Consciência Humana, por Cristiane Alves

Foto site Afrobrasileiro

Consciência Humana

por Cristiane Alves

Quando entrei em uma sala de aula pela primeira vez, antes até, quando me sentei a primeira vez à frente de uma diretora de escola em uma atribuição de aula, tive a sensação de que nada seria fácil. O ano era 1998, mês de março, em que eu completaria 25 anos. Tinha tirado um ano para investir no meu primeiro casamento e agora estava ali.

A diretora já estava na sala com uma amiga, e conversavam animadamente. Já havia atribuído as aulas, mas como cheguei no horário precisou voltar o processo. Meu diploma e formação específica na área de conhecimento me deram vantagem. Fiquei com as aulas, não sem antes receber um olhar fulminante de desaprovação e um rosário de “recomendações”.

No ensino médio meu primeiro estágio como estudante do magistério foi o mais rápido da história. Cheguei com o pedido, tudo protocolado, a diretora me olha e “recomenda” sempre usar os cabelos presos. Eu usava longas tranças individuais e finas, as quais usava presas por gosto pessoal. Ela faltou pedir que as escondesse em um lenço. Não voltei.

Mas a experiência docente foi rica. Comecei na periferia de Santana de Parnaíba. Parece redundância, e é. Mas a pobreza possui seus lugares preferidos. E nas cidades dormitórios da grande São Paulo existem os porões do fundo do poço (ou do posso, conforme nossos intelectuais recentes).

Ali chorei com os primeiros bullyings por parte de alunos, adolescentes e adultos. Resolvi que seria professora e fui. Aprendi que racismo institucional não precisa ser velado para ser ignorado. Eu decidi ser uma professora incrível.

Eu fui muito bem. Mas ser professor é tarefa árdua para o psicológico. De qualquer forma ter consciência também é.

Toda vez que vejo uma pessoa nitidamente afrodescendente assumindo uma branquetude imaginária penso o quão triste é. Mas essa atitude de negação é uma defesa.

Se não sou preta essa não pode ser a razão dos maus tratos, da cara feia, do nariz torcido. Pronto, é por qualquer outra razão. E talvez seja inveja. Todo alienado é ferrenho defensor da tese de que algo nele causa muita inveja.

Vejo essas coisas todo tempo. E junto as piadas, a desumanização, o tratamento diferenciado. Mas talvez seja por minha humanidade.

Meu irmão estudava Física com meu, até então namorado ( rapaz branco de olhos verdes, cabelos castanhos claros e quase 1,95 m), quando aos 24 anos esse homem branco foi parado pela primeira vez em uma batida policial. Estavam juntos. Meu irmão é parado desde os dez anos de idade. Ambos estudantes, ambos homens, meu irmão nunca passou de 1,75 m de altura, seja, chamaria menos atenção. Ambos sem histórico de drogas. Ambos fizeram e se tornaram físicos, ambos com mestrado. Apenas meu irmão continuou a ser parado em batidas policiais. Provavelmente por ser humano.

As estatísticas mostram que homens negros são vítimas preferenciais da violência urbana. Parece plausível crer que negros sejam mais violentos. Ao meu ver parece impossível que pessoas creiam que toda bala perdida encontre um negro. Li de um comentarista que balas não conhecem raça. Taí a prova, o humano que a endereçou não estava perdido.

Queria muito ser militante de uma consciência humana, mas creio que essa elevação da capacidade de conviver precise uma equiparação. Assim como a meritocracia. 

Meritocracia é pensamento válido se todos tiverem as mesmas condições para competir. Consciência humana é válida, se todos forem tratados e vistos apenas em seus atributos humanos.

No Brasil o branco teve cinco séculos de plena humanidade. Mais os homens que as mulheres, mas ainda assim, humanas. O humano podia ir e vir, podia comprar e vender, podia estudar, podia dizer sim e não. Ao humano não foi vetado morar ou trabalhar. Não foi criada lei que lhe tornava propriedade. Ao humano foi possível criar seus filhos, alimentá-los e amar. Ao humano a comida, ao outro as sobras.

O humano teve seu rosto no quadro do general ao Divino. O humano brasileiro se eternizou nas estátuas dos heróis. O humano brasileiro tem consciência de suas batalhas vividas, guerras ganhas ou vencidas. O humano é de luta. E os outros? Os preguiçosos, submissos, indolentes, fétidos, indoutos? Nitidamente inferiores.

Inferiores, mas os humanos conscientes instituíram leis privativas, emburrecedoras, debilitantes. Humanos conscientes desumanizaram índios e negros. E ainda fazem.

Não consola, mas vinga, ver que os humanos meritocratas, mesmo no grupo dos humanos privilegiados pela história, não foram todos muito longe. E mesmo não indo, na sua incontestável incompetência, olham para os boicotados e dizem que seus anseios são de menor importância, apenas choramingos. Me divertem. São a prova de sua ignorância.

Não penso que seja medida eterna a necessidade de uma consciência negra. Penso que seja indispensável que tenhamos consciência de quem somos, de nossas lutas e contribuições, de nossa humanidada e auto estima para que possamos agir como semelhantes, partindo da mesma largada.

Quem não se reconhece como humano não pode se sentir representado por uma consciência humana.

Um dia ninguém roubará de ninguém sua própria história e será um dia de superlativa conquista humana.

Cristiane Alves – Formação em Geografia (licenciatura e bacharelado) – UNESP, Especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação – UNESP

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