilidade no debate e deve “evitar linguagem medicamente imprecisa e enganosa ao cobrir os direitos reprodutivos das mulheres.”

A expressão “fetal headtbeat bill” (espécie de “lei do batimento fetal cardíaco”) foi criada por políticos conservadores que querem abolir o direito constitucional das mulheres à interrupção da gravidez. Estados como o Alabama impuseram recentemente a proibição do aborto quando o feto tem mais de 6 semanas, pautando-se pelo “batimento cardíaco”, mas “o termo foi desenvolvido como tática política para obter apoio” apenas, destacou o jornal.

Em vez de “projeto de batimento cardíaco fetal”, os repórteres usam agora a expressão “projeto de aborto até seis semanas” (“six-week abortion ban”), pois o fato é que se trata de “proibições arbitrárias que não refletem o desenvolvimento fetal – e a linguagem em torno delas é frequentemente motivada pela política, não pela ciência.”

A mudança editorial está “em consonância com a visão do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, a maior organização profissional para médicos especializados em saúde da mulher. O ACOG, que representa 58 mil médicos, diz que o termo ‘projeto de batimento cardíaco’ não é medicamente preciso.”

Do ponto de vista da ciência, o desenvolvimento do feto é um ato em continuação até o fim da gestação. “O que é interpretado como um batimento cardíaco [pelos chamados “pró-vida”] é, na verdade, a cintilação induzida eletricamente de uma porção de tecido fetal que se tornará o coração à medida que o embrião se desenvolve.”

“(…) apresentam a ideia de que há algo que parece com o que você ou uma pessoa na rua chamaria de bebê – uma coisa que está quase pronta para uma caminhada”, disse Jen Gunter, ginecologista no Canadá e nos Estados Unidos. “Na realidade, você está falando de algo que tem milímetros de tamanho e não parece nada disso.”

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A Suprema Corte dos EUA decidiu, em 1973, no caso Roe x Wade, que o aborto é uma questão de foro íntimo da mulher. Em decorrência dessa decisão, o aborto é teoricamente permitido nos 50 estados americanos. Mas o nível de acesso ao procedimento varia de acordo com a política local. Estados “republicanos” tendem, nos últimos anos, a impor regras restritivas tanto para as mulheres (estabelecendo, por exemplo, o limite de 6 semanas para realizar o procedimento) quanto para as clínicas que oferecem o serviço (muitas já foram fechadas com manobras jurídicas e burocráticas que partem do Legislativo).

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