O Banco Central (BC) abriu uma investigação interna para apurar eventuais falhas e omissões em sua própria estrutura de fiscalização no caso do Banco Master. A sindicância, conduzida sob sigilo pela corregedoria, foi determinada pelo presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, no fim do ano passado. O movimento ocorre em meio ao desdobramento do colapso da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro, liquidada em novembro de 2025 após suspeitas de fraudes bilionárias.
No rastro da investigação, dois nomes do alto escalão do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) deixaram seus postos. Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização e então chefe-adjunto do Desup, e Belline Santana, que chefiava o departamento, entregaram seus cargos comissionados.
Embora não pesem acusações formais contra eles, ambos tiveram papéis centrais na trajetória do Master: Souza autorizou a compra do antigo Banco Máxima por Vorcaro em 2019, enquanto Santana assinou documentos enviados ao Ministério Público Federal (MPF) sobre as operações da instituição.
O Banco Central afirma que a alternância em cargos de confiança é uma “prática normal“. Internamente, contudo, a saída dos executivos é lida como um reflexo da pressão por transparência após a Polícia Federal (PF)apontar indícios de fraudes de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito vendidas ao BRB (Banco de Brasília).
Radiografia da crise
A cúpula do BC compara a sindicância à investigação de uma “queda de avião“. O objetivo seria realizar uma radiografia profunda para identificar por que a área técnica demorou a detectar o crescimento exponencial e arriscado do Master.
O banco se destacava no mercado ao oferecer CDBs com rentabilidades de até 140% do CDI, patamar muito superior à média dos concorrentes, o que gerou um modelo de negócios considerado insustentável a longo prazo.
A investigação também mira a relação entre o Master e a gestora Reag DTVM, liquidada em janeiro deste ano. Documentos apontam transações “relâmpago” que inflavam artificialmente o patrimônio de fundos.
Em um dos casos mais emblemáticos, um fundo registrou rentabilidade superior a 10.000.000% em um único ano, superando em larga escala ativos como o ouro e o bitcoin.
Impasse institucional
Além do front interno, o Banco Central enfrenta questionamentos externos sobre o rigor e o tempo da liquidação. O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a determinar uma inspeção formal nos documentos do caso, o que gerou um atrito institucional com a autarquia.
Após reuniões entre Galípolo e o presidente do TCU, Vital do Rêgo Filho, selou-se um acordo para substituir a inspeção por diligências técnicas, visando encerrar o impasse.
Enquanto a corregedoria analisa a conduta dos supervisores, as frentes criminais avançam na Polícia Federal. Tanto o Banco Master quanto o BRB e a Reag negam irregularidades e afirmam que as operações sob suspeita foram corrigidas ou substituídas antes da intervenção.
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