“Hoje ele se entregou”: Bolsonaro admite minuta do golpe em plena Av. Paulista

Cintia Alves
Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.
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Oposição e analistas interpretam discurso de Bolsonaro como confissão de que plano de golpe existiu, só não foi concluído

Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, o pastor que organizou ato na Av. Paulista. Foto: Divulgação via Silas Malafaia
Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, o pastor que organizou ato na Av. Paulista. Foto: Divulgação via Silas Malafaia

Oposição e analistas interpretaram o discurso em autodefesa de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, neste domingo (25), como um tiro no pé. Ao se apegar à teoria de que um decreto de estado de sítio ou estado de defesa não entraria em vigor sem aval do Parlamento, Bolsonaro praticamente admitiu a existência da minuta do decreto. Trocando em miúdos: o plano de golpe existiu, só não foi concluído.

“Bolsonaro admite a minuta de golpe”, disparou o jornalista e comentarista Leandro Demori. “Bolsonaro esperou o domingo para confessar os crimes na Paulista para todo o país”, avaliou o jurista Conrado Hubner. “Hoje ele se entregou”, resumiu o deputado federal Lindbergh Farias (PT).

No ato na Paulista, Bolsonaro sustentou que não caberia acusação por tentativa de golpe de Estado pois para ter ocorrido uma tentativa de ruptura, ele teria de ter enviado a minuta do decreto golpista para o Parlamento. Antes disso, teria de ter ouvido dois conselhos consultivos, conforme determina o rito do estado de sítio ou estado de defesa.

Golpe é tanque na rua, arma, conspiração. Trazer classes políticas e empresários para o seu lado. Isso é golpe. Nada disso foi feito. Golpe usando a Constituição? Tenham a santa paciência“, disse Bolsonaro. No ato na Paulista, ele ainda ofereceu pacificação em troca de anistia para os presos e condenados pelo ataque de 8 de Janeiro de 2023.

Segundo Lindbergh Farias, Bolsonaro tentou uma “pirotecnia retórica” para justificar o decreto e acabou assumindo a minuta, que é uma das provas do inquérito da Polícia Federal. “Na minuta, ele [Bolsonaro] estava falando da prisão de Alexandre de Moraes e de anular o processo eleitoral. É tanta prova – vídeos, declarações do general Heleno, espionagem da Abin… E o pior, é covardia de Bolsonaro, porque ele fala em anistia. Só que ele não está querendo anistia para os presos, não! Ele está se antecipando ao caso dele.”

O deputado Rogério Correia também viu sincericídio no discurso de Bolsonaro, para quem o ex-presidente “produziu prova contra ele próprio”. “A inteligência não é muito grande”.

“Um crime impossível”

O sincericídio de Bolsonaro na Paulista não é exatamente um discurso novo. Dias antes do ato, Bolsonaro revelou sua tese de defesa em entrevista à rádio CBN de Recife (PE). Na oportunidade, ele falou que está sendo acusado de ter planejado um “crime impossível”.

“Para o presidente decretar estado de sítio”, disse Bolsonaro, “ele é obrigado a reunir-se com o Conselho da República e o Conselho de Defesa. Essas pessoas são o vice-presidente da República, os presidentes da Câmara e Senado, os líderes da maioria e minoria da Câmara e Senado. É um grupo de umas 20 pessoas para ouvir”, disse Bolsonaro.

Na tese do ex-presidente, o golpe seria impossível de dar sozinho, sem anuência do Congresso, porque o decreto de estado de sítio seria encaminhado – independente da posição dos conselhos consultivos – ao Parlamento. “Não é do presidente a palavra final, é do Congresso”, argumentou Bolsonaro.

“Se o Parlamento disser não, acabou o estado de sítio. Então, não é o presidente quem decreta o estado de sítio. A imprensa tem dito que era um golpe via estado de sítio. Isso não existe. Tem gente do meu lado, que trabalhou comigo, presa por um crime impossível de acontecer”, sustentou Bolsonaro.

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Cintia Alves

Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.

7 Comentários

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  1. Certeza da impunidade.
    E aí aumenta a impaciência em logo tomar o poder.
    Se acaso não fizerem isso até às eleições presidenciais, vão levá-las de qualquer jeito. No voto, para em seguida decretar a ditadura; ou em outro golpe… que não será tão pacífico assim. Pinochet terá sido um passeio.

  2. Sim,o miNto CONFESSOU em praça pública que gestava um golpe que ele diz que está previsto na constituição, hahaha.
    Sim, o estado de defesa e o estado de sítio estão previstos, MAS:
    1) Precisa haver CAUSA, motivos MUITO GRAVES para se aventar tais possibilidades.
    2) Tais previsões não implicam a critério discricionário e pessoal, e sem causa, prender ministros do Supremo o presidente eleito ou desafetos políticos e pessoais, anular eleições, manter-se na presidência após perde-las.
    3) Deixar de governar o país nos meses finais de seu mandato, mantendo-se dentro da residência oficial conspiratoriamente, evadir-se do país com 2 aviões e aparatos presidenciais (sabe-se lá o que se foi dentro…), ficando cerca de 2 meses no estrangeiro com divisas além do necessário para o período (fora a venda de jóias) negando-se a transferir a posse ao sucessor eleito.
    Portanto confessou a trama golpista, sem causa. Cana no(s) golpista(s)!

  3. Se não enviou a minuta de golpe para o Parlamento, então a tentativa de golpe não se consumou. O crime foi tentado, só não se consumando por atos alheios à vontade dos golpistas, os quais acreditam que o poder poder ser conquistado, mantido e exercido com força bruta e não com o consenso.
    Confissão decorrente de burrice.

  4. Em toda esta estória de golpe há um personagem que está bem quietinho e se fazendo de morto: o tal de arthur lira.
    Há uma possibilidade de 99% que este sujeito já estava pronto para colocar em pauta a tal autorização que o jumento bozó se referiu. E claro que o tal centrão não hesitaria em autorizar.
    Para ele seria bom o bozó no poder porque ele continuaria como primeiro ministro e comandando a maior quadrilha que já existiu na história esse país.

  5. Réu Confesso
    (Tim Maia)

    Venho lhe dizer se algo andou errado
    Eu fui o culpado, rogo o seu perdão
    Venho lhe seguir, lhe pedir desculpas
    Foi por minha culpa a separação

    Devo admitir que sou réu confesso
    E por isso eu peço, peço pra voltar
    Longe de você já não sou mais nada
    Veja, é uma parada viver sem te ver

    Longe de você já não sou mais nada
    Veja, é uma parada viver sem te ver
    Perto de você eu consigo tudo
    Eu já vejo tudo, peço pra voltar

    Devo admitir que sou réu confesso
    E por isso eu peço, peço pra voltar
    Longe de você já não sou mais nada
    Veja é uma parada viver sem te ver

    Perto de você eu consigo tudo
    Eu já vejo tudo, peço pra voltar

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