6 de junho de 2026

Lista de Livros: Folhas Políticas – José Saramago

Lista de Livros: Folhas Políticas (1976-1998)

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Editora: Caminho

ISBN: 978-97-2211-303-8

Opinião: bom

Páginas: 224

     “Tenhamos em vista que o objetivo é o Socialismo. A Esquerda não é um fim em si, um modo vitimizante ou triunfalizante de estar no mundo: é uma estrutura, um instrumento, uma organização. Que, como todas as coisas, serão julgados pelos resultados. E nós de caminho.”

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     “Curioso é que, perseverantes na imemorial tradição que sempre viu o poder das armas ao lado de quem detinha as armas do poder, repressão e ameaça sejam dirigidas apenas e sempre contra um sector da população: as classes trabalhadoras. Quanto a capitalistas, latifundiários, exploradores diversos, gente pelo contrário benquista e conviva de banquetes, benesses, comendas e geral concórdia, esses estão e sempre estiveram a salvo de coronhadas e mais agressões.”

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     “Isto de liberdade de expressão tem muito que se lhe diga. No antigamente fascista, quando não veneráveis mas graduados anciãos nos liam a prosa, e de lápis azul e carimbo esfacelavam as ideias, a nossa grande satisfação acontecia se, por distração do veterano de serviço ou sua menor inteligência, o recado passava, meio nas entrelinhas, meio no intervalo das letras, quantas vezes acordando depois fúrias na hierarquia. Então tínhamos a inocência de acreditar que, chegando o dia em que a mordaça caísse, a reencontrada força da verdade bastaria para tirar aos futuros senhores a tentação do abuso de poder, e, melhor ainda, os acautelaria no simples uso dele. Hoje já sabemos muito. Aprendemos, por exemplo, que a democracia burguesa é a mais hábil forma de esvaziar, na prática, a liberdade de imprensa: conserva-lhe a aparência e anula-lhe os efeitos. Veja-se como o regime absorve, digere e neutraliza impavidamente quantas acusações lhe façam, quantas denúncias de conciliação, quantas desistências, quantas servidões. Veja-se como, sendo possível dizer que o rei vai nu, dizê-lo não chega para que o rei se tape ou tenha a simples decência de pedir desculpa. Veja-se, enfim, como não faltando em Portugal os Watergates, o poder os vai ocultando aos nossos olhos, não por obra da censura que não há, mas do impudor que prolifera.

     A política portuguesa é realmente original. Uma cadeira no poder é quanto basta para irresponsabilizar quem lá se senta, um serviço prestado é logo retribuído com padrinhos e proteções. A imprensa protesta (aquela que não perdeu a vergonha, aquela que, pelo contrário, a declara), e de que serve? O poder, se esta de boa maré, encolhe os ombros; caso não, dispara a nota oficiosa, o inquérito, o impropério, e põe os seus serventuários da comunicação social em linha de trombones para abafar a pequena guitarra que se atreveu a perturbar o grande silêncio do jogo de dados que é hoje o exercício do poder em Portugal. Jogo em que são os portugueses a massa do negócio, o rebanho a esfolar.”

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     “E esta perplexidade mostra-me a força coerciva que o poder tem, mesmo quando não exerce, mesmo quando se limita a estar aí, na solenidade da função, na distância que nunca se anula, mesmo, ou sobretudo, quando condescende: a realeza não se extinguiu com as monarquias.”

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     “Imagino que andam contentes, que dormem bem, que não perderam o apetite, adivinho que cada um deles, na hora do espelho, sorri complacente para a imagem fardada ou paisana que lhe sorri, e que, na mesma e noutras horas, julga mais do que merecido o seu destino ou a parte dele que por agora o lisonjeia. Os homens políticos (e isto vai dito sem malícia ou presunção) costumam ser duma fatuidade sem limites: tomam por justiça imanente o que é acidente fortuito ou fruto de intriga de gabinete, creem sólido o que esta em vésperas de cair, e, sobretudo, aprendem depressa o mau hábito de ter razão sempre, se é que não se limitam a herdá-lo como atributo corriqueiro do poder. São animais interessantes, de catálogo: dizem, escrevem, proclamam, variando pouquíssimo, cheios de medo de que os não tomem a sério, que é o sinal mais certo da mediocridade. Com perdão de quem do teatro fez amor e profissão, o político corrente é como um ator mascarado de ator, com todos os remendos à vista, salta-pocinhas de ministério e rábula cômica. Como não haveria de ser deprimente esta paisagem, esta comédia, este desgosto?”

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     “Significa isto que o ganhar ou o perder nacional haveriam de ser obra de pessoal político e ninguém mais? Não significa tal. Mas significa que muitas vezes os povos perdem nos corredores do poder aquilo que ganharam à luz do dia em revoluções e trabalho.”

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     “Este “país real” esta, por seu pé, a transformar-se num “real país” que aprende, na experiência, como se fazem, para que servem e a quem servem os políticos da hora. E quando deixam de servir.”

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     “Chegou provavelmente a hora do grande protesto coletivo. Já aqui escrevi que este povo foi, todo ele, durante algum tempo, um povo de políticos. É urgente que o volte a ser. Primeiro, porque a política é mesmo pertença de todos; e porque se lhe há de agora juntar o fermento moral, contrário da apatia, da resignação, da renúncia. Os políticos que nos governam ou ambicionam governar, é bom que se saiba, não têm maior mérito do que qualquer comum cidadão honesto e patriota, e é imperioso que cada um de nós os interrogue: “Que fizeste do voto que te dei? A quem serves com ele?” Não para ingenuamente acreditarmos na resposta, mas para a confrontarmos com os fatos, que esses sim, são mestres.

     Protesto nacional, digo. Exigência popular, antes que se faça tarde. Antes que a direita, pela mesma via do protesto e da exigência, orientados segundo os comprovados métodos de reação e do fascismo, se apresente como porta-voz de um povo em gravíssimo risco de ver ser-lhe negada a palavra por forças políticas que da esquerda se dizem. Ou será a cave o nosso definitivo destino?”

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     “No fundo, estas coisas são fáceis de entender. Quando em 1789 a França fez a sua revolução burguesa, para único benefício de uma burguesia que não podia desenvolver-se no quadro do sistema econômico e político de então, o povo acreditou que aquilo também lhe dizia respeito e derrubou a Bastilha. Passados cerca de duzentos anos (e não obstante 1830, 1848, 1871, 1936, 1968), quem governa a França é a oligarquia financeira que a revolução de 1789 preparou: ao povo francês mandou-se que fosse matar e morrer por toda a Europa para aumentar a liberdade dos poderosos, instalados sobre a igualdade derradeira dos mortos e sobre a fraternidade difícil dos explorados.”

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     “Distraísse-me eu hoje da íntima consciência da minha fragilidade cultural e não tardaria o analfabetismo a filar-me pela canela do cérebro, quiçá para me largar nunca mais, porque a ignorância é tão confortável como um casaco velho, e coitados de nós se lhe não resistirmos todos os dias: adormeceríamos na santa paz do bafio.”

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     “Com os nossos governantes não contemos: os olhos não lhes servem para ver, os ouvidos não lhes servem para ouvir, a boca para alguma coisa lhes servirá, mas, dez anos passados a ouvi-los eu, ainda não sei para que lhes serve.”

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     “A democratização verdadeira da cultura talvez não seja o que por ela geralmente entendemos, e que uma cultura democratizada não é uma cultura ao alcance de todos, mas uma cultura com a intervenção de todos.”

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     “Almeida Garrett escreveu, um dia, esta breve e terrível frase, como uma condenação sem apelo: ‘A terra é pequena, e a gente que nela vive também não é grande’.”

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     “As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando, sobretudo cair na tentação do avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa.”

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     “Se é certo que aborreci o futebol, que me saturei de grandes penalidades, lançamentos laterais, dribles, pontapés de canto e mãos de Deus antigas e modernas, terei também de confessar que foi vendo o campeonato do mundo de futebol que descobri a razão profunda por que desde imemoriais tempos se vem dizendo que o homem é um animal gregário. Desde a infância que os melhores autores me ensinavam que o gregarismo foi e continuava a ser condição da própria sobrevivência da espécie humana, que o homem só, ao contrário do que ousara afirmar um outro autor animado de perverso espírito de contradição, não é o homem forte, e que, enfim, é participando plenamente numa vida em comunidade, partilhando tudo, e em primeiro lugar a si mesmo, que o pequeno bicho humano poderá passar além dos seus limites, resolver as suas carências espirituais e ascender à felicidade dos justos, desta maneira tornada prato comum e iguaria de todos. O homem, inventor da desconfiança, inventou também a boa-fé, e por isso contínua a acreditar em coisas como estas.

     Chega, porém, o momento em que as escamas caem dos olhos e a deslumbrante luz da verdade assoma ao limiar do entendimento. Foi o que aconteceu comigo. Na perspectiva vasta dos estádios, as gregaríssimas multidões que rodeavam o campo, gritando, vaiando, aplaudindo, de cara pintada em muitos casos, agitando insígnias e pendões, trocando socos e insultos, vaiando os hinos nacionais dos adversários – mostraram-me, de uma vez para sempre, que o homem, tornado em ser gregário por necessidade de sobrevivência, continua a sê-lo por razão de uma outra necessidade não menos imperiosa, porém de sinal inverso: o poder, a violência, a destruição, a morte. Um homem sozinho é um homem pacífico, havendo dois será senhor um deles e servo o outro, se são três farão dois deles aliança contra o terceiro. E passar das unidades às dezenas, ou às centenas, ou aos milhares, ou aos milhões, não modifica a essência da questão, apenas complica as suas consequências. O futebol, caros senhores, e, já agora, o desporto em geral, com ou sem a presença de chefes de Estado e de primeiros-ministros, é um sucedâneo da guerra. Suspeito mesmo que todas as atividades humanas, mesmo as de mais inocente aparência, são modos de guerra, brutais ou subtis, óbvios ou disfarçados.”

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     “Os índios de Chiapas não são os únicos humilhados e ofendidos deste mundo: em todas as partes e épocas, com independência de raça, de cor, de costumes, de cultura, de crença religiosa, o ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhantes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos divisões novas, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação, para a ofensa.”

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