Na Matrix de Michel Temer os neo-escravos comerão Soylent Green

Antes de sancionar a revogação da Lei Áurea, Michel Temer se reuniu com banqueiros. Ele parece considerá-los os únicos donos legítimos do Brasil, os únicos que merecem ser escutados pela presidência da república. Eles estão acima dos “outros” porque possuem uma virtude divina inata: a riqueza, o vil metal.

Em 1917 o incendiário Lênin gritou “todo poder aos soviets”. O resultado foi a revolução que destruiu o poder feudal em que se baseava a monarquia absolutista russa. Cem anos depois, seu clone brasileiro promove a refeudalização do Brasil falando baixinho no ouvido dos banqueiros “todo poder à Febraban”.

Dois ciclos históricos em sentidos opostos. Um pensava na inclusão dos trabalhadores o outro promove a exclusão escravagista. Para realizar seu paraíso terreal, Lênin teve que usar violência excluir do território uma minoria de privilegiados (os aristocratas e nobres que detinham as terras e monopolizavam o comércio). Para concretizar seu inferno terreal Michel Temer terá que reprimir violentamente a esmagadora maioria da população brasileira.

A dolorosa guerra civil russa, inevitável depois que os soviets se transformaram na única fonte de poder, foi extremamente sangrenta. Depois que começar a guerra civil brasileira não será exatamente um combate de blocos carnavalescos.

A crise do nacionalismo russo (brancos de um lado; vermelhos do outro) só chegou ao fim com a derrota final dos aristocratas. O nosso nacionalismo também está em crise, mas ainda não começou a despedaçar brasileiros. Em razão da ausência de combates, Michel Temer segue tentando purificar o Estado de suas características não financeiras para atender o Citibank.

O novo Estado, contudo, não será sustentado pelos Bancos, nem pelos banqueiros, nem pelos maiores correntistas. Eles não pagam impostos e sonegam os impostos que deveriam pagar. Toda a carga tributária continuará a ser despejada nas costas da população cujos direitos sociais, previdenciários e trabalhistas estão sendo revogadas.

A nova escravidão instrumentalizada pela Lei de Terceirização será, portanto, bem mais dolorosa. Afinal, o dono de escravos cuidava de suas peças. Ele as alimentava, abrigava e, quando adoeciam, as tratava, pois sabia que de outra forma seu investimento não produziria lucro.

Abandonados à própria sorte, os terceirizados terão que lutar para comer e para sustentar um Estado que os excluiu. Mas a morte deles não causará qualquer prejuízo para os banqueiros. E assim, a morte (um valor negativo para o senhor de escravos) se torna um valor positivo para os banqueiros e seu novo Estado.

Não demora e os mortos começarão a ser desossados e transformados em ração para os pobres como no filme Soylent Green. Duas décadas depois, idéia de que os cadáveres alimentam as novas “pilhas” que darão energia ao sistema também foi utilizada na trilogia Matrix. Michel Temer, o tirano sem votos, sem caráter, sem humanidade, sem ética, sem qualquer compromisso social é mais importante para a história da ficção do que para a história política brasileira.

Afinal, a nacionalidade brasileira (desde sempre excludente em relação aos negros, índios e seus descendentes mais ou menos brancos) sempre foi uma ficção. Um grande teórico das origens do nacionalismo disse que:

“O fato é que o nacionalismo pensa em termos de destinos históricos, ao passo que o racismo sonha com contaminações eternas, transmitidas desde as origens dos tempos por uma seqüência interminável de cópulas abomináveis: fora da história.” (Comunidades Imaginadas, Benedict Anderson, Companhia das Letras, São Paulo, 2008, p. 208)

O nacionalismo representado por Michel Temer, fonte da crise que aboliu a ficção do nacionalismo brasileiro condenando a esmagadora maioria da população a se tornar escrava dos Bancos que comandam o Estado, não é nem histórico, nem racista. O nacionalismo do usurpador é histérico, pois ele tem medo do povo e criou razões adicionais para temer os “outros”, os 198 milhões de homens, mulheres e crianças que nasceram no Brasil e deixaram de ser brasileiros no exato momento em que a Lei da Terceirização revogou a Lei Áurea.

É impossível dizer o que vai acontecer. Benedict Anderson nos fornece um modelo para compreender a invenção de comunidades nacionais, não para imaginar como elas se esfarelam no ar quando a idéia de nação deixa de ser uma ficção plausível. A cópula interminável de Michel Temer com os banqueiros não é o fim da história, mas pode ser o começo de algo realmente novo em nosso país. Quem sobreviver verá.  

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