Na ONU, Bolsonaro mente sobre destruição ambiental e pandemia

Presidente se disse vítima de "brutal" campanha de desinformação, atacou indígenas e a imprensa, escondeu a propaganda da cloroquina e chamou o Brasil de País "cristão e conservador"

Jornal GGN – Jair Bolsonaro fez na manhã desta terça (22) seu discurso de abertura na Assembleia Geral das Nações Unidas. Em um vídeo gravado especialmente para a ocasião, o presidente brasileiro fez o que faz diariamente: mentiu, distorceu e omitiu informações sobre como seu governo realmente gerencia a pandemia do novo coronavírus e as queimadas nas regiões da Amazônia e do Pantanal, entre outros assuntos.

Bolsonaro abriu o discurso afirmando que o “mundo necessita da verdade para superar desafios.” Lamentou, “em primeiro lugar, cada morte ocorrida” pela covid-19, mas reafirmou o entendimento de que a economia jamais deveria ter ficado em segundo plano por causa do vírus.

Ele lembrou que, por “decisão judicial”, “todas as medidas de isolamento e as restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores”. “Ao presidente coube envio de recursos e meios a todo o País.”

Então veio o primeiro ataque: “Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema ‘Fique em casa e a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao País”, acusou Bolsonaro.

Em seguida, Bolsonaro falou da renda emergencial paga pelo governo, mas escondeu que o valor inicial de R$ 600,00 foi uma determinação do Congresso e que não representou nem 20% do que os Estados Unidos pagaram mensalmente a título de renda emergencial para seus cidadãos durante os primeiros meses de crise sanitária. Ao contrário disso, Bolsonaro alegou ter pago, somando as parcelas, o equivalente 1 mil dólares (5,4 mil reais no câmbio de hoje) a cada um dos 65 milhões de brasileiros assistidos pela medida.

Com quase 140 mil mortos por covid-19 e recorde de desemprego, Bolsonaro disse também que seu governo, “de forma arrojada”, “implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior.”

Segundo Bolsonaro, o governo também “assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à Covid”, quando, na verdade, o descaso e a irresponsabilidade com os povos originários na pandemia levou os indígenas, através da APIB, a acionar a Justiça, pela primeira vez em toda a História do País, para obrigar o governo a agir e, ainda assim, as medidas pleiteadas só saíram do papel por determinação do ministro relator da ação na Suprema Corte, Luís Roberto Barroso.

CLOROQUINA

Bolsonaro também escondeu em seu discurso que ele defendeu insistentemente a cloroquina como a cura para a Covid-19, mesmo quando a Ciência não atestou sua eficácia e segurança. Ele disse que “estimulou, ouvindo profissionais de Saúde, o tratamento precoce da doença”, omitindo que impôs o protocolo da hidroxicloroquina ao SUS e que, aliás, essa discussão derrubou 2 ministros da Saúde em plena pandemia.

Ainda segundo Bolsonaro, não houve colapso no sistema de saúde em cidades como Manaus, entre outros problemas, como a falta de insumo para realização de centenas de milhares de testes que estão parados por causa disso. Bolsonaro afirmou apenas que “não faltaram nos hospitais os meios para atender os pacientes de Covid”.

VÍTIMA DE CAMPANHA BRUTAL DE DESINFORMAÇÃO

Bolsonaro fez questão de frisar que, no ápice da pandemia, a produção rural no Brasil não parou. Ao contrário disso, exportou como nunca. Em seguida, introduziu a questão ambiental afirmando que “somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.”

“A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”, disparou.

“O Brasil desponta como maior produtor mundial de alimentos e, por isso, há tanto interesse em propagar desinformações sobre nosso meio ambiente. (…) O mundo, cada vez mais, depende do Brasil para se alimentar”, justificou.

QUEIMADAS E DESMATAMENTO

Bolsonaro atribuiu a culpa pelo desmatamento na Amazônia em 2020 quase que exclusivamente aos povos indígenas. “Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam os seus roçados em busca de sua sobrevivência em áreas já desmatadas.”

“Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”, afirmou, sem citar quem são os possíveis autores do crime. “Mantenho minha política de tolerância zero com crime ambiental”, disse o presidente que já foi autuado por fazer turismo em área de reserva legal.

“O nosso Pantanal”, disse Bolsonaro, “sofre dos mesmos problemas” da Amazônia. “A grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de mata orgânica em decomposição.”

O líder de extrema-direita lembrou que “em 2019 o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano” e pediu que a ONU estabeleça “regras de proteção ambiental” e apure os “crimes com agilidade”, “para que agressões como a ocorrida contra o Brasil não atingem outros países.”

DIREITOS HUMANOS

Enquanto o Brasil se alinha aos países mais atrasados em pautas sobre Direitos Humanos na ONU, Bolsonaro afirmou que este é um setor em que o País agora é “referência internacional”.

Ele citou o “compromisso e dedicação no apoio prestado aos refugiados venezuelanos que chegam a partir da fronteira no estado de Roraima”, “deslocados devido à grave crise política e econômica gerada pela ditadura bolivariana.”

Bolsonaro disse que no momento em que a ONU completa 75 anos, o Brasil renova seu compromisso “compromisso e fidelidade” à defesa da paz, segurança e cooperação entre os povos, mas ressalvou que nada disso pode estar dissociado da “liberdade”.

Ele comentou também que seu governo segue comprometido com a “conclusão dos acordos comerciais firmados entre Mercosul, União Europeia e Associação Europeia de Livre Comércios”, e com as cláusulas que sustentam a preservação ambiental.

“No meu governo, finalmente, o Brasil abandona uma tradição protecionista e passa a ter na abertura comercial a ferramenta indispensável de crescimento”, frisou, reafirmando o apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio.

“Estamos igualmente próximos do início do processo oficial de ascensão do Brasil à OCDE. Por isso adotamos as práticas mundiais mais elevadas em todas as áreas”, disse.

REFORMAS ATRAEM MAIS INVESTIMENTOS

Bolsonaro também destacou que, “no meu primeiro ano de governo, concluímos a reforma da Previdência e, recentemente, apresentamos duas novas reformas ao Congresso: a do sistema tributário e a administrativa. Novos marcos regulatórios e setores chaves, como saneamento e gás natural, estão sendo implementados. Eles atrairão novos investimentos, estimularão a economia e gerarão renda e empregos.”

Sobre as relações internacionais, Bolsonaro disse que o Brasil está “preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo” e louvou acordos bilaterais assinados nos últimos meses, com intermediação dos Estados Unidos, e que “solucionam os conflitos” no Oriente Médio.

“Na América Latina, continuamos trabalhando pela preservação da ordem democrática. A liberdade é o bem maior da comunidade. Faço um apelo à toda comunidade internacional pela liberdade religiosa e combate à cristofobia”, disse Bolsonaro.

Ao final, o presidente encerrou o discurso afirmando: “O Brasil é um País cristão e conservador. Tem na família a sua base. Deus abençoe a todos. Meu muito obrigado.”

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