Censura a 11 matérias do GGN visa impedir a divulgação do negócio com big datas públicos

O juiz que obrigou à despublicação taxou as matérias de levianas. Nem se deu ao trabalho de considerar que, com base nelas, o Ministério Público de São Paulo abriu ação visando anular a licitação

O que leva um banco como o BTG Pactual a exigir a exclusão de onze reportagens do GGN? A alegação – prontamente acolhida pelo juiz – é que, por ser empresa de capital aberto, as reportagens poderiam afetar as cotações. Ora, quando foram publicadas nem arranharam as cotações. Qual o motivo então de reavivar os casos com esse pedido para despublicação das matérias?

O juiz que obrigou à despublicação taxou as matérias de levianas. Nem se deu ao trabalho de considerar que, com base nela, procuradores do Ministério Público Estadual de São Paulo ingressaram com uma ação visando anular a licitação da Zona Azul.

A preocupação é de outra ordem.

As novas tecnologias geraram novas formas de negócio. Um deles é a exploração de grandes bancos de dados. Hoje em dia, há uma disputa incessante de bancos digitais, empresas de Big datas, para conseguir incorporar novas bases em seus bancos de dados.

Esse tipo de negócio trouxe um valor enorme para bancos de dados públicos. Mas, a falta de cobertura sobre o tema, deixou um território sem nenhuma regulação, que tem sido transferidos para empresas em negociações obscuras.

Por exemplo, o recém eleito prefeito de São Paulo, João Dória Jr, apresentou ao distinto público uma “contribuição” de R$ 1 milhão da empresa Neoway à Prefeitura de Sâo Paulo, na forma de serviços. Segundo ele, a empresa teria ajudado a reorganizar a base de dados de funcionários da Prefeitura.

Obviamente o que ele fez foi transferir para a Neoway um acervo valiosíssimo, de graça, com CPF e vencimentos de todos os funcionários. Esse banco de dados terá muitas utilidades. Poderá servir para oferecer produtos para grupos de funcionários. Ou, então, pesquisar a vida dos funcionários que estejam incomodando determinadas empresas com suas fiscalizações.

Leia também:  Cristofobia como profecia autorrealizável, por Albertino Ribeiro

No entanto, foi cedido para uma empresa privada que, ganhou de graça o acervo, e ainda posou de benemérita da Prefeitura.

Essa mesma Neoway foi objeto de um comercial de graça feito pelo procurador Deltan Dallagnol em uma de suas palestras. Elogiou a empresa e, depois, comentou com seus colegas de Lava Jato que estava acertando com ela fornecer ferramentas para organizar toda a base de dados da Lava Jato.

A empresa acabou conquistando vários contratos com procuradorias da Fazenda, sem licitação, por “notória especialização”. Algum tempo depois, apareceu em uma operação suspeita de ter pago propina a funcionários de uma estatal, para conquistar a conta.

As denúncias – divulgadas especialmente pelo GGN – acabaram levando ao afastamento do fundador da presidência da empresa.

Antes disso, em seu final de governo, José Serra cedeu de graça para a Experian, o Cadin (Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Estaduais) do estado de São Paulo. Nos meses seguinte, a filha Verônica adquiriu um portal de email-marketing e revendeu para a Experian por valor várias vezes maior.

Em relação à Zona Azul ocorreu o mesmo. A Prefeitura montou uma licitação para os bilhetes eletrônicos da Zona Azul. Monta-se uma licitação estimando o fluxo de receita futura para definir o valor mínimo da outorga. A licitação – claramente dirigida ao BTG Pactual – estimou apenas as receitas com a venda de bilhetes. Deixou de lado as chamadas receitas acessórias. Entre elas, a possibilidade do vencedor trabalhar com 3,5 milhões de cartões de crédito fidelizados, já que única operadora do Zona Azul.

Leia também:  Fora de Pauta

Mostramos, para efeito de comparação, quanto está valendo um banco digital com 3 milhões de correntistas. Seu valor é imensamente superior ao valor total da operação.

Logo depois, denunciamos uma licitação do Ministério da Economia, pretendendo abrir os dados dos funcionários para uma central de compras.

Com a decisão do juiz Leonardo Grandmasson Ferreira Chaves – da 32a Para Civil do Rio de Janeiro -, o que o BTG pretende é evitar que o tema dos grandes bancos de dados fique à disposição das pesquisas do Google.

Mas é possível que sua pretensão, de vetar as matérias, acabe por despertar a atenção de outros veículos jornalísticos para essa mina de ouro, na qual o direito de lavra é de quem chegar primeiro e negociar com o político de plantão.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

20 comentários

  1. O GGN infelizmente ainda acredita nas instituições, que por sinal estão funcionando muito bem. A pergunta é: “funcionando para quem?”. Como sempre, para nossa burguesia, para o latifúndio…ou seja, para os governos dominantes e/ou as classes dominantes

    20
  2. dá até um aperto no peito. levanto em uma bela manhã de domingo e a primeira notícia que leio é que continuam a não existir quaisquer barreiras à expansão dos “negócios” do sr. andré esteves. pior, o que acontece é exatamente o contrário, com o apoio e a proteção de sempre. é nesses momentos que sinto ainda mais a importância de veículos como o ggn. força, pessoal. estamos juntos.

    17
  3. Esse ato odioso de censura contra GGN é mais uma medalha para o peito do Nassif, talvez o maior jornalista em atividade no país, confirmando que o conteúdo publicado incomoda muitos interesses.

    Os dados pessoais e de consumos de milhares de pessoas tem valor inestimável na era digital podendo serem usados para várias finalidades inclusive políticas.

    Acredito que essa decisão judicial exótica não se sustente nas instâncias superiores mas nunca se deve apostar nada em se tratando do judiciário brasileiro.

    17
    • Quando as pessoas começarem a receber propostas de investimento diretamente em sua caixa de correio eletrônico, sem nunca ter tido contato com este grupo de jogadores do mercado, certamente estarão se perguntando: como é que eles conseguiram obter todos estes dados financeiros a meu respeito?

      já sondei uma vez e a resposta que obtive foi a de que a origem de tantos dados pessoais na mão desses jogadores do mercado é o Cadastro Positivo

      não satisfeito com a resposta, sondei mais uma vez e constatei que eu nunca tinha informado a ninguém, em lugar algum, o fundo de investimento que eu tenho…………………….

      O maior poder que pode ser dado a alguém, é a possibilidade dele saber tudo sobre todos

      E é o que passou a acontecer no Brasil com a entrada desses jogadores no governo e que vai piorar muito, tenham a certeza que sim

      10
  4. Parabéns, Nassif. Você é um integro e competente jornalista brasileiro. A gente anda tão desanimado do Brasil e esquece de valorizar os “generais” que comandam as batalhas do nosso lado. Sua ética e competência deveria servir de exemplo a classe dos jornalistas. Quando chegar o tempo das guilhotinas o Judiciario brasileiro será lembrado pelos crimes que cometeu contra o estado e a nação brasileira.

    11
  5. Por que os outros blogueiros progressistas não pegam essas matérias e publicam nos seus sites? Não seria uma boa ideia?

  6. Outra grande jogada é o próprio grupo, algumas vezes com falsos investidores, poder fazer oscilar as cotações, lucrando na subida e na descida…………………..normal de um jogo que era pra ser sujo

    Em tempos de recursos escassos, o melhor comércio é o da honra dentro de casa e com ajuda de uma justiça que, ao que tudo indica, deve ser uma das maiores investidoras que já se teve notícias
    (vide Banestado e parte das delações de Palocci escondidas)

    Preparem-se para o pior ou troquem e reforcem suas senhas de e-mail

  7. Acho que dever ser um problema com siglas…..O juiz Moro tinha um problema de “melindramento” com a sigla FHC, tipo bloqueio psicológico,ataque de panico, fobia, algo como “siglofobia”…acho que com o juiz Grandemaçon deve sofrer do mesmo mal e ter a mesma sintomatologia com a sigla BTG…..
    Deve ser isso….

  8. O Estado Democrático de Direito, segundo a Constituição Federal de 1988, tem como princípios basilares a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político.
    O Estado de Direito, tão declarado quanto vilipendiado no Brasil de hoje, tem seu alicerce na preponderância do respeito à Lei. O sequestro das instituições e, dentre estas o Judiciário, por interesses diversos e distintos de suas funções precípuas é sinal do inacreditável nível de desfuncionalidade alcançado pelo Estado brasileiro.
    O Judiciário se pôs a serviço dos grandes interesses econômicos e dos nem tão grandes. Há um evidente viés de privilegiar o capital em detrimento de tudo o mais. Vamos, desde negar o direito à terra e à moradia, ignorando a função social da propriedade, até negar os direitos históricos e antes consolidados dos trabalhadores. O desprezo pelos princípios constitucionais é amplo, frequente e inegável.
    Sem poder generalizar, deve haver magistrados dignos do nome e que dignificam a função, o que vemos na prática judiciária no Brasil nos deixa um sabor amargo de desilusão e o peso da desesperança.
    O Judiciário do Rio de Janeiro em especial é visto pela população como controverso, polêmico, corrupto e pouco confiável. Tal afirmação, empírica e produto do senso comum, é corroborada nas inúmeras matérias de reportagem e de opinião trazendo a adjetivação. Podem ser encontradas em qualquer pesquisa feita no Google.
    Ter-se reportagens censuradas – como ocorreu com as matérias do GGN – é apenas mais um indício a somar-se aos incontáveis outros reforçando a crescente desconfiança no Judiciário.
    A questão de fundo, talvez a questão mais vital, é que o descrédito das instituições e, notadamente, do Poder Judiciário, a cada vez que um evento novo solapa suas imagens, incorre em solapar o Estado Democrático de Direito.
    Frases de alerta, cada vez mais presentes nos dias atuais, como “além do império da Lei, resta a barbárie” reproduzem o que foi visto na Europa, no período pós Primeira Grande Guerra, quando do surgimento e ascensão do nazifascismo. Aqui há que citarmos ativistas espanhóis à época que completam o alerta acima, complementando-o e se autocompletando.

    “O fascismo se destrói. Com o fascismo não se dialoga, não se concilia, não se admite omissão, não se admite outro cálculo ou estratégia que não seja o aniquilamento. O fascismo se destrói porque o fascismo, se não contido, destrói inevitavelmente. É essa a sua razão de ser. A barbárie é a sua natureza. Quem não destrói o fascismo é destruído. Simples assim.” FELLIPE, Marcio S. Crônica da barbárie anunciada. Revista Cult, 2020 (apud Buenaventura Durruti). Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/cronica-da-barbarie-anunciada/. Acesso em: 30 de ago.2020.

    “Nenhum governo luta contra o fascismo para destruí-lo. Quando a elite sente que o poder lhe escapa das mãos, apoia o fascismo para manter seus privilégios”. (Buenaventura Durruti, anarquista revolucionário espanhol, 1896-1936). E,

    “Todos os que falaram antes de mim, têm dito: ‘o fascismo não passará. E eu lhes digo que essa frase só tem sentido quando se tomam todas as medidas necessárias para lutar contra o fascismo.” RAMOS, Jose D. Tres años de Lucha. Paris: Editions de la Librairie du Globe, 1970.

    Ao não apreendermos com a História e com os erros passados estamos condenados a repeti-los.

  9. “A democracia costuma ser acusada de não cumprir suas promessas. Não cumpriu a promessa de eliminar as elites do poder. Não cumpriu a promessa do autogoverno. Não cumpriu a promessa de integrar a igualdade formal com a igualdade substantiva. Curiosamente é algumas vezes acusada de não ter conseguido debelar o poder invisível. É fato que o poder invisível continua a existir”, do autor de Democracia e Segredo, Norberrto Bobbio

  10. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome