Aldeia Boa Vista e a história Guarani em Ubatuba, por Mariana Nassif

Vieram em direção ao Paraguaçú, o grande mar, em busca da terra sem mal. Apenas para registro, essa guerra aniquilou mais de cinco mil indígenas da etnia Guarani – haja sangue para honrarmos, destes povos originários todos dizimados pela colonização.

Quando cheguei em Ubatuba, há três anos, algumas pessoas me contaram sobre a dificuldade de se estabelecer na cidade. Diziam haver uma força sobrenatural que dava conta de expelir e questionar, de forma afrontosa, a presença exploratória por aqui. Este conjunto de informações era chamado de “a maldição de Cunhambebe”.

Cunhambebe foi um importante líder indígena Tupinambá, autoridade máxima dentre os tamoios que residiam no espaço compreendido entre o Cabo Frio e Bertioga, Ubatuba incluso. Alguns documentos o denominam “o terror dos portugueses”, por conta de sua força física e destemida no combate ao extermínio do povo indígena que aqui habitava. Reza a lenda que Cunhambebe, com a faca no pescoço, no momento que precedeu seu assassinato, rogou que cada homem branco que aqui tentasse prosperar, fracassaria. Junto com Cunhambebe, toda a população indígena da região foi sumariamente dizimada pelos bandeirantes.

Assim, quando os Guarani por aqui chegaram, fugidos especialmente da região de São Miguel do Iguaçu durante a Guerra dos Sete Povos – decretada após o Tratado de Madrid, em 1756, que definiu uma linha de demarcação entre os territórios portugueses e espanhóis na America do Sul – não encontraram ninguém. Vieram em direção ao Paraguaçú, o grande mar, em busca da terra sem mal. Apenas para registro, essa guerra aniquilou mais de cinco mil indígenas da etnia Guarani – haja sangue para honrarmos, destes povos originários todos dizimados pela colonização.

Há quase dois anos fui iniciada no Candomblé. De lá pra cá, um de meus maiores compromissos é com o desenvolvimento pessoal e coletivo no sentido do anti-racismo, o que inclui, obviamente, movimentos de reparo histórico com a ancestralidade – não apenas com o povo negro, mas também com a população indígena. No meio dessa cinesia, fui apresentada por uma amiga das mais queridas, a Pati Cabral, ao Marcos Tupã, parte importante e atuante na liderança indígena Guarani de Ubatuba, filho do Cacique Altino dos Santos Weramirin, um dos fundadores da Aldeia Boa Vista, localizada no bairro do Prumirim. Nosso encontro aconteceu na base de atendimento na região central da cidade e, confesso, comoveu escutar a versão verossímil da história – bastante diferente das registradas pelos livros.

Falamos sobre a caminhada Guarani até aqui, apropriação cultural, biopirataria e, claro, questões religiosas e políticas, especialmente a demarcação de terras indígenas, pauta que corre no Congresso Nacional e alega, dentre outras insanidades, que não seriam os Guarani os povos originários deste local, o que amputa direitos sobre a terra e, pasmem, questiona o marco-temporal, contestando a presença destes povos antes da instalação da Constituição – este, um dos motivos os quais inspiraram a celebração dos 50 anos da Aldeia Boa Vista, que ocorre no mês de Março agora, com agenda ampla e aberta à população.

Mais textos virão deste encontro encantado mas, por enquanto, fica aqui o convite para se envolver proativamente na questão indígena, se deslocar até a Aldeia nesses dias de festa e, depois disso e sempre, procurar o caminho da informação, da conversa, escutando as demandas e promovendo apoio e amparo a este povo que luta há décadas contra o extermínio de sua identidade, cultura e população. Quem sabe assim, um dia, ao perceber a real intenção de reparo e honra dos homens brancos, Cunhambebe sopre lá do céu o antídoto para que a experiência de convivermos em paz seja verdadeiramente possível.

Além do texto e do convite, disponibilizo a conta utilizada para arrecadação de fundos para que se concretize de forma intensa e poderosa a viagem para Brasília em Abril, durante o Acampamento Terra Livre, que ocorrerá entre 27 e 30 do próximo mês:

Altino dos Santos

Banco do Brasil
agência 2748-0
c/c 23439-7
CPF 083337408-71

Aqui, a programação das festividades:

Sexta-feira, 13 de março de 2020

08h30 às 09h30 – Café da manhã típico

09h30 às 10h – Pintura corporal, sob coordenação de Mirim Valdeci, Adelino Mimbi e Alex Karai

10h às 10h20 – Abertura – Canto e dança Nhamandu Nhemompu’ã, sob coordenação Ailton Wera

10h20 às 11h – Roda de conversa com os anfitriões, Cacique Altino Wera Mirim, Dona Santa Rosa da Silva e Dona Jandira Rosa Paraguassu, remanescentes fundadores da Boa Vista, sobre a caminhada sagrada, instalação da aldeia e luta pelo reconhecimento do território em 1987

11h às 11h30 – Leitura da carta dos jovens da aldeia em homenagem ao cacique Altino Wera Mirim, a Dona Santa Rosa da Silva, a Dona Jandira Rosa Paraguassu e ao Prof José Roberto da Silva, primeiro indígena nascido na Boa Vista.

11h30 às 12h30 – Roda de conversa sobre o contexto atual e os ataques e perda de direitos na política indigenista no Brasil, com Marcos Tupã e demais lideranças e autoridades presentes

12h30 – Intervalo para o almoço típico guarani

14h30 às 14h50 – Apresentação do grupo de canto e dança Yyakã Porã, sob coordenação de Ivanildes Kerexu e Kuaray Alexendro.

15h às 15h30 – Mostra do documentário guarani “Jaguata Porã”, sobre a caminhada sagrada e história da Boa Vista, sob coordenação Kuaray Alexandro

15h30 às 16h – Dança Tangara, com os grupos Xondaro Mirim Mborai, Nhamandu Nhemompu’ã

16h às 16h40 – Dança Xondaro com os grupos Xondaro Mirim Mborai, Nhamandu Mhemopi’ã e Yyakã Porã

17h às 17h30 – Canto e dança dos grupos e participante todos juntos para confraternização e degustação do Bolo de comemoração feito pelas confeiteiras da aldeia e apoiadores

18h – Encerramento do primeiro dia

Sábado, 14 de março de 2020 – Dia dos festivais da cultura guarani

08h30 às 09h30 – Café da manhã, cozinha coletiva

09h30 às 10h – Pintura corporal, sob coordenação de Mirim Valdeci, Adelino Mimbi e Alex Karai

10h às 10h20 – Abertura com apresentação do grupo de canto e dança Xondaro Mirim Mborai

10h30 às 10h40 – Composição da mesa de anciões da comissão julgadora do festival

10:50 às 12h30 – Primeira etapa do festival Xondaro

12h40 – Intervalo para o almoço típico guarani

14h30 – Composição da mesa de anciões para a segunda etapa do festival: Chicha Kaguyjy, bebida feito de fubá e canjica

15h às 15h45 – Festival de Rora, comida típica feita de milho ou fubá

16h às 16h20 – Ritual de agradecimento com participação dos convidados

16h30 – Falas de agradecimento da organização, parceiros e apoiadores

17h – Encerramento

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