5 de junho de 2026

PSDB e Lava Jato: rota de colisão

O juiz Moro não é um homem qualquer, dado a improvisos. A condução coercitiva de Lula, ilegal que é, teve como argumento público o fato de que os demais 116 depoentes antes dele também haviam sido conduzidos coercitivamente. Então, como poderia Lula querer ser tratado de forma diversa?

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Este detalhe significa que cada um dos 116 depoentes cujas conduções coercitivas precederam à do ex-presidente estavam, na verdade, um a um, preparando e encenando o cenário da sua prisão. Tudo ali foi fruto de planejamento longo e minucioso, exceto o desenlace.

A prisão de Lula pretendia criar o ambiente de aniquilação da esquerda, sendo na verdade a conclusão da grande primeira etapa da Lava Jato. Durante toda essa primeira etapa, a direita tradicional, mais suja do que pau de galinheiro, festejou cada capítulo da trama, elevando o juiz Moro a uma condição de nobreza sobrenatural.

Essa direita tradicional, os coronéis de sempre, pode, no entanto estar muito enganada com o que está no fogo.

Rifado, Fernando Henrique já descobriu que não é ele ou o PSDB quem tem poder de mando sobre o rumo dos acontecimentos no Brasil de hoje. Farejando o fascismo propõe grande mutirão rumo a um “semiparlamentarismo equilibrado” e reconhece, “cartas na mesa” que o problema não é de Dilma ou Lula, mas institucional.

O Ministro Marco Aurélio Mello, por sua vez, exprimiu preocupações com um autoritarismo de tipo novo; palavras dele: “Se um ex-presidente é tratado assim, como será tratado o cidadão comum?” e arremata, “até o Regime de Exceção observava a norma”.

A Norma da Lava Jato é o juiz Moro. Muito próximo aos círculos do PSDB transmite-lhes sensação de tranquilidade, um risco, pois é um predador.

Não sabemos se a Lava Jato conseguirá eliminar a figura de Lula do cenário da política, prendendo-o ou condenando-o. Não sabemos se o STF entendeu a gravidade dos fatos e cumprirá o seu papel de garantidor do ordenamento constitucional, como é da sua obrigação, pondo limites aos excessos ou avocando para si os processos da Lava Jato, como sugere Bresser Pereira. Além disso, não podemos calcular qual é a capacidade de resistência das nossas instituições a um fenômeno político novo e nunca experimentado pelo Brasil, o risco do totalitarismo dotado de ideologia orgânica: o fascismo clássico.(*)

O que se pode constatar, entretanto, pois é claro como o dia, é que a credibilidade que o juiz Moro acumulou junto a uma certa direita tradicional a deixa inteiramente vulnerável a uma investida sua. Se isso ocorrerá ou não depende hoje, apenas e tão somente, de uma decisão de fórum íntimo sua, que independe de Aécio, de Alckmin ou de FHC. Sublinhe-se, porém, que, preso Lula, esses personagens serão as presas mais gordas da pradaria. Há uma foto que tem circulado nas redes sociais onde Moro e Aécio sorriem com cumplicidade. Quem engana quem?

Se os atacar com metade da força que vem utilizando contra a esquerda, poderá emergir como o personagem que transcendeu à política: o salvador da pátria.

Lula, o líder operário contra quem se erguem denúncias de corrupção incompatíveis com os postos que ocupou, por míseras que são, pode ser o último ferrolho do Estado de direito. A presa a ser abatida como condição prévia à abertura da temporada de caça ao tucano e ao surgimento do Conddotieri.

O timing disso tudo não é 2016, é 2018, razão porque é mais importante tirar Lula do pleito do que derrubar Dilma. A pergunta que cabe é: por que é que é que o juiz Moro tiraria Lula para os outros? Por que ambicioso e determinado como é entregaria a presidência a outrem? Há pois forte chance de que esteja trabalhando para si.

A bola da vez no plano da vulnerabilidade agora são os ícones da direita tradicional. E a Lava Jato precisa reforçar a sua credibilidade. Arruinada com o que fez a Lula, politizou-se e perdeu isenção perante a maioria dos brasileiros, o que é fatal no judiciário.

Se atingirá os conservadores ou não, logo veremos. Se assim o for, devemos exigir, militantemente, que tenham seus direitos e garantias respeitados. Não podemos permitir tampouco que a Lava Jato, se vier a caçar tucanos, capitalize prestígio no nosso lado, quando na realidade estará, apenas, treinando o falcão para o certame de 2018.

Vamos imaginar, entretanto, que todo o raciocínio que eu teci até aqui esteja errado e que o juiz Moro não aspire a caçar tucanos. Nesse caso a Lava jato continuará o mergulho que já iniciou e estará completamente desmoralizada num par de semanas, o clima atual é de implosão.

A conclusão é óbvia. Se quiser sobreviver o juiz Moro terá que abrir a temporada de caça ao tucano, possivelmente antes até de ter dado conta de Lula. Por sua vez a prisão de Lula oficializaria a referida temporada de caça ao tucano, encerrando com grande sucesso a temporada de caça ao PT. Se não forem burros (é pedir demais, eu sei) os tucanos verão que a prisão de Lula é antes de tudo uma ameaça a eles… mas que situação!!!

Em outras palavras, o desastre da tentativa de prender Lula ofereceu ao tucanato e ao restante da direita tradicional uma oportunidade única de perceber que são inexoravelmente o próximo alvo, ou a Lava Jato se desmoralizará por completo. Tudo deveria ter acontecido rápido o suficiente para que, engaiolado Lula, se iniciasse, como um raio, a temporada de caça ao tucano com alguém de elevada plumagem. Mas Lula tem sorte. E a sorte de Lula permitiu que surgisse à luz do dia um irreconciliável conflito de interesses entre o juiz Moro e o PSDB. FHC já experimentou do veneno e Aécio começou a farejar.

Cabe perguntar: quem cai primeiro?

 

*Dizia Gramsci que o totalitarismo fascista se exprime com jus arbitral entre as classes fundamentais. O fascismo encarna uma espécie de nova totalidade de onde pretende pairar acima delas. Possuidor de uma ideologia orgânica própria alinha o conjunto da sociedade a sua verdade e é uma espécie de “democracia” macabra, pela qual a “maioria” esmaga a(s) minoria(s). que foram despojadas dos seus direitos.

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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