24 de junho de 2026

“Neymar é só um sintoma”: Milly Lacombe analisa a perda de identidade da Seleção Brasileira

Jornalista discute o divórcio entre o torcedor e a camisa amarela e o impacto do modelo neoliberal nos clubes

A perda de identidade da Seleção Brasileira e o divórcio com o torcedor vão muito além das polêmicas individuais de Neymar, sendo, na verdade, reflexo de um projeto ambicioso que elitizou o esporte e o afastou de suas bases populares. O diagnóstico sobre a crise estrutural e a mercantilização do futebol nacional foi apresentado pela jornalista Milly Lacombe, em entrevista à TV GGN na quarta-feira [confira abaixo].

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Segundo a cronista, o esvaziamento da paixão nacional pela camisa amarela é resultado de um processo histórico de erros e de uma colonização tática ao estilo europeu que antecede o próprio fiasco do 7 a 1 na Copa de 2014. Ao afastar o time de sua essência e da periferia, a CBF acabou por converter a Seleção em um espelho das forças mais conservadoras do país.

“A Seleção tem muitos problemas para além do Neymar, né? E são problemas que estão vindo, é uma construção de problemas que começa muito antes do 7 a 1. […] A CBF tirou a Seleção, já não tem mais conexão com o povo. Aquela Seleção que tá em campo não é uma Seleção que nos represente. Aquela Seleção representa um Brasil institucional, que é um Brasil careta, é o Brasil covarde, é o Brasil conservador, é o Brasil da extrema-direita. Não à toa a camisa foi sequestrada pelos movimentos fascistas.”

Diante do visível desgaste da identidade nacional em campo, o papel desempenhado pelo camisa 10 assume uma dimensão simbólica, e, por isso, personificar a crise do futebol brasileiro na figura do jogador oculta a dinâmica de um sistema muito maior.

“Então eu acho que o Neymar é um problema, eu considero um problema, mas nesse bolo todo é um problema até pequeno, na verdade. O Neymar é um sintoma de tudo isso que a gente tá falando.”

O futebol como negócio

A financeirização do esporte e o avanço do modelo neoliberal sobre os clubes, impulsionado pela proliferação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e pelo mercado bilionário das casas de apostas, também foram alvos de duras críticas pela jornalista. Para ela, o esporte não está isento dessa lógica capitalista”, onde a obsessão corporativa por desempenho técnico e lucratividade desidratou a capacidade do esporte de operar como uma “usina de afetos”, transformando o torcedor em mero consumidor de um produto de entretenimento.

“O futebol tá sendo transformado num negócio. E os clubes estão sendo transformados em empresas. Então torcedor, torcedora, não é mais torcedor ou torcedora: é cliente. Então, se você não pode pagar uma mensalidade para ser sócio — chamam de sócio, mas de sócio não tem nada, sócio-torcedor —, você não é interessante.”

Ao olhar para o futuro das arquibancadas e dos gramados, Milly defendeu que a resistência do futebol brasileiro reside justamente em recuperar a sua subjetividade e a sua imprevisibilidade poética, elementos que as diretorias executivas tentam sufocar diariamente.

“As pessoas que administram o futebol estão tentando matar ele, né? As entidades, os executivos… ao olhar para isso só como um negócio, a não entender que isso é parte da nossa subjetividade, que no Brasil isso é identidade nacional. A gente não está ali só para ganhar, a gente está ali para fazer entender afetos maiores, a gente está ali para se conectar uns aos outros. […] O futebol é mais sobre perder do que sobre ganhar. A gente perdeu de vista tudo isso. Então a gente está fazendo clientes que vão ao estádio e vaiam.”

Para aprofundar essa reflexão, Milly Lacombe e o jornalista Jamil Chade lançam o livro A terra é redonda – um bate-bola sobre política, paixões e futebol.

Assista à entrevista completa pelo link abaixo:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
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  1. Sergio

    30 de maio de 2026 3:40 pm

    Tudo agora é extrema direita, dá pena de alguns jornalistas militantes e mau informados.

    1. Marcos Vinicius

      4 de junho de 2026 2:03 pm

      E são o quê? Direita tóxica? Direita reativa? Direita terrorista? Direita fora de controle? Qualquer denominação vai continuar sendo extrema! A direita conservadora clássica morreu depois que apelou para o extremismo — o PSDB está aí como exemplo – quando você apela para a violência política – você rompe o pacto com o eleitorado – o resultado é que a direita (clássica) para sobreviver precisa ser subsidiária da violência populista dos extremistas – portanto, o mundo hoje está no espectro político da extrema direita. O bom disso é que o pendulo volta para o lugar – o movimento se dissipa, cansa – mas até lá vamos contando os prejuízos que a insensatez cultiva.

  2. Paulo Dantas

    31 de maio de 2026 2:48 pm

    Não gosto desta senhora , ele leva um víes político muito forte para os comentários que, na minha opinião, afeta seu trabalho.

    Só vi um jogo inteiro do Neymar , contra meu time, fato que afeta minha opinião, um saco ficou o tempo todo de “dono da liga” querendo apitar o jogo e ficava dizendo que os adversários (meu time) eram “uns me4d@$” talvez pelo fato de não terem jato privado.

    Não acho que vá fazer alguma coisa nesta Copa , mesmo porque a Seleção não deve durar, creio que caímos na 1/16avos.

    Como toda Copa tem sempre o “grande ausente” ou “salvador”.

    Mas no meu trabalho os mais jovens em geral queriam Neymar, então deixa quieto.

    O povão de fato perdeu o futebol isto é fato , estádio quase sempre para classe média para cima , tv paga , streaming … Resta as bets …

  3. Veritas

    3 de junho de 2026 11:33 am

    Ir ao estádio era como show de Raul, tinha desde peão a engravatado da Paulista. Era algo que unia praticamente todas as classes. Hoje é algo elitizado que exclui a conexão com o conjunto da nação. Além disso, futebol brasileiro era uma expressão artística que fazia todos vibrarem. Hoje é mais um show de números, com técnica mais ligada ao preparo físico e à precisão de movimento que à espontaneidade da colaboração e da criação momentânea. Sem a conexão geral, sem vibração e afetos maiores, o futebol brasileiro se transforma em uma expressão menor, com mais manifestações de violência e agressões do que de beleza e arte, ou seja, algo muito chato que não gostamos de ver. Que os jogadores atuais e futuros se reconectem com a fé, o afeto, o jogo colaborativo, a dignidade, a beleza, a alegria, a arte e a espiritualidade criadora que são os valores essenciais do Brasil e de seu famoso e universal futebol.

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