Falta identificar os conspiradores
por Guilherme Scalzilli
Quem acredita que os ataques de oito de janeiro fracassaram precisa recalibrar seu otimismo. Não houve “tentativa” alguma em Brasília. A ideia de que o governo impediu um golpe distorce os acontecimentos para além do que autoriza a prudência estratégica.
Os democratas se acostumaram a interpretar o episódio pelas possibilidades que ele não efetivou. Mas ninguém sabe se os ataques foram planejados para realmente derrubar Lula. Tinham caráter golpista, sem dúvida, mas sua finalidade imediata segue duvidosa.
Os militares não precisariam do vandalismo alheio para assumir o poder. Alegando a mera iminência de distúrbios, com apoio da PM e de uma companhia de soldados, tomariam o Planalto, o Congresso, o STF e o TSE, até que a ruptura ficasse irreversível.
A escolha de um domingo, em pleno recesso parlamentar e judiciário, facilitou o êxito “territorial” dos ataques, mas também anulou o sentido pragmático da bandeira golpista. Uma instituição depredada, sem funcionários, é apenas um amontoado de escombros.
Ao mesmo tempo, as ações das cúpulas militares, das autoridades civis e dos líderes dos baderneiros foram coordenadas. É ingênuo ver nos comandantes uma hesitação perplexa ou resistente a demandas externas. Aquilo não aconteceria sem roteiro preestabelecido.
Só um controle bem feito explica a relativa modéstia dos danos, especialmente aqueles que poderiam atingir os próprios bandidos. Deixada ao sabor do acaso e dos humores, a balbúrdia levaria a explosões e incêndios de grande porte, decerto com vítimas.
Superando a fantasia do levante espontâneo e imprevisto, percebemos que o ataque se define pelo que de fato realizou, não pelo desejo manipulado dos executores. Em outras palavras, que os objetivos da ação transparecem nos seus efeitos palpáveis.
Primeiro: ofuscar a simbologia positiva da posse de Lula. A inevitável cobertura midiática virou uma propaganda fascista de alcance planetário. Algo se quebrou no otimismo democrático do novo governo e até na imagem vitoriosa do presidente.
Segundo: substituir a derrota eleitoral do bolsonarismo por um triunfo performático de sua militância. O codinome “festa” resume o viés exibicionista e intransitivo do evento. A catarse rebelde preveniu o melancólico abandono das vigílias salvacionistas.
Por fim, o “triz” que faltou para o dito golpe dificulta a recomposição da normalidade. Recurso terrorista usual, o perigo iminente gera medo, paranoia e conflito interno. O desfecho ambíguo, fantasiado de retorno à ordem, fez o governo refém de seus algozes.
Em suma, o delírio golpista do suspeito é inversamente proporcional à sua culpa efetiva pelo 8 de janeiro. Num paradoxo cruel, quanto mais os democratas se aproximarem dos verdadeiros mentores do ataque, maior será o êxito do projeto desestabilizador inicial.
A CPMI não alimentará a crise militar, mas pode expor suas dimensões. Resta saber se o governismo tem vontade e força política para admiti-las. Pois, uma vez aberto o baú de assombrações, essa briga exigirá muito mais do que manifestos democráticos.
Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Website: www.guilhermescalzilli.blogspot.com
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+almeida
3 de maio de 2023 1:57 pmEu imagino que a tática pensada e planejada, para o ataque de 08 de Janeiro, tem muita familiaridade com táticas militares usadas em guerras e operações surpresas de assalto.
Avalio ser óbvio que operações militares não oficiais jamais representariam oficialmente qualquer das forças militares, mesmo com o conhecimento e/ou planejamento e/ou tolerância do alto escalão da ativa.
Então, eu imagino que por não ser reconhecida de caráter oficial, a operação usaria lideranças, também não oficiais, para comandarem o risco da invasão quase suicida e executarem a operação alvo.
Assim, eu entendo que possa ter havido uma busca entre os famosos grupos de porras loucas, que em sua maioria são ex-militares, militares da ativa de baixo escalão, policiais e civis fanáticos pelo controle total do poder, que tentariam devolver aos militares.
Contudo e supondo que essa minha imaginação tivesse algum fundamento, eu entenderia que a coisa ainda pode ser muito mais grave do que eu penso. Afinal, quem em sã consciência iria confiar e dar credibilidade a qualquer força militar que recrute porras loucas para fazer subversão, terrorismo, destruição do patrimônio público, invasão de propriedade, ataque a democracia, ataque a ordem e ataque ao estado de direito?
Em resumo, eu acredito que só a punição em massa, do menor ao maior de todos, com a colaboração explicita e transparente de todos os poderes, poderá resgatar a credibilidade que a população nacional e internacional tinha pelos nossos poderes constituídos.