A vitória do cinema brasileiro no Globo de Ouro consagra, além de filmes e artistas, um projeto de país que decidiu tratar a cultura como política de Estado, instrumento de soberania e pilar da democracia.
O olhar é da presidente da Funarte, Maria Marighella, que comentou o tema durante o programa TVGGN 20 Horas [assista abaixo].
Cultura, soberania e partilha coletiva
Ao comentar o significado do prêmio em entrevista ao jornalista Luis Nassif, Maria destacou que a conquista ganhou ainda mais força simbólica porque foi compartilhada com o país.
Segundo ela, os artistas transformaram o reconhecimento internacional em um gesto político coletivo, reafirmando que a cultura não se esgota na dimensão estética, mas se projeta como expressão de identidade nacional e responsabilidade pública.
“Nós comemoramos muitíssimo essa grande vitória das artes brasileiras, do cinema brasileiro, dos artistas brasileiros. Mas eu acho importante dizer que não é uma vitória apenas estética. Ela é também uma vitória da soberania do Brasil, do modo como o Brasil se comporta. São artistas muito ciosos da sua responsabilidade pública e que fizeram desse marco um ato de partilha com o seu país. Isso é muito bonito, porque o Brasil merece.”
Não é acaso: políticas públicas e projeto de país
Para Maria, as vitórias consecutivas do cinema brasileiro não são fruto do acaso. O reconhecimento internacional, segundo ela, resulta de um percurso construído ao longo do tempo, sustentado por políticas públicas, investimento no audiovisual e na compreensão da cultura como área estratégica.
Esse resultado ganha ainda mais peso em um momento de consolidação do setor. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) indicam que o audiovisual brasileiro alcançou uma participação no mercado de cerca de 10,1% do público total de cinema — a maior dos últimos anos, em contraste com o mesmo período de 2023, quando a fatia dos filmes nacionais era de apenas 1,4%.
No total, o setor registrou mais de 125 milhões de ingressos vendidos, com receita de R$ 2,5 bilhões em bilheteria e cerca de 79 mil empregos diretos, números que evidenciam a relevância econômica e social da produção audiovisual no país.
“Não é coincidência, não é acaso. São duas vitórias consecutivas em dois anos seguidos, e isso fala da força do cinema brasileiro e das artes brasileiras. Esse percurso revela um país que tomou a decisão de investir no seu cinema, no seu audiovisual, como uma dimensão estratégica do seu desenvolvimento. E isso ganha ainda mais peso depois de um período em que a cultura foi atacada, desmontada, censurada, mas mesmo assim resistiu.”
Marighella: memória e resistência
Neta do guerrilheiro Carlos Marighella, uma das principais figuras da resistência à ditadura militar, Maria também falou a partir de um lugar pessoal e histórico ao relembrar o filme Marighella (2019), dirigido e produzido por Wagner Moura.
Segundo ela, a obra percorreu um longo caminho de pesquisa e produção em meio à hostilidade institucional às artes durante o governo Jair Bolsonaro, tornando-se alvo de censura indireta e símbolo da resistência cultural.
“O percurso de Marighella não é qualquer coisa. É um filme dirigido e produzido pelo Wagner Moura que começa a ser pesquisado em 2013 e atravessa um período em que o artista enfrenta muita resistência no espaço público institucional de financiamento. Ele se torna um filme censurado, interditado, com dificuldade de distribuição. Aquela obra se converte numa obra de resistência, numa obra de denúncia do que o Brasil estava vivendo.”
Quando as ruas perdem força, as artes mobilizam
Em meio à comemoração, Maria lembrou que, diante do enfraquecimento das ruas como espaço tradicional de mobilização política, as artes passaram a ocupar um papel central na ativação da conexão social e democrática.
Para ela, artistas brasileiros utilizaram sua visibilidade, trajetória e capacidade de comunicação para mobilizar memória, identidade e compromisso público, como fizeram Fernanda Torres e Wagner Moura ao serem prestigiados internacionalmente.
“A gente vive uma época em que as ruas perderam tração como plataforma de reivindicação, e as artes passaram a ocupar esse lugar. As artes encantaram as ruas brasileiras. Os artistas usam seus prestígios, suas trajetórias, sua capacidade de comunicar o povo para ativar uma conexão social muito profunda.”
Cultura como ativo estratégico da democracia brasileira
Ao final, Maria reafirmou que a cultura brasileira ocupa posição central na defesa da democracia e na projeção internacional do país, funcionando como ativo estratégico tanto simbólico quanto econômico. Para ela, investir em cultura fortalece a soberania nacional e amplia a capacidade do Brasil de se apresentar ao mundo a partir de sua própria identidade.
“A cultura brasileira é um ativo da nossa democracia. Ela não é apenas conteúdo ou identidade, ela é economia, indústria e estratégia de desenvolvimento. É uma experiência histórica de defesa da democracia, da soberania e da dignidade do país.”
Assista à entrevista completa abaixo:
SIMONY APARECIDA DA SILVA
14 de janeiro de 2026 1:09 pmO Brasil sendo muito bem representado mas artes ganhando visibilidade ou seja acreditando que as futuras gerações podem ser estimuladas a serem artistas ou toda e qualquer profissão porque acreditamos no potencial brasileiro como um dia pertencendo ao primeiro mundo. É o futuro!