FHC, Lula e a lenda japonesa dos mestres de Takumi e Kawanari

Entrei em contato com a obra da jornalista Mitsuko Kawai por acidente http://observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/mitsuko-kawai-jornalista-tardia/. Volto a fazer referência a ela em razão de uma pequena lenda japonesa que ela narra no seu livro Lendas do Japão 7, Editora do Escritor, Luz e Silva Editor, São Paulo, 1997.

“Duelo de Mestres” é narrada da página 40 à página 43 e pode ser singelamente resumida da seguinte forma:

Antigamente no Japão havia dois mestres. Kudara-no-Kawanari era mestre em pintura e Hida-no-Takumi era mestre em construção.

Mestre Takumi convida o colega para visitar sua nova capela, uma construção rara e diferente. Quando chega ao local, Kawanari não consegue entrar no prédio. Sempre que ele se aproxima de uma porta a mesma se fecha e outra se abre. Quando ele vai até a próxima porta ocorre o mesmo, de maneira que ele sempre é impedido de entrar no prédio. O mestre construtor zomba do pintor e este vai embora.

Alguns dias depois Kawanari convida Takumi para para cear na sua casa. Quando chega à casa do pintor, o construtor se depara com a porta aberta e um aviso escrito num papel “Estou ocupado em fazer comida. Entre e me espere na sala. Esteja à vontade.” Takumi entra na casa, mas caiu duro. Ao chegar na sala ele se deparou com um cadáver em decomposição pendurado no teto. Os vermes devoravam o falecido e o cheiro do morto deu tontura no construtor. Kawanari então zombou do colega dizendo que o cadáver era apenas uma pintura e que ele havia ficado tão impressionado que havia sentido um cheiro que não existia no local.

A lenda japonesa termina com o fortalecimento da amizade entre Kawanari e Takumi. O construtor se tornou admirador do pintor e este da arte do colega. A fama de ambos e as artes deles acabaram se espalhando pelo Japão.

FHC e Lula não são amigos, mas a fama de ambos também se espalhou pelo Brasil. O tucano foi um grande ilusionista. Ele construiu o “Estado do real” apesar de não ter sido o verdadeiro pai do plano econômico. No Estado construído por FHC somente os tucanos e seus amigos podiam entrar, o povo ficava embasbacado do lado de fora feliz porque podia comprar frango por 1 real o quilo.

O fato de milhares de nordestinos terem morrido de fome durante o governo FHC é geralmente omitido pela imprensa. Desde a década de noventa os jornalistas se esforçam para sustentar a ilusão neoliberal construída pelo PSDB. O presidente tucano, contudo, beneficiou apenas um punhado de banqueiros e empresários que compraram estatais lucrativas a preço de banana. FHC não combateu os privilégios judiciários e seculares e por isto foi transformado no herói improvável da direita cartorial. Apesar de ser professor, o tucano não foi capaz de construir uma só sala de aula numa universidade pública.

Lula fez mais pelo povo brasileiro do que FHC. O presidente petista resolveu o problema da fome, construiu dezenas de universidades e realizou um bem sucedido programa de valorização do Salário Mínimo. O programa Bolsa Família se tornou um sucesso nacional e internacional, tanto que passou a ser estudado e copiado por vários países. O governo do PT combateu alguns privilégios judiciários e senhoriais que remontam ao século XIX, razão pela qual se transformou no inimigo irredutível da elite cartorial brasileira.

O primeiro presidente petista, contudo, também foi um ilusionista. Sem exigir a punição dos militares que cometeram crimes durante a Ditadura, o petista expandiu muito os gastos militares durante seu governo. Além disto, Lula aderiu à uma versão atualizada da ideologia do “Brasil Grande” em voga durante os anos de chumbo. As disputas diplomáticas entre o Brasil e os EUA aterrorizaram uma parcela significativa da elite brasileira acostumada a auferir lucro fácil mediante a submissão servil às vontades imperiais e imperialistas do Tio Sam. A aproximação do Brasil com o Irã e a compra de armamentos russos incomodou muitos brasileiros influentes que ainda vivem nos anos 1950. Isto explica o renascimento do anticomunismo embolorado nos últimos anos.  

As relações Brasil/EUA durante o governo Lula, contudo, não foram tão inamistosas. Em muitas oportunidades ficou patente que os diplomatas brasileiros e norte-americanos jogavam no mesmo time. Isto ocorreu apesar imprensa brasileira interpretar as ações diplomáticas brasileiras em relação aos EUA como perigosas e até mesmo provocativas.

FHC construiu um Estado em que quase todos não podiam entrar. Ele é a versão brasileira do construtor japonês. Lula pintou um cadáver internacional que aterrorizou a imprensa e a elite brasileira submissa aos EUA. As relações entre ambos, contudo, não são amistosas. Não são e não poderiam ser. Ambos representam duas concepções de Brasil totalmente diferentes. O país de FHC tem apenas 10 milhões de pessoas, os ricos e a classe-média tradicional. O de Lula tem 200 milhões de brasileiros, muitos dos quais nem mesmo deveriam ter direito a voto segundo aqueles que foram às ruas com cartazes dizendo que combatem a Democracia e desejam a volta da Ditadura Militar.

Durante seu governo FHC fez tudo o que foi necessário para se proteger e para proteger seus amigos. Nenhuma denúncia contra seu governo foi apurada ou resultou em punição. Lula não hesitou em autorizar investigações contra petistas, mas empregou uma fidalguia suicida em relação à quadrilha de FHC. As negociatas dos tucanos não começaram a ser investigadas no início do primeiro mandato de Lula. O fracasso da política “Lulinha paz e amor” é a verdadeira origem remota da crise que paralisa o governo Dilma Rousseff. Em seu discurso na festa de 36 anos do PT Lula disse que esta fase foi superada e que doravante tudo será diferente. Só o futuro dirá se o líder petista acordou a tempo de recuperar o tempo perdido ou se ele perdeu tempo demais antes aceitar uma declaração de guerra que já havia sido feita a ele em 1989 pela imprensa.

O que quer que ocorra nos próximos meses e anos não alterará um resultado possível desta nova lenda brasileira. Daqui a um ou dois séculos estes dois ilusionistas (FHC e Lula) serão estudados, admirados e eventualmente combatidos pelos novos pintores e construtores que adentrarem na arena política brasileira.   

 

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