Neste ano, o partido Novo se afastou de vez do Movimento Brasil Livre (MBL). Os dois grupos liberais estiveram juntos no impeachment de Dilma Rousseff, mas desde as eleições de 2018 ambos têm ficado cada vez mais distantes entre si.
A cassação do mandato de Arthur do Val como deputado estadual na Assembleia Lesgislativa de São Paulo (ALESP) pode ter sido a gota d’água nesse divórcio. A bancada do Novo votou favoravelmente à medida.
Dificilmente ainda me vejo como aliado do Arthur do Val, porque houve o episódio que nós estudamos com a nossa equipe: entendemos que houve quebra de decoro. É importante mostrar que houve embasamento. Então, por exemplo, ele fabricou, ou pelo menos publicou isso, coquetel molotov em um país em guerra, sendo que o Brasil é signatário do protocolo 03 da ONU, que é contra armas incendiárias.
disse Ricardo Mellão, deputado estadual do Novo e candidato ao Senado, com exclusividade à reportagem do GGN
Em vídeos, MamãeFalei já demonstrou insatisfação com os ex-colegas do Novo. “Pior do que ter um inimigo, é ter um amigo que na verdade é inimigo”. Ainda, o youtuber chegou a falar que não teve “apoio” quando precisou.
Arthur do Val foi punido após divulgar áudios misógenos contra as refugiadas ucranianas de guerra.
Holiday e Poit
No ano passado, o vereador da capital paulista Fernando Holiday deixou o MBL e se juntou à sigla. Desde então, o político conhecido por ser contrário à lei de cotas não costuma fazer críticas aos ex-colegas, mas deixou de mencionar e defender o MBL em seus discursos.
Vinicius Poit é o candidato do Novo ao governo do estado de São Paulo. Quando questionado sobre a migração de Holiday e sobre o movimento em entrevista à Jovem Pan, no último mês de março, o deputado federal ressaltou a saída do vereador e agora correligionário: “O Holiday era do MBL, mas saiu”.
Para o apresentador Emílio Surita, o MBL se juntou a um “esquema” com o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PSD), para derrubar Jair Bolsonaro. Poit concordou com a análise: “todo mundo sabe disso”.
Em seguida, o candidato afirmou que “todo munto mais extremista desacoplou do Partido Novo, vazou”.
Racha interno no Novo
A frase de Vinicius Poit está inserida em um contexto de divisão do Novo. No começo deste ano, a sigla se dividiu em uma ala bolsonarista, liderada pela bancada na Câmara, e outra de oposição ao Presidente, com João Amoêdo no comando.
Amoêdo chegou se colocar como candidato do Novo à Presidência nas eleições de outubro de 2022. No entanto, o nome acabou sendo minado. Ele se queimou internamente pelas críticas ao governo Bolsonaro e, especialmente, por participar de manifestação anti-Bolsonaro organizada pelo MBL mas que contou com agentes políticos do campo mais inclinado ao progressismo.

Em 2018, João Amoêdo foi o presidenciável pelo Novo. Teve 2,5% dos votos, um número bem mais expressivo que Guilherme Boulos (PSOL), por exemplo, que teve 0,6%.
Em seu lugar, Felipe D’Ávila foi alçado à corrida eleitoral. Atualmente, ele tem pouco mais de 1% nas pesquisas e às vezes sequer pontua em algumas delas. Segundo amplamente divulgado pela imprensa, a ideia do partido era justamente a de ter um candidato inexpressivo no primeiro turno. Assim, um caminho de apoio a Bolsonaro contra Lula em possível segundo turno estaria aberto. A sigla nunca confirmou a veracidade da informação.
Nessa esteira, alguns nomes deixaram a sigla: Christian Lohbauer (vice na chapa de Amoêdo), os deputados estaduais Heni Ozi Cukier e Daniel José, entre outros. O próprio Amoêdo não saiu da legenda, mas foi retirado da presidência do partido e, desde então, tem sido afastado de grandes decisões.
No entanto, esse grupo mais alinhado ao Planalto não se identifica como bolsonarista. A reportagem questionou Poit se ele era bolsonarista. Essa foi a resposta:
Não, de maneira nenhuma. Eu me considero um cara independente, né? E essa independência permitiu que a gente apoiasse Marco Legal do Saneamento, Marco Legal das Startups, Reforma da Previdência, projetos importantes do Governo Federal, independente se for Bolsonaro ou não quem colocou.
Apesar disso, a bancada do Novo não tem o costume de fazer críticas diretas a Bolsonaro em Brasília nem nas redes sociais.
Além disso, muitos desses integrantes são apostas de militantes e repórteres que apoiam o presidente. Por exemplo, Marcel Van Hatten, cuja reeleição é apoiada por Rodrigo Constantino, jornalista bolsonarista da rádio Jovem Pan.
Há também casos curiosos de membros simultâneos de Novo e MBL. Na última quinta-feira, João Bettega foi agredido por esposa de um deputado estadual bolsonarista, no Paraná.
“Bolsonaro passou a não ser mais conveniente ao MBL”, diz analista
Após a disputa interna vencida pelos bolsonaristas, os opositores do presidente passaram a se aproximar ainda mais do MBL. Se já havia simpatia anterior ao conflito político, ela só aumentou a partir de então.
Nas redes e no Congresso Nacional, o movimento tem forte discurso contra Jair Bolsonaro. No plenário da Câmara dos Deputados, Kim Kataguiri já chegou a chamar o presidente de “quadrilheiro, vagabundo e corrupto”. Na visão do MBL, Bolsonaro “fez tudo que o PT queria”.
Porém, para César Calejon, essa oposição se dá porque “Bolsonaro passou a não ser mais conveniente ao MBL”.
Essa recente mudança de paradigma na atuação de ambos foi caracterizada porque o monstro Frankenstein que eles ajudaram a criar se voltou contra eles. O MBL em si é formado por um bando de garotos com um perfil absolutamente playboy das principais capitais do país e que tem pouquíssimo ou nada, absolutamente nada, a colaborar com a vida sociopolítica de forma efetiva. Por essas pessoas serem absolutamente incultas e rasas, elas acabam se alinhando com a forma conforme o vento sopra naquele determinado momento. Não são pessoas que têm uma determinação ideológica ou que têm um grande projeto de país, ou que estudam, ou que se aprofundam naquilo que estão fazendo. São pessoas que amplamente estão atrás de fama, de holofote, de cargo parlamentar. Essa oposição que o MBL faz hoje ao Governo Bolsonaro vai muito de encontro a isso, porque o Governo Bolsonaro passou a não ser mais conveniente aos interesses deles.
Calejon é jornalista e autor dos livros “Ascenção do bolsonarismo no Brasil do Século XXI” e “Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil”
O que pensa o Novo
Ricardo Mellão estava acompanhando Vinicius Poit no debate entre candidatos a governador de São Paulo do pool formado por Folha, Uol e TV Cultura na noite de terça, 13 de setembro. Na entrevista exclusiva ao GGN, ele explicou o distanciamento entre o Novo e o MBL por causa de “culturas diferentes”. Ainda, declarou que o partido sofreu “ataques” do movimento.
O Novo tem uma linha, o Novo é uma instituição, tem um estatuto, e o MBL tem um grupo deles desde o início e que tem o estilo deles, a maneira deles de agir, são culturas diferentes, apesar de a gente defender ideias liberais. Eles têm uma pauta deles, uma estratégia política deles que não é exatamente a nossa. Então, em alguns momentos (os dois grupos) acabam se afastando. Mas, sinceramente, nunca houve pelo menos da minha parte, do Poit, de ninguém, um rompimento formal. Eu entendo eles quererem estar numa posição agora mais independente, não quererem apoiar ninguém. Sofremos até alguns ataques da parte deles, mas… enfim. É natural.
Outra convidada pela campanha de Poit entrevistada foi a influenciadora digital Maria Fernanda Schmidt. Ela também atua no portal Ranking dos Políticos. Perguntada pelo GGN, ela disse que vê o distanciamento entre Novo e MBL de forma negativa, “porque vai desagregando o movimento liberal, mas ambos são bons e fortes”.
Ainda, Schmidt relembrou que no ano passado essa divisão estava ainda mais forte, segundo ela, por causa da disputa de MamãeFalei ao governo de São Paulo. Até o episódio dos áudios na Ucrânia, o youtuber era pré-candidato ao cargo.
É uma luta de poder, obviamente. A gente sabe disso. Busca por protagonismo, as pessoas acabam não cedendo, aí tem esse racha. Mas é normal em todos os movimentos, em todos os espectros políticos.
explicou Maria Fernanda Schmidt
O que pensa o MBL
Até o fechamento desta reportagem, nenhum integrante do MBL quis se manifestar. Caso uma posição venha, este texto será atualizado.
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