Cidade projetada lembra a insônia de Clarice Lispector. Ao menos foi o que a palavra escreveu por ela sobre Brasília. E se a palavra redige em cima de quem a utiliza, ela, a palavra, segue dona pisona de mim também. Por isso, a palavra pede-me um paralelo e diferença entre duas cidades. A palavra quer tudo! Então, além de Brasília ser um tipo de não-dormir espantado de Clarice, vejamos… Brasília é uma coisa geométrica no horizonte. Um triângulo Pink Floyd. E Belo Horizonte é uma coisa arredondada e elevada num sobe-e-desce. Uma maçã The Beatles. Uma é reta, a outra é curva. Mas elas têm um parêntesis em comum: (foram pensadas antes que pudessem nascer sozinhas). São cidades empurradas. Brasília foi largada em pista de corrida, Belo Horizonte em morro-ladeira. Empurradas, e não brotadas de, como flor que nasce. Vieram numa coincidência de pensares de esquinas e avenidas, numa esquizofrenia de invento humano desmesurado. Brasília e Belo Horizonte são antinaturais. São cidades repudiadas pela natureza, porque a natureza não sabe o que é ser criada a partir de um lápis, uma régua e uma mesa de projetistas. A natureza entende é de útero, de sexo e de desabrochar leitos. Tudo isso que essas duas cidades mendigam. Elas são cidades secas. Brasília tem tanta sede, que até mesmo foi feita em cima de um deserto. Os arquitetos queriam desviar o vento da sua liberdade natural. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer são dois des-naturados. Usaram casas e edifícios para dar trabalho ao vento que só corria sem tropeço. O mapa do Brasil é grande demais para deixar o vento sair lá de cima, ir até lá embaixo, sem fazer-lhe bradar em nenhuma curva artificial. Curvaram-se arquitetamente e artificialmente em solo candango, e mineiro. E a distância entre essas duas cidades desobediências da natureza é de exatamente 716 quilômetros. É o que andaria o ônibus pelas estradas, de Belo Horizonte até a capital do país. Mas, assim dito, vê-se uma desmesura. Falar “Beagá” e depois dizer “a capital do Brasil”. A distância gostou e afastou-se muito além desses ralos quilômetros 7, 1 e 6. Talvez, por isso, Brasília tenha mais direito de ser menos materna. Apenas por uma questão nacional. Que contradição! Brasília nem ao menos tem idade para tal parida responsabilidade. Já Belo Horizonte, sim. São 115 anos, contra míseros 53 anos. Belo Horizonte pode usar joias. Brasília está de calça de jeans. Mas, igualmente, nenhuma delas contém um útero. O que essas duas cidades têm é a beleza da métrica. Mas como o homem nunca foi bom em medição… Se fosse jeitoso com a fita e a calculadora, nenhuma grande cidade do mundo teria as bordas sobradas feito fatias de comida podre. Sem ofensas a Aarão Reis. Pois antes deles, dos engenheiros arquitetos, Belo Horizonte e Brasília tiveram que roubar para serem hoje o que são. E esse crime não tem dedos do Costa, nem do Niemeyer, nem do Reis. Pois, antes deles pensarem, Belo Horizonte havia roubado de Ouro Preto. E Brasília roubado do Rio de Janeiro. E se Clarice menciona a Deus quando fala em Brasília… Ora! Ela o faz justamente para dar-lhe à cidade perdão ao estrondoso escândalo do roubo. Cidades pecadoras! Continuam, assim, pois, não tendo nada mesmo de maternidade. Mães não roubam, mães têm mãos que dão. E nem ao menos pedem um pingo de volta. Órfãos! É isso o que eles são, os que transitam em Belo Horizonte e Brasília: órfãos! Mas esse abandono, talvez, seja coisa apenas da presente atualidade. Pois Brasília e Belo Horizonte encontraram-se irmãs, nisso que é coisa de história. A fundação de Brasília relembrou Tiradentes. Porque o número que consta do assassinato estraçalhado do inconfidente, serviu como homenagem para o calculado nascimento do eterno fado político que é Brasília. Brasília… Condenada desde nascença a ser peça política. Pobre! E Belo Horizonte condenada à sua interioridade enraizada. Veio do Arraial, do Curral, da Fazenda. Esse é seu instinto natural. Ser pequena. Mas elas que têm tanta geografia, quem Belo Horizonte quer em suas montanhadas ruas? Quer a mim? E quem Brasília quer em suas planadas ruas? Quer a mim? Não achei enquadre em nenhum dos dois casos. Fui dar voltas na Praça dos Três Poderes – mendiga, sem nenhum miserável poder, pois quem tem poder é Brasília, e ela dá poder a quem bem quer. Dei voltas. Belo Horizonte, mais experiente, enxotou-me logo sem pensar. Quanto mais se vive, menos tempo se perde com o desnecessário. Pois, nada mais fui, e sou ainda, que um ser completamente dispensável para ambas as cidades. Desnecessária como árvore em Brasília. Por que Brasília só tem plantas plastificadas e é desabitada de árvores de verdade? Claro, porque Brasília está vestida é de jeans. Por isso, deixou-me flexível percorrê-la com calmaria. Praça dos Cristais, Praça do Compromisso… Aí foi o erro: pisar a grama da responsabilidade do compromissado com. E Brasília foi um espinhão! Porque uma coisa feita desde a ideia política de um político, e ainda, mineiro, só poderia mesmo causar espanto. Nasci interrogada com a política. Coisa de família. O segredo: JK pisou a casa que eu pisei ontem. Sim! Apenas porque essa casa é uma casa de 200 anos. E tem um corredor que cheira café. E Brasília não tinha até então cheiro de nada. Foi lá Juscelino tentar levar um pouco de aroma para aquele lado entupido do Brasil. Fez-se o Lago Sul. Veio assim a gargalhada. Uma cidade obsessiva com número, onde tudo é um número, não poderá jamais entender de água. Uma coisa flutua, a outra coisa concreta. Brasília é a pretensão em pessoa. Quem entende de lagoa é a Pampulha de Belo Horizonte. Já não sei mais se devo mergulhar nessas duas cidades. Estou ficando cansada. Ou será um estado de impaciência diante de ver tudo o que se pode tirar dessas cidades. Mas extração, extração de que? É piada, nem ouro mais há. Ah! Mas há palavras e com as palavras essas duas falsas cidadelas podem ir muito longe juntas, e sem sair desse papel. Vão, então! Mas jamais, nunca jamais, poderei acompanhá-las! Não sou inseto, sou uma só. Vou entrar naquele táxi, aquele onde Clarice colocou o Niemeyer e o Costa. Mas quando Clarice viu o táxi em Brasília, ela estava na sua morte e os arquitetos em suas solidões. E eu: morta e solitária? Onde estou? Onde estive para escrever isso agora: em Belo Horizonte ou em Brasília?
*Texto premiado no 1º Concurso Internacional de Literatura da ALACIB – Academia Letras, Artes e Ciências Brasil – 3º lugar Categoria Crônica.
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