Milton Santos (1926-2001) lecionou no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo e participou da reformulação da geografia crítica brasileira na segunda metade do século XX. Sua produção articula categorias de espaço, técnica, território e globalização em diálogo com a economia política e a sociologia urbana. Este artigo examina em que medida essas categorias permitem ler o mercado de trabalho brasileiro como fenômeno territorial. O problema central diz respeito à relação entre divisão territorial do trabalho, urbanização desigual, informalidade e plataformização. A hipótese sustenta que a organização concreta do território condiciona emprego, rendimento, proteção social, deslocamento, acesso a serviços públicos e formas de controle laboral. Essa dimensão escapa às leituras restritas a indicadores nacionais agregados.
A leitura proposta entende o mercado de trabalho brasileiro como configuração espacial. O trabalho ocorre em lugares determinados, sujeitos a redes técnicas instaladas, custos de deslocamento, desigualdade regional, segregação socioespacial e regimes diferenciados de proteção social. As taxas agregadas de desocupação e ocupação registram médias nacionais que ocultam contrastes entre Maranhão e Santa Catarina, entre periferia metropolitana e área central, entre trabalhador formal e trabalhador por aplicativo. A categoria territorial recupera essas distinções. Ela ancora a análise em condições materiais.
Em A natureza do espaço, Santos (1996) define o espaço geográfico pela interação entre sistemas de objetos e sistemas de ações. Objetos correspondem a infraestruturas, edificações, redes técnicas e equipamentos físicos. Ações correspondem a fluxos, práticas, decisões e relações sociais que mobilizam esses objetos. Para a análise do trabalho, a categoria mostra que fábricas, rodovias, ferrovias, portos, centros logísticos, plataformas digitais, redes de fibra óptica, universidades, escritórios, bairros periféricos e equipamentos públicos condicionam a localização do emprego. Esses mesmos elementos definem a forma de organizar a jornada e o controle sobre a tarefa.
Santos e Silveira (2001) sistematizam a categoria de território usado. O território não aparece como base física inerte. Aparece como espaço social produzido por agentes hegemônicos e populações subalternas em disputa cotidiana. A categoria permite descrever desigualdades concretas entre regiões, cidades, bairros e grupos sociais. Aplicada ao trabalho, ela conecta acesso ao emprego, tempo de deslocamento, taxa de informalidade, rendimento médio, proteção social, escolaridade, pertencimento racial, recorte de gênero e localização da moradia. Essa interação só se torna inteligível quando lida no plano espacial.
A divisão territorial do trabalho organiza diferenças entre regiões a partir da distribuição desigual de infraestrutura técnica, redes científico-educacionais, equipamentos urbanos e serviços especializados. A macrometrópole paulista, que articula a Região Metropolitana de São Paulo, a Região Metropolitana de Campinas, a Baixada Santista e o Vale do Paraíba, concentra parte expressiva dessas redes. Outras áreas, em especial regiões do Norte e Nordeste, dependem da agroindústria de exportação, do extrativismo, do comércio popular e de transferências de renda federais. Mercados de trabalho diferenciados convivem dentro do mesmo país.
Em O espaço dividido, Santos (1979) examina os dois circuitos da economia urbana nos países subdesenvolvidos. O circuito superior reúne bancos, comércio moderno, indústria de capital intensivo, exportação e serviços ligados à tecnologia. Ele opera com uso intensivo de capital, tecnologia importada e crédito formal. O circuito inferior congrega pequenos comércios, serviços de baixa capitalização, produção artesanal, comércio ambulante, trabalho doméstico remunerado e atividades urbanas de subsistência. Ele opera com uso intensivo de mão de obra e crédito informal. Os dois circuitos se articulam pelo consumo popular, pela mobilidade da força de trabalho e pelas finanças cotidianas.
A formulação de 1979 ajuda a analisar a heterogeneidade dos serviços urbanos brasileiros do presente. Entregadores por aplicativo, motoristas de plataforma, diaristas, vendedores ambulantes, costureiras subcontratadas e prestadores de pequenos serviços operam em condições típicas do circuito inferior. Eles enfrentam baixa capitalização, jornada longa, renda instável e crédito informal. No entanto, esses trabalhadores se vinculam por aplicativos a empresas do circuito superior, com sede em centros financeiros globais e gestão algorítmica. A coexistência entre tecnologia avançada e trabalho precário, antecipada por Santos, opera hoje em escala ampliada.
Tratar a informalidade como atraso, desvio ou anomalia empobrece a análise. A leitura combinada de A urbanização brasileira (1993) e de O espaço dividido (1979) localiza a informalidade como componente estrutural da urbanização brasileira. Ela acompanha a expansão urbana, supre demandas de consumo popular e fornece ocupação para contingentes excluídos do assalariamento formal. Reproduz-se por meio de redes próprias de crédito, oferta e clientela. A ausência parcial de direitos sociais nessas ocupações reforça a desigualdade urbana e amplia a vulnerabilidade frente a ciclos econômicos e choques sanitários.
A geografia do trabalho derivada das categorias miltonianas exige sair dos indicadores nacionais agregados. Ela considera localização, deslocamento, densidade ocupacional, rede urbana, fronteira regional e escala. A pergunta orientadora não se reduz a quantos trabalham e quantos estão desocupados. Ela inclui onde o trabalho ocorre, em quais condições técnicas, sob quais formas de controle, com quais custos cotidianos e com qual cobertura previdenciária. Sem esse deslocamento metodológico, o dado agregado nacional opera como média que apaga desigualdade espacial.
Os dados oficiais da PNAD Contínua sustentam essa leitura. Em 2025, a taxa anual de desocupação ficou em 5,6%, o menor patamar da série iniciada em 2012. A população ocupada chegou a 103 milhões de pessoas, recorde da série. A taxa anual de informalidade caiu de 39,0% em 2024 para 38,1% em 2025, com rendimento real habitual médio de R$ 3.560. A queda da desocupação convive com elevação reduzida da formalização. Permanece a inserção em ocupações por conta própria sem CNPJ, em emprego sem carteira e em trabalho doméstico sem registro. A coexistência entre desemprego baixo e informalidade alta confirma a inadequação da leitura focada apenas em vagas formais.
A heterogeneidade regional aparece com clareza na PNAD Contínua Trimestral. No quarto trimestre de 2025, a taxa de informalidade no Maranhão foi de 57,3%, no Pará de 56,7% e no Amazonas de 51,6%. Santa Catarina registrou 25,7%, o Distrito Federal 27,1% e São Paulo 29,7%. A taxa de desocupação variou entre 8,8% em Pernambuco e 2,2% em Santa Catarina no mesmo período. A desocupação ficou em 4,2% para homens e 6,2% para mulheres. Por cor ou raça, em 4,0% para brancos, 5,9% para pardos e 6,1% para pretos. Essas distâncias confirmam, em terreno empírico, a hipótese miltoniana de que o trabalho se distribui segundo a divisão territorial.
Em Técnica, espaço, tempo (1994) e em A natureza do espaço (1996), Santos cunha a expressão meio técnico-científico-informacional para nomear o momento atual da organização do espaço. Ciência, tecnologia e informação se integram à produção de objetos e à coordenação de ações. A integração ocorre por meio de fluxos de dados, sensores, plataformas, protocolos e centros de distribuição. Essa configuração concentra empregos qualificados em poucas áreas metropolitanas dotadas de infraestrutura técnica avançada. Mantém, no mesmo território, ocupações precárias que dependem da mesma infraestrutura. O teletrabalho qualificado e o trabalho por aplicativo coexistem nessa malha.
O módulo da PNAD Contínua sobre trabalho por plataformas digitais oferece base empírica para essa leitura. No quarto trimestre de 2022, 1,5 milhão de pessoas tinham nos aplicativos de serviços sua ocupação principal no setor privado, equivalente a 1,7% da população ocupada do setor. O contingente saltou para 1,7 milhão no terceiro trimestre de 2024, com crescimento de 25,4% no período. Entre esses trabalhadores, 58,3% exerciam funções em aplicativos de transporte de passageiros. O rendimento médio mensal dos plataformizados foi de R$ 2.996, com jornada de 44,8 horas semanais, ante 39,3 horas dos demais ocupados. Entre motociclistas plataformizados, a informalidade chegou a 84,3%.
Abílio (2019) descreve essa modalidade como deslocamento do empreendedorismo individual para um regime de autogerenciamento subordinado. O algoritmo distribui tarefas, define preços, classifica trabalhadores e desliga aqueles que descumprem metas internas. A noção dialoga com a categoria de trabalhador just-in-time. A PNAD Contínua confirma essa caracterização. Entre os motoristas, 91,2% afirmaram que o valor recebido é definido pela plataforma. Entre os entregadores, 76,8% relataram que a forma e o prazo de pagamento são determinados pelo aplicativo. A leitura se aproxima das categorias de Santos quando se observa que esse controle só opera sobre territórios urbanos densos, dotados de conectividade, frota disponível e demanda concentrada.
Em Por uma outra globalização, Santos (2000) recusa a leitura homogeneizadora do processo global. A integração técnica não distribui benefícios de modo uniforme. Ela seleciona territórios, empresas, trabalhadores e fluxos. Áreas dotadas de infraestrutura técnica avançada se inserem em redes globais de produção e serviços. Áreas pouco equipadas se mantêm na periferia desses fluxos, mesmo quando fornecem mão de obra para cadeias internacionais. A globalização aparece como processo geográfico desigual, não como força abstrata. Maria Laura Silveira (2007) prolonga essa leitura ao analisar a globalização pela chave do território usado e dos imperativos hegemônicos que pesam sobre os lugares.
A integração técnica convive com desemprego friccional, informalidade estrutural, terceirização e pejotização. Antunes (2018) descreve a formação de um novo proletariado de serviços na era digital, com fragmentação coletiva e perda de proteção social. Druck (2011) identifica seis dimensões da precarização social do trabalho no Brasil, com destaque para a vulnerabilidade da inserção, a intensificação da jornada e a fragilização da organização sindical. As pesquisas convergem ao apontar que a globalização não suprime a precarização. Ela a redistribui no território. Os mecanismos jurídicos foram ajustados pela reforma trabalhista de 2017 e pela expansão do microempreendedor individual.
A precarização não se limita à forma contratual. Ela aparece como condição vivida no território. Compõem essa condição a moradia distante dos polos de emprego, o transporte caro e lento, as longas jornadas de deslocamento e a baixa oferta de serviços públicos. Soma-se a dependência de aplicativos, o custo de manutenção do veículo e a ausência de cobertura previdenciária estável. A vida do trabalhador por aplicativo nas regiões metropolitanas brasileiras expressa esse quadro. As jornadas se aproximam de 45 horas semanais. A exposição a riscos no trânsito é frequente. A renda depende de regras de preço definidas pela plataforma.
As categorias de Milton Santos permitem ler o trabalho por sua localização, suas redes técnicas, seus custos territoriais e suas formas de controle. A análise do mercado de trabalho brasileiro ganha consistência quando deixa de operar apenas com médias nacionais e passa a interrogar onde, sob que condições e com que custos cotidianos o trabalho ocorre. A atualização da obra exige confronto sistemático com dados da PNAD Contínua e com investigações sobre plataformização, informalidade regional e precarização territorializada. Permanece em aberto a investigação sobre como a informalidade plataformizada redesenha as fronteiras entre os dois circuitos descritos em 1979.
Referências
Obras de Milton Santos
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Hucitec, 1978.
SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988.
SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo: Hucitec, 1994.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 1996.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
SANTOS, Milton, SILVEIRA, María Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Fontes institucionais sobre mercado de trabalho
IBGE. PNAD Contínua, em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6% enquanto taxa de subutilização foi 14,5%. Rio de Janeiro: Agência IBGE de Notícias, 30 jan. 2026. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759. Acesso em 27 maio 2026.
IBGE. PNAD Contínua Trimestral, desocupação recua em seis das 27 UFs no 4º trimestre de 2025. Rio de Janeiro: Agência IBGE de Notícias, 27 fev. 2026. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45908. Acesso em 27 maio 2026.
IBGE. PNAD Contínua, em 2022, 1,5 milhão de pessoas trabalharam por meio de aplicativos de serviços no país. Rio de Janeiro: Agência IBGE de Notícias, 25 out. 2023. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38160. Acesso em 27 maio 2026.
IBGE. Número de trabalhadores por aplicativos cresceu 25,4% entre 2022 e 2024. Rio de Janeiro: Agência IBGE de Notícias, 17 out. 2025. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44806. Acesso em 27 maio 2026.
Bibliografia complementar
ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização, do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. Psicoperspectivas, Valparaíso, v. 18, n. 3, p. 41-51, nov. 2019. DOI 10.5027/psicoperspectivas-Vol18-Issue3-fulltext-1674.
ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização, a era do trabalhador just-in-time? Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 98, p. 111-126, jan.-abr. 2020. DOI 10.1590/s0103-4014.2020.3498.008.
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
DRUCK, Graça. Trabalho, precarização e resistências, novos e velhos desafios? Caderno CRH, Salvador, v. 24, n. spe 1, p. 37-57, 2011.
SILVEIRA, María Laura. Globalización y territorio usado, imperativos y solidaridades. Cuadernos del Cendes, Caracas, año 24, n. 65, p. 1-19, mayo-ago. 2007.
Erik Chiconelli Gomes
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