Dançando no abismo: o lucro do Bradesco em 2019, por André Motta Araújo

Banco criado por Amador Aguiar tinha visão de povo, mas após a sua morte tornou-se uma fábrica de milionários

Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Foto: Reprodução

Dançando no abismo: o lucro do Bradesco em 2019

por André Motta Araújo

Com uma economia patinando em 1,1% de crescimento medíocre, com um estoque de desempregados, subempregados, desalentados e informais mal pagos de 30 milhões, com uma indústria em queda livre, o Bradesco se apresenta nos palcos da economia com um lucro escandaloso de R$25 bilhões, 20% acima do que obteve em 2018.

É um acinte aos brasileiros e ao Brasil como Pais, é um lucro extorquido pelos juros abusivos sobre os mais pobres pendurados em cartões e cheque especial, em completo desalinho com os demais segmentos da economia. Há algo de profundamente errado nesse resultado.

A conta na sociedade brasileira está desequilibrada, o financismo está ficando com o filet mignon, a picanha, o cupim e o resto da sociedade com os ossos.

A ironia é que esse é um banco criado com uma visão de povo, um banco para os mais modestos da sociedade dos anos 40 e 50, seu Amador, que tive o prazer de conhecer em sua casa, era um homem muito simples e criou seu império bancário de olho no Brasil mais modesto daqueles tempos.

Nos anos 50 pobre não tinha conta em banco: os operários recebiam seus envelopes das fabricas em dinheiro vivo. Conta em banco só classe média para cima; os bancos estavam em São Paulo na Rua Quinze e na Rua Boavista.

Havia raras agencias em bairros e o Bradesco foi o primeiro que estendeu uma rede fora do Centro ao absorver o Banco Nacional Imobiliário, do banqueiro Orozimbo Roxo Loureiro – assumindo inclusive a casa dele no Pacaembu, que foi transformada em um clube de negócios, o Nacional Club e o Clube dos 500 na Via  Dutra, um clube de golfe e resort no meio caminho SP-Rio. Estórias e lendas sobre seu Amador são muitas, e todas no eixo de sua simplicidade, embora não fosse santo.

Após sua morte, mudou aos poucos a alma do Bradesco: virou uma fabrica de milionários, com diretores no geral nascidos fora da aristocracia na base social de outros bancos como o Itaú (Setubal Villela), o Comercial do Estado de S.Paulo (Whitaker) o Brasul (Mellão), o Nacional do Comercio de S.Paulo (Paes de Almeida), o Commercio e Indústria de S.Paulo (Quartim Barbosa). Eles eram banqueiros da alta sociedade paulista; o negócio de banco na S. Paulo antiga tinha na raiz os barões do café do Império.

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Já os diretores do Bradesco dessa geração começaram como bancários modestos e quando chegavam à Diretoria mudavam de escala e estamento: começavam no primeiro degrau da carreira e, depois da morte de seu Aguiar, se aposentavam como fazendeiros milionários. Seu Amador devia ter se revirado no tumulo com essas proezas de seus auxiliares.

A era Amador Aguiar foi o ciclo virtuoso do Bradesco, pioneiro em quase tudo no mercado bancário moderno.

Com governança nebulosa e complicada, o Bradesco opera como banco sem dono aparente, um candidato obvio para uma estatização em um governo progressista, como fez o México com o BANAMEX e todos os grandes bancos nos anos 90, e a Inglaterra e a Itália no pós-guerra. A estatização de bancos não é nenhuma novidade nas economias capitalistas, geralmente é resultado de crises sociais agudas, como a que se prepara no Brasil.

Há de fato um desequilíbrio sistêmico numa economia onde há grande numero de empresas da produção, como usinas de açúcar e álcool, em recuperação judicial, onde no outrora cinturão industrial do ABC há avenidas inteiras de galpões industriais agora sem indústrias, como a Av.Rudge Ramos, e ao mesmo tempo um só banco tem um lucro sideral, extraordinário até em países ricos, que cresce em 20% em meio a uma recessão que já dura cinco anos.

No Chile, as administradoras das aposentadorias por capitalização, as AFB, também tiveram lucros estupendos em 2018, mas em 2019 a sociedade chilena entrou em convulsão por esse tipo de coisa. O lucro do Bradesco vai ser comemorado pelos “mercados”, mas para o Pais é um desastre.

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11 comentários

  1. É a “super exploração” do povo.
    Pagar por empréstimos e “produtos”: capitalização, seguros, etc.
    Num país sério isso deveria acabar, ser incorporado pelo governo, “numa crise que se aprofunda” como você bem diz .
    Mas, quem é sério?

    Tenho uma tendência em achar que em breve os juros sobem, a inflação sobe e o banco mantém seus lucros, TAMBÉM às custas do mercado DI.
    Aí a super exploração deixa só de ser do escravo, digo do correntista e passa a ser de todos os escravos, digo da população em geral. Lei do teto, mercado DI pagando 14% a.a…sai que é sua, banco! : O orçamento público é seu, banco!

    Festa dos ricos!

  2. Ora, e com o tchutchuka, em vez de fica calado, provocando os trabalhadores como um maloqueiro de rua, daqueles que logo recebem uma sova das grandes para ficar quieto, o caldo é explosivo……
    Não á toa alguns abutres estão com a conversa mole da distribuição de renda……estão com medo que lhe comam os dedos, com anéis e tudo……. esses bancos tem muito a agradecer ao ociólogo, que permitiu essa brutal concentração bancária…concentração que o banqueiro travestido de ministro sinistro, quer ampliar, como se abrir bancos no páis fosse proibido……….a vez deles vai chegar….tenham certeza……hoje devem estar cansados de ficarem batendo bumbo a noite inteiro para o cramunhão…e descansando sentados em cima das baquetas grossas e ásperas….

  3. A visão protestante da estrutura do Bradesco também impulsionou este projeto de Cidadania interligado entre os Negócios, Empreendimento Financeiro e Empreendedorismos Sociais Privados. Suas Escolas, a Cidade de Deus em Osasco mostram o quanto. Merecia outra matéria. Mas na Pátria do AntiCapitalismo de Estado, o tal Capitalismo não pode promover evolução e progresso. “Cachorro atrás…?” Pulverização bancária promovendo Cultura, Desenvolvimento, Expansão Nacionalista ligada à AgroIndústria Cafeeira Paulista da 1.a República é só coincidência? Afinal estamos na Pátria das Coincidências, não é mesmo? Mas sigamos, brigando com a História. Mostrando o Bradesco, como exemplo, não continuamos com o AntiCapitalismo de Estado? É culpa dos bancos Nacionais o tal rentismo, financismo, concentração,…do Capital ou Política de Estado? O Estado Brasileiro, suas visões e políticas e doutrinação nos levam ao abismo. Bancos trabalham dentro de suas possibilidades. Não existe santo nesta história, só que o Ente Privado acorda todo dia, precisando construir sua realidade. O Estado reside sobre o trabalho dos outros. Seja Empresário ou Trabalhador. É inconcebível que um Bem Durável, como por exemplo um Automóvel, seja vendido em 24 vezes com Juros. Não se compra mais nada no Brasil, fora dinheiro. Não se vende geladeira, televisor, automóvel, celular,…Se vende um Empréstimo Pessoal. O produto não é financiado. É feito um Empréstimo Pessoal sobre seu valor. Um automóvel tem seu custo financeiro estendido por pelo menos 2 anos. Quem já trabalhou na Indústria sabe muito bem disto. Deveria ser vendido pelo Preço à vista, acrescido pelo custo financeiro assumido pela Rede Bancária. Qual seriam os Juros para Consumo atualmente? 6% a.a? Garantidos pelo bem? Garantido pelo Tomador? Garantido pelo Fabricante? Compra-se um automóvel modesto de 50 mil reais e são pagos 80 mil reais, depois de 24 meses. Somos a Pátria da Surrealidade !!! A culpa é do Bradesco? A maior parte da culpa? Pobre país rico. Terno e gravata não faz do chimpanzé um Estadista. Mas de muito fácil explicação.

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    • E assim falou oligartustra,
      O fantasma do soldado entrincheirado com sua metralhadora giratória desgovernada de balas de festim.

    • Por quê acontece isso no Brasil? Saberia você Didico, explicar as causas constitucionais, por que isso acontece? .

  4. O pior de tudo é que este é um segmento que decide regras, taxas e índices por si próprio, através da Febraban e do controle do Banco Central e do próprio governo e Legislativo.

    PS: Fora os demais, vamos aguardar o do Itaú (e do Santander, que vai para a Espanha).

    • E para completar o desastre vota-se logo mais a INDEPENDENCIA do Banco Central, que significa
      nenhum controle do Estado sobre a politica monetaria e TOTAL controle do sistema bancario
      sobre o Banco Central.

  5. Então vamos acordar e deixar de usar bancos , trabalhei 21 anos no Bradesco sei muito bem o que eles querem endividar cada vez mais as pessoas , essa onda de financiar em prazo maior é só para ter lucro altíssimo mesmo e deixar as pessoas mais pobres, tudo mentira a questão da pessoa comprometer 1/3 do salário.
    Ah e sai porque não aguentava mais ter que colocar produtos nas pessoas e pedi para sair, lamentável.

  6. O caminho que a China pegou foi exatamente este, o controle do dinheiro e do sistema financeiro. Quanto mais se concentra o credito na economia brasileira, mais os barões percebem o risco que estão correndo. Se afasta o “risco sistêmico”, basta cortar uma ou outra cabeça…

    Enquanto namoram com o perigo, ou seja, os militares, ABUSAM cada vez mais.

    Eles sabem que “meio de produção” cada vez mais é – na verdade, sempre foi – o DINHEIRO. Por isso a sanha de controlar o Estado. A guerra entre a “burguesia” e o Estado é esta. A China já venceu a “batalha final”. A dela agora é contra os “inimigos” externos, as apelidadas “contradições primárias”.

  7. + comentários

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