11 de junho de 2026

Como as tarifas de Trump mudaram o comércio exterior brasileiro

O Brasil encerrou o ano com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, redirecionou seus fluxos para a Ásia, o Oriente Médio e a África
Casa Branca - Flickr

Quando o governo Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em 2025, a intenção declarada era pressionar Brasília a se alinhar às prioridades comerciais de Washington. O resultado foi o oposto: o Brasil encerrou o ano com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, redirecionou seus fluxos comerciais para a Ásia, o Oriente Médio e a África — e aprofundou uma transformação estrutural que já estava em curso. As tarifas americanas, paradoxalmente, aceleraram a diversificação que o Brasil não havia conseguido concluir em décadas de retórica de política industrial.

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O choque tarifário e a resposta brasileira

O “Dia da Libertação” americano, em 2 de abril de 2025, impôs uma tarifa de 10% sobre exportações brasileiras como piso. Em julho do mesmo ano, Trump elevou as alíquotas para 50% (40% sob o IEEPA mais 10% de tarifa recíproca), entre as mais altas aplicadas a qualquer país no mundo. A reação do mercado foi imediata: entre agosto e dezembro de 2025, as exportações brasileiras aos EUA caíram US$ 3,7 bilhões em relação ao ano anterior, e em fevereiro de 2026, a queda acumulada chegou a 20,3%.

Mas a queda nas vendas americanas não se traduziu em crise — traduziu-se em reorientação. Em fevereiro de 2026, no mesmo mês em que as exportações ao mercado americano recuavam, as vendas à China cresciam 38,7%. O Brasil não perdeu mercado; trocou de cliente.

A decisão da Suprema Corte americana, em fevereiro de 2026, de invalidar parte das tarifas impostas sob o IEEPA reduziu temporariamente a pressão, mas não reverteu os fluxos já estabelecidos. A diversificação tinha ganhado vida própria.

O mapa das exportações em transformação

China: o grande absorvedor

A China consolidou sua posição como principal parceiro comercial do Brasil, cargo que ocupa desde 2009, mas agora com uma margem histórica. O comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025 — mais que o dobro da relação com os EUA (US$ 83 bilhões no mesmo período). As exportações brasileiras à China chegaram a US$ 100 bilhões, o segundo maior valor histórico.

O deslocamento foi imediato e preciso. China absorveu 37% das exportações redirecionadas pelo Brasil entre agosto e dezembro de 2025. No segmento de soja — o principal produto de exportação brasileiro — 76,6% do total exportado já vai para o mercado chinês. O petróleo bruto, que assumiu o topo da pauta exportadora em 2024, também tem na China seu principal comprador.

A lógica econômica é clara: quando os EUA impuseram tarifas sobre a China em 2018 e 2025, os consumidores chineses precisaram substituir importações americanas. O Brasil estava disponível, com volume, qualidade e proximidade de preços. Soja, carne bovina, café e grãos brasileiros entraram pelo espaço deixado pelos exportadores americanos.

Índia: o mercado do futuro

O crescimento mais expressivo por destino em 2025 não foi a China — foi a Índia, com alta de 52,9% nas importações de produtos brasileiros. O comércio bilateral alcançou US$ 15,2 bilhões no ano, e ambos os governos firmaram meta de US$ 20 bilhões para 2026. O Brasil inaugurou seu primeiro escritório da ApexBrasil em Nova Délhi e realizou o Fórum Empresarial Brasil-Índia para estruturar a expansão comercial.

Os produtos em crescimento incluem petróleo, minérios, produtos agrícolas processados e insumos industriais. A Índia representa para o Brasil o que a China foi nos anos 2000: um mercado em rápida expansão, com crescente classe média e demanda por proteínas, energia e matérias-primas — exatamente o portfólio brasileiro.

Oriente Médio e África: fronteiras em abertura

As regiões do Oriente Médio e da África registraram crescimentos de 20,4% e 24,4%, respectivamente, nas importações de produtos brasileiros em 2025. A Arábia Saudita autorizou a entrada de nove frutas brasileiras, consolidando-se como um dos principais destinos do agronegócio na região, com importações de produtos agrícolas superiores a US$ 2,8 bilhões em 2025. O Egito recebeu autorização para importar carne de pato e coelho brasileiros, e novos mercados africanos absorveram proteínas animais que antes tinham os EUA e a Europa como destino preferencial.

A distribuição geográfica das exportações brasileiras em 2025 reflete essa transformação: 48,9% foram para a Ásia, 17,1% para a Europa, 15,2% para a América do Norte, 14% para América Latina e Caribe, 4,4% para a África — e crescendo.

A pauta exportadora: o que muda (e o que ainda resiste à mudança)

Petróleo assume o topo

Pela primeira vez na história, em 2024, o petróleo bruto superou a soja como principal produto de exportação do Brasil, posição mantida em 2025. Os combustíveis minerais e óleos responderam por US$ 57,16 bilhões, ou 17% do total exportado. O pré-sal, que levou décadas para ser desenvolvido, tornou-se o principal gerador de divisas do país.

Agronegócio se sofistica

O agronegócio mantém participação de 48 a 49% da pauta, mas a composição mudou. Além da soja e das carnes — líderes tradicionais —, crescem as exportações de produtos processados, frutas frescas para mercados premium e insumos agroindustriais. O Brasil obteve autorizações para exportar produtos de maior valor agregado a mercados como Japão, Cingapura, Coreia do Sul e vários países do Golfo Pérsico.

Manufaturados: o calcanhar de Aquiles e os pontos de luz

A grande fragilidade estrutural da pauta exportadora brasileira permanece: a participação dos manufaturados de alto valor agregado ainda é relativamente baixa para uma economia do tamanho do Brasil. Mas há pontos de luz. Os manufaturados responderam por 23% das exportações à China no primeiro trimestre de 2025 — alta de 6 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

A Embraer é o caso exemplar de exportação brasileira de alto valor agregado. Em 2024, o BNDES financiou a exportação de 56 aeronaves para mercados nas Américas, Europa e Ásia. Para 2026, a empresa planeja iniciar a produção de veículos aéreos elétricos (eVTOL), aposta que pode abrir um nicho de exportação de ponta nos próximos anos.

Perspectivas para 2026 e além

O Brasil entra em 2026 com a base mais diversificada de parceiros comerciais de sua história recente. O acordo Mercosul-UE, mesmo com implementação parcial e pendências jurídicas no bloco europeu, já começa a gerar efeitos: as importações europeias de produtos brasileiros cresceram 34,7% após a aprovação do texto pelo Senado.

A candidatura brasileira ao status de maior exportador agrícola do mundo — posição que já ocupa em vários segmentos — se consolida. E o crescimento da Índia como destino, somado à expansão no Oriente Médio e na África, reduz a dependência bilateral da China.

O que as tarifas de Trump deixarão como legado para o comércio exterior brasileiro não é um ciclo de restrição e retaliação, mas a evidência de que a diversificação, quando necessária, acontece — e que o Brasil tem musculatura exportadora suficiente para encontrar novos clientes quando os antigos fecham as portas.

A questão que o país ainda precisa responder é se aproveitará esse momento para dar o salto qualitativo — exportar mais produtos com maior valor agregado, mais tecnologia, mais serviços — ou se permanecerá confortavelmente dependente das vantagens comparativas naturais que, por ora, continuam abundantes.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. AMBAR

    29 de abril de 2026 7:43 pm

    Bom, primeiramente um salve aí pro Dudu Bananinha que foi sugerir uma punição exemplar para o nosso país nos isteitis.
    Segundamente um “ufa”, para o povo brasileiro sentir-se aliviado por ter Lula como presidente.
    Terceiramente um reconhecimento agradecido por Lula ser um estadista e grande negociador, não só administrando a crise diplomática gerada pela “ajuda” do bananinha como também abrindo mercados alternativos para a nossa exportação.
    E, finalmente, um aviso para aqueles que vão votar no filho do bolsonaro. Com as capacidades que demonstraram no governo anterior estaremos prontos para abrir um alçapão no abismo e afundar junto com os americanos. É dar o dedinho pro Milei e saltar junto.

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