Acalanto triste (porém esperançoso) para um país em ruínas, por Sebastião Nunes

    Uma releitura brasileira de um dos textos fundamentais da poesia oriental, o “Mantiq ut-tair”

    Por Sebastião Nunes

    Certo dia, o rei dos pássaros deixou cair uma pena, uma simples pena, bem no centro do maior deserto da Terra.

                Mas era uma pena tão magnífica, de tal forma maravilhosa, que os pássaros que a encontraram, muitos anos depois, não tiveram a menor dúvida: era uma pena de seu rei.

                A descoberta correu de bico em bico e, dentro de mais alguns anos, todos os pássaros do mundo visitaram o deserto e viram, deslumbrados, a primeira prova verdadeira da existência de seu desconhecido rei.       

                Sabiam, por velhas lendas, que o rei dos pássaros tinha construído seu ninho no ponto mais alto da mais alta montanha da Terra.

                Também sabiam, narrado de pais para filhotes, que o nome secreto de seu rei queria dizer “trinta pássaros”.

                Cansados de sua antiga anarquia, decidiram procurar o rei, um rei que jamais fora visto. E começaram a quase infinita aventura.

                Mais de um milhão de pássaros, de todas as espécies conhecidas, levantaram voo em direção ao cume da mais alta montanha da Terra.

                Havia pássaros tão leves que eram levados pelo vento. E havia pássaros tão pequenos que mediam só alguns mínimos milímetros.

                Havia pássaros tão velozes que, em um único dia, percorriam a mesma distância que os pássaros mais lentos levavam um mês para percorrer.

                Voaram dia e noite, só parando quando estavam exausto. Dormiam apenas algumas horas, beliscavam um punhado de sementes e de folhas e retomavam o voo.

                Atravessaram sete enormes florestas, cheias de pântanos, rios, lagos e animais ferozes.

                Sobrevoaram sete vales, alguns tão largos que pareciam não ter fim.

                Milhares e milhares de pássaros caíram de cansaço e não puderam continuar buscando seu rei.

                Muitos outros milhares morreram de fome ou de sede, sobre desertos vastíssimos e oceanos intermináveis.

                Houve os que feriram gravemente as asas, de tanto batê-las durante dias e dias de voo contínuo, e foram deixados para trás.

                Houve os que desapareceram durante furiosas tempestades de neve. E os que sumiram durante tempestades de areia.

                Houve os que desapareceram dentro de furacões terríveis. E os que caíram ofuscados pelo sol escaldante dos trópicos.

                Um dia, finalmente, depois de muitos e muitos anos, trinta pássaros pousaram no ponto mais alto da mais alta montanha da Terra.

                Estavam quase mortos de fome, cansaço e sede. Molharam os bicos com a neve eterna que cobria o solo. E adormeceram quase imediatamente.

                Quando acordaram, o sol nascia fulgurante sobre a vastidão gelada.

                Então eles se olharam uns aos outros, durante muito e muito tempo. Sem cansaço, fome ou sede. Mas também sem alegria e sem tristeza.

                E nesse profundo olhar, sem espanto e sem surpresa, descobriram que eles eram o verdadeiro rei dos pássaros. E que o rei dos pássaros era cada um deles, e todos eles juntos.

               

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                Este acalanto é baseado no poema “Mantiq ut-tair”, um dos textos fundamentais da poesia oriental. O título original pode ser traduzido por Discurso ou Diálogo dos pássaros. Foi escrito no século XII pelo poeta persa Farid ud-Din Attar. Jorge Luis Borges em sua “Nueva antología personal” (EMECÉ Editores, Buenos Aires, 1968) publicou um resumo do poema. Sem esse denso e profundo resumo, eu jamais teria tentado recriar a grandiosidade do texto original.

                Ilustrado pelo autor, foi publicado em 2000 pela Editora Dubolsinho, com o título “O rei dos pássaros”. A mais recente reedição é de 2013.

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