Mídia e ignorância, ou do desserviço à educação na telenovela brasileira

Claudio Santana Pimentel

Que a educação, e a arte de ensinar, é um desafio, ou mesmo um esforço de Sísifo, é realidade pra lá de conhecida por professores em todo o Brasil.

Concorremos, sempre em desvantagem, contra o fascínio provocado pelas diferentes mídias, e a depreciação que estas, às vezes de maneira implícita, às vezes escancaradamente, fazem em relação às formas, digamos, tradicionais de transmissão de conhecimento.

Mídias e educação formal não são necessariamente conflitantes ou excludentes: ao contrário, as mídias podem e têm sido cada vez mais usadas como recursos pedagógicos auxiliares.

Mas, por vezes, nos deparamos com situações que exigem a reflexão sobre de que maneira as mídias podem ser um instrumento de desserviço à educação. Daí o título “mídia e ignorância”.

Como exemplo, a telenovela Novo Mundo, da Rede Globo. Não tratarei aqui dos interesses político-midiático-econômicos dessa empresa, já bastante discutidos no GGN.

Transmitida por volta das 18 horas, a trama apresenta uma versão romanceada da história do Brasil. Em particular, do período que antecede a proclamação da Independência, tendo como um de seus protagonistas o jovem regente D. Pedro, interpretado por Caio Castro.

A narrativa se propõe, como todas as obras de ficção produzidas e apresentadas por essa emissora, como obra coletiva e sem vínculo com a realidade. Trata-se de um produto comercial, obediente às regras da indústria cultural. Ainda assim, é preciso discutir as implicações do texto ficcional na prática da educação.

Ficções históricas são um recurso muito usado: nesta categoria podemos situar, entre vários exemplos, o Memorial do Convento, de José Saramago, e Forrest Gump, estrelado no cinema por Tom Hanks, originalmente, um romance de Winston Groom. Eu mesmo, quando perguntado por meus alunos sobre algo que ajude a compreender a história da segunda metade do século XX, costumo sugerir o filme. E alertar que aquilo é uma ficção, e como toda narrativa – inclusive a narrativa do historiador, do jornalista ou do sociólogo – seleciona elementos para compor sua versão dos fatos, deixando de lado alguns, privilegiando outros e deixando outros à sombra.

Em Novo Mundo preocupa, especialmente, a maneira como a questão da escravidão e da luta dos escravizados por sua liberdade é tratada.

Já nas chamadas para a novela, antes de sua estreia, chamava a atenção a ausência de atrizes e atores negros, assim como qualquer menção ao tema da escravidão.

À moda do nosso romantismo indigenista, que teve em José de Alencar seu maior representante, a novela apresenta um certo protagonismo indígena. Ainda que para isso o faça transformando Joaquim (Chai Suede), na trama um ator português que embarca para o Brasil, numa espécie de índio “honorário”, depois que este é salvo de um naufrágio.

Na verdade, é como se os autores quisessem depurar os personagens centrais de qualquer compromisso com a violência do “infâme comércio”: Dom Pedro, a princesa Leopoldina, e todos os demais protagonistas desejam a abolição: não o fazem porque “não podem”.

Personagens negros, quando aparecem, são escravizados subservientes, ou em fuga, em busca de refúgio em um quilombo. Há uma única exceção, talvez para confirmar a regra: um jovem jornalista negro.

Assim foi em cena exibida no último sábado, 20.05.2017. Wolfgang, um comerciante austríaco (Jonas Bloch) e Diara sua esposa, uma ex-escravizada (Sheron Menezzes), auxiliam um grupo em fuga, doando-lhes alimentos.

Wolfgang lamenta não poder fazer mais, e faz um breve discurso sobre a ignomínia da escravidão. Diara diz que é uma pena não haver tantos homens brancos iguais a ele.

Em termos de folhetim romântico, é explicável a admiração da personagem por seu marido. No entanto, ao atribuir a luta pela libertação à boa vontade dos homens brancos, simplesmente o texto reforçou a visão de submissão do negro que permeia em grande parte a novela.

Além de equívocos históricos como o suposto “abolicionismo” de D. Pedro, vemos Wolfgang dizer que a escravidão já não é aceita, do Chile aos Estados Unidos!

Para além do liquidificador temporal dos autores, bom lembrar que a escravidão somente acabou nos Estados Unidos em 1863, durante a Guerra de Secessão, no governo de Abraham Lincoln.

Foi preciso uma guerra, motivada por interesses econômicos conflitantes entre aqueles a quem a escravidão já não mais atendia aos seus interesses e aqueles que desejavam a sua continuidade. Em todo caso, nada a ver com a boa vontade dos homens. Homens brancos.

Como os autores irão lidar com a escravidão em seu folhetim? Dom Pedro, no último capítulo, em seu burrico (digo, cavalo branco) irá proclamar a Independência (e com ela a Abolição? Surreal!) Como sabemos, apenas em 1888 esta foi oficialmente extinta.

(Hoje a porta está entreaberta para a sua volta, é verdade…)

Precisamos, e muito, que nossa tv e cinema apresentem a questão da escravidão, e o desafio que essa longa noite de quatro séculos ainda permanece sendo para nossas consciências. Mas devemos exigir que apresentem um ponto de vista que vá além da lógica da libertação como generosidade do senhor e da sinhá brancos. Como favor da princesa Isabel.

Ponto de vista superado por nossa historiografia.

Voltando à discussão sobre a narrativa ficcional, autores que valorizaram o protagonismo negro, afro-brasileiro, e mostraram que ele existiu mesmo no período escravista, estão aí, para serem lidos e adaptados às telas: Antonio Olinto (autor da trilogia Alma da África) e Ana Maria Gonçalves (autora de Um defeito de cor), romances sobre os ex-escravizados que, tendo deixado o Brasil, formaram comunidades brasileiras na Nigéria, Togo, Benim.

A maneira como nossa ficção retrata a contribuição africana à formação do Brasil e a luta dos que foram submetidos à escravidão para obter sua liberdade, é fundamental para que nossos estudantes, independente da cor de sua pele, tenham condições de compreender e se engajar na superação das desigualdades que marcaram e ainda permanecem em nossa sociedade. Superação que passa, decisivamente, pelo enfrentamento do racismo que formou o Brasil e ainda persiste existindo.

 

 

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