4 de junho de 2026

Minha mãe existe

Dia desses, quando morreu o velho Abu, falava sobre sua existência fascinante e comparava com outros que, ao contrário (como diria um professor meu), sofriam de “síndrome de Gabriela”, aquela personagem do Jorge Amado, cujo refrão de uma trilha musical em sua homenagem diz assim: “eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim…”. Tal falta de desejo de mudança (e não de capacidade ou possibilidade), diria o estrábico sábio francês Jean Paul Sartre, é a tal da “má fé”. Para o francês, a existência pressupõe mudança, quem não muda, portanto, não existe, quem não existe, “é”. Com este argumento sartreano, disse, à época, que Antônio Abujamra deve ter morrido muuuuito, pela intensidade com que viveu até os últimos dias. Minha mãe, que completará 70 anos em setembro, viveu muitas transformações e, digo com orgulho, que muitas destas tive parcela de responsabilidade. Dona Zenilda, nascida em família pobre, no litoral paulista, em Iguape, cresceu sob rígida moralidade presbiteriana. Politicamente, como boa parte de seus conterrâneos bandeirantes, era conservadora. No futebol, corintiana. Assim, casou na igreja, tornou-se dona-de-casa, teve três filhos e cuidou com dedicação da casa, do marido e da prole, por anos a fio. Chegou a morar no terceiro andar de um edifício sem elevador com três crianças pequenas (o mais velho com dois anos), subindo e descendo escadas com seus patinhos, sacolas, compras, etc. Viveu seu casamento com a convicção e o desejo de mantê-lo até a morte. Contra a sua vontade, quinze anos depois, o casamento se desfez de forma bastante tumultuada. Dona Zenilda estava longe, muito longe de sua família, separada e há mais de quinze anos sem ter qualquer emprego, vivendo há poucos meses em Manaus. Teve que recomeçar, reaprender, adaptar-se, superar as amarguras da separação. Sobreviveu. Ainda ressentida com a separação, amarga e triste, viu, com tristeza e desespero, os três filhos adolescentes preferirem viver com o pai. Com fé e esperança, viu, aos poucos, seus filhos retornarem para casa. Em condições financeiras difíceis, vivendo em condições precárias, viu seu rebento superar a crise financeira e ingressar no ensino superior, tornando-se o primeiro universitário da história de sua família. Ouviu, com franqueza inesperada, de seu filho universitário, que ele fumava maconha. Ficou chocada. Compreendeu, numa conversa aberta, que não estava diante de um perdido, de um degenerado, mas de um filho que seguia um caminho diferente daquilo que ela, como mãe, almejava para ele. Ao longo dos quase trinta anos seguintes, muitos outros eventos confirmaram que mãe e filho tinham cabeças muito diferentes. E, claro, as diferenças ficaram claras também com os outros filhos. Diferenças a parte, ama imensamente todos eles. Mais do que isso, com humildade, muitas vezes, soube ser convencida, hoje aposta também no voto em políticos progressistas, procura se informar na hora de votar, apoiou, muitas vezes, as greves de professores, voltou a estudar, sonha em fazer faculdade, é solteira, independente e, próxima de completar sete décadas, mora sozinha na perifa, na zona leste da pauliceia desvairada. Tira de letra. Pois é, amig@, você que está lendo, responde aí: dá pra não ter orgulho de uma mãe dessas? Por isso é que, diferente de tantos que dizem “Minha mãe não existe!!” eu digo, como diria Sartre: minha mãe existe! E como existe!

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