Dom Quixote, um tratado sobre a fantasia e a revolução, por Maurício Mulinari

O texto de Cervantes, na essência, é uma profunda crítica da impotência espanhola diante da modernidade burguesa

Estátua de Dom Quixote em Havana - Cuba

do Instituto de Ensinos Latino-Americanos – IELA

Dom Quixote, um tratado sobre a fantasia e a revolução

por Maurício Mulinari

Longa e prazerosa empreitada a leitura dos dois volumes de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Obra grandiosa, que demarca claramente a entrada da literatura espanhola no romance realista moderno, o autor cria um tratado sobre a fantasia. Longe da leitura atravessada pelo cinismo burguês, que faz de Dom Quixote apenas um louco e de Sancho Pança um mero ignorante que despertam o riso do leitor, as personagens são muito mais que isso. O texto de Cervantes, na essência, é uma profunda crítica da impotência espanhola diante da modernidade burguesa, um país que, mais de um século após o seu auge, já não conseguia ostentar a nobreza do passado nem apresentar-se como a locomotiva do futuro.

De outro lado, Dom Quixote de la Mancha é um elogio à humanidade que está presente na fantasia ou no sonho de mudar o mundo, muito diferente do que o cinismo burguês insiste em reproduzir. Se as ideias dominantes são as ideias da classe dominante, a burguesia e seus asseclas precisam construir a ideologia de que nada pode ser mudado. Desta forma, esta leitura, onde o “quixotesco” passa ser tratado como sinônimo daquele ingênuo e imaturo que luta contra moinhos de vento como se fossem dragões, é uma grande mentira. Uma leitura atenta e radical de Cervantes de maneira alguma permite essa interpretação estreita e medíocre dos feitos do cavaleiro da triste figura.

A questão nacional espanhola

Primeiramente, é preciso entender a Espanha, a realidade nacional que inspira e serve de cenário das aventuras do cavaleiro Dom Quixote e de seu escudeiro Sancho Pança. Isso mesmo, na Espanha e não no cosmopolitismo babaca dos críticos de arte é que se desdobra a obra universal de Cervantes. O drama tem como real protagonista a questão nacional espanhola. Um país que, em torno de 100 anos antes de Cervantes escrever o primeiro volume de sua obra (1605), havia passado pelo processo de unificação das coroas de Aragão e Castela, constituindo-se como Estado nacional moderno centralizado, mas, diferentemente de outros Estados nacionais do período (Inglaterra e França, por exemplo), a vitória na Espanha havia sido da nobreza feudal e do catolicismo, e não das forças burguesas liberais e portadoras do desenvolvimento das forças produtivas da nação.

É importante ter isso claro para entender a impotência objetiva da fantasia de Dom Quixote. O fidalgo, filho da nobreza agrária espanhola, apaixonou-se pela leitura dos romances de cavalaria, escritos exatamente no período que antecedeu a unificação (1469). Estes romances eram produto da reconquista espanhola, que, depois de séculos de domínio muçulmano na península ibérica, havia sido levada a cabo também durante séculos pelos nobres feudais, proprietários de terras que trataram de vencer pela capa e espada a organização econômica e social muito mais avançada dos muçulmanos. Estes nobres, representantes do atrasado feudalismo europeu e de baixa cultura política, operaram a vitória contra os árabes, tendo no catolicismo a ideologia unificadora dos seus interesses locais dispersos. Não por acaso, a unificação levado a cabo logo após o fim do processo de reconquista, foi conduzida pelos reis católicos, representantes da nobreza de Castela, a principal força do feudalismo espanhol.

Todo processo histórico material (econômico, político, social e militar) é acompanhado da sua interpretação pela produção intelectual, que molda e legitima as vitórias da classe que passa a ser dominante, traduzindo a identidade de um povo. Este é processo material de produção das ideias dominantes de um período. Aqui entram os romances de cavalaria amados por Dom Quixote. As histórias, recheadas de invenções metafísicas típicas da cultura popular de um povo camponês e analfabeto, que exaltavam a nobreza católica de Amadis de Gaula e outros tantos heróis que viriam a legitimar a conquista da nobreza feudal espanhola contra os árabes.

Entretanto, a reconquista e a unificação seriam o epílogo da grandeza espanhola. Logo após o fim destes processos, ainda no início do século XVI, o modo de produção feudal dominante se confrontaria com as forças burguesas nascentes no país. Concentradas principalmente na Catalunha, mas que representavam o capital incipientemente acumulado nas cidades, e embebidas pelo maior nível cultural promovido pelos séculos de dominação árabe e por redutos comerciantes judeus, essas forças se rebelaram contra a propriedade estamental da terra da nobreza feudal. Forças urbanas que tentaram assim uma insurreição democrática, que incorporasse as massas populares na decisão dos rumos do Estado. O mote era a ampliação do liberalismo econômico e a implementação de uma reforma agrária que submetesse o poder da nobreza feudal rural aos interesses da acumulação de capital.

A vitória militar deste conflito, no entanto, não foi das forças do capital, mas sim da nobreza centralizada pelos reis católicos, que trataram de usar da Inquisição como o principal instrumento de perseguição aos hereges insurretos, afastando e eliminando dos centros urbanos os elementos que poderiam fazer com que a Espanha não continuasse seu processo de decadência material e política. De outro lado, a conquista e o genocídio indígena na América, que ocorrem em paralelo com estes desdobramentos em solo europeu, viria garantir os rios de ouro necessários para assegurar mais alguns séculos de domínio e atraso da nobreza espanhola, sendo a burguesia inglesa, vitoriosa na Revolução Gloriosa contra a sua nobreza, a beneficiária em última instância desse processo de acumulação primitiva.

Voltamos assim ao momento da escrita da obra magna de Cervantes. Dom Quixote, constrangido pela pobreza material da Espanha dominada pela hegemonia dos reis católicos sofre o choque diante da grandeza dos romances de cavalaria que habitavam sua imaginação. O choque aqui é produto da própria questão nacional espanhola, que se de um lado alimenta ideias de nobreza heroica da cavalaria andante, de outro se defronta com a pobreza rural que vai perpassar o cenário de todas as aventuras do cavaleiro da triste figura.

Dom Quixote e Sancho Pança, a nobreza idealizada e o raquitismo burguês

Dom Quixote de la Mancha é o nobre idealizado nos romances de cavalaria. Coloca para si a tarefa de recuperar a grandeza da sua madre Espanha, tudo em nome do amor puro e intocável pela amada Dulcinéia del Toboso. Por isso, abandona três vezes a alcunha de Alonso Quijano e veste a armadura do cavaleiro andante em busca de aventuras que escrevam o seu nome na história. Enfrenta moinhos de vento como se fossem dragões, boiadas como exércitos mouros e um teatro de títeres como se estivesse diante de gigantes. Sancho Pança, a racionalidade mesquinha burguesa, impotente diante de um mundo rural, por sua vez, acompanha o cavaleiro como seu escudeiro. Não tem projeto a não ser ganhar alguns tostões na companhia do fidalgo que lhe promete desde o início um reino para Sancho ocupar a posição de governante.

Se a grandiosa fantasia de mudar o mundo é que move o cavaleiro, o que move o escudeiro é, em princípio, o interesse individual. Após algumas aventuras, no entanto, Sancho também passa a ser contaminado pelo ímpeto de Dom Quixote, que, persistentemente, derrota após derrota, exibe uma firmeza de princípios que encanta tanto o escudeiro quanto o leitor. Sancho Pança e o leitor passam a dar guarida às loucuras de Dom Quixote, que tem em ambos os interlocutores necessários para viver sua fantasia. Afinal, até mesmo a fantasia é algo que só tem materialidade no social, quando encontra fora de si aquilo que lhe dê equivalência.

A tragédia e a farsa

No primeiro volume da obra, onde vivenciamos a primeira e segunda saída dos personagens para viver suas aventuras, nos defrontamos com a tragédia espanhola. As aventuras, orientadas pela fantasia irrealizável de reconstituir a grandeza da cavalaria andante, são todas acompanhadas de derrotas fragorosas, que custam física e mentalmente a ambos os personagens. Apesar de Dom Quixote associar todas suas derrotas aos magos que lhe perseguem com encantamentos, a derrota material sucessivamente experimentada custa seu preço.

Dom Quixote não consegue mais aguentar e se isola na floresta, paralisado diante da impotência. Sancho, que sai em busca de Dulcineia como última forma de reanimar o seu amo, encontra neste interim o cura (padre) e o barbeiro (médico), moradores da vila de onde saíram os dois aventureiros. São estes dois personagens, representantes da burocracia do poder espanhol, a ordem dominante, que tratam de ludibriar Dom Quixote e trazê-lo novamente para casa, tentando por fim “curá-lo” da loucura promovida pelos livros de cavalaria. Desta forma, cura e barbeiro são movidos pelo sentimento de adequação à ordem, são os responsáveis pelo primeiro retorno de Quixote ao seio familiar, pelo desfecho da tragédia do primeiro volume.

No segundo volume, a história se repete, agora não mais como tragédia, mas como farsa. O cavaleiro que havia fingido estar “curado” novamente decide sair de casa para novas aventuras. Carrega consigo mais uma vez o amigo Sancho, que, apesar de humilhado e quebrado diante dos fracassos do primeiro volume, efetivamente tinha enchido os bolsos de dinheiro e considerava lucrativa mais uma saída junto ao seu amo.

Algo, no entanto, mudou de um volume para o outro. As aventuras de Dom Quixote, originais no primeiro volume, agora já haviam sido contadas pela pena de escritores que se inspiraram em sua história. Quixote tornou-se personagem de livros de cavalaria, o Amadis de Gaula que tanto sonhara. Tanto é assim que o próprio Cervantes transforma-se em parte do texto. Como Cide Hamete, nome da sua personagem, o narrador que era mero observador passa a ser onisciente, intrometendo-se aqui e acolá com algumas considerações sobre o ocorrido.

Para além disso, cavaleiro e escudeiro, no meio de suas novas aventuras, encontram-se permanentemente com personagens que já conhecem a “loucura” de Dom Quixote de la Mancha. Assim, ao contrário do primeiro volume, onde o cavaleiro era confrontado na sua idealização pelo espanto e rechaço daqueles que com ele se atravessavam, os novos interlocutores passam a abraçá-la, criando as condições farsescas ideias para vivermos o segundo volume. De derrotas fragorosas que enobrecem as convicções de Dom Quixote, ele passa agora a ter falsas vitórias que vão lhe tirando, pouco a pouco, a firmeza necessária para seguir em frente no seu intento.

Caso clássico disso é quando Dom Quixote e Sancho Pança encontram o casal de duques que vão ocupar a maior parte do segundo volume. Os duques funcionam como os deuses do teatro grego que, apaixonados pela burla até o nível do puro sadismo, criam as condições para Quixote viver seu ideal cavalheiresco e para Sancho finalmente ocupar o governo de uma ilha. O segundo, na função de governante surpreende a todos e demonstra através da sua racionalidade apurada que de tolo não tem absolutamente nada. Capitula apenas diante da fome e da guerra, numa reedição fantástica da derrota militar da burguesia espanhola para o atraso feudal.

Por fim, Dom Quixote abandona a cavalaria quando é derrotado por Sansão Carrasco, o bacharel que se faz passar pelo cavaleiro da Branca Lua e exige que Quixote volte a ser Alonso Quijano. Não à toa o vencedor da fantasia é o acadêmico. Sansão desde o início da obra quer provar que a cavalaria é coisa do passado, mera letra morta. Tenta no começo do livro derrotar Dom Quixote, mas acaba tropeçando e sendo derrotado. Passa então a ser movido pelo mero sentimento de vingança do superior acadêmico que tropeçou diante da viva fantasia. Analogia perfeita para o papel do acadêmico na sociedade moderna: um castrador do movimento constante da vida, combatente da fantasia em nome da letra morta que lhe legitima como ideólogo da classe dominante.

Ao voltar a ser Alonso Quijano, nosso personagem principal adoece e perde a vida. Resta a questão: Dom Quixote de la Mancha é uma crítica à fantasia, validando a leitura burguesa e acadêmica que trata o “quixotesco” como uma ingenuidade digna de pena e risos? De forma alguma!

A fantasia está morta?

O romance de Cervantes é uma crítica profunda da impotência produzida pela questão nacional espanhola na entrada da modernidade. A fantasia de mudança e liberdade, essa inexorável lei do movimento da vida, não encontrava nenhuma classe social que pudesse transformar suas ideias em forças materiais. De um lado, uma nobreza hegemônica representante da grandeza de um passado morto, de outro, uma incipiente burguesia derrotada ainda no berço que não foi capaz de ir para além do mero interesse mesquinho individual.

Sancho abandona seu reino e Dom Quixote é derrotado pelo cavaleiro da Branca Lua. Este desafia Dom Quixote para um duelo que, caso vencido, exigiria do nosso personagem principal que, por nobreza cavalheiresca, voltasse a ser Alonso Quijano e abandonasse por um ano o exercício da cavalaria. Retornando derrotado para sua casa, destituído de fantasia para lhe movimentar, Dom Quixote adoece e morre na ausência de sentido para sua vida. O texto de Cervantes, desta forma, é uma crítica desta tragédia e farsa espanhola, um país que haveria de estar relegado a viver de bravatas de grandeza diante de uma realidade completamente distinta e melancólica.

A fantasia de mudança e liberdade, por sua vez, permanece viva e é o que há de mais humano e verdadeiramente encantador nas figuras de Dom Quixote e Sancho Pança. A classe social portadora do novo mundo, depois de séculos de domínio burguês, deixou de ser a burguesia, obviamente. Tal qual a nobreza feudal europeia, a burguesia hoje ocupa a posição de reação na história. Ao proletariado, esse que é o principal produto da modernidade capitalista, coube ser o novo portador da fantasia concreta revolucionária. Não à toa, Dom Quixote foi o livro distribuído em massa após a erradicação do analfabetismo na Cuba de Fidel e na Venezuela de Chávez. Vencendo ou perdendo, nas várias batalhas nacionais que travou e continua travando, a luta revolucionária dos trabalhadores permanece. “Afinal, mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”.

Fontes:

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Volume 1 e 2. Rio de Janeiro/RJ: Editora Nova Fronteira, 2018.

DIETERICH, Heinz. Relaciones de produción en América Latina. México: Ediciones de Cultura Popular, 1985.

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