Um coisa é o PSDB e a mídia, outra coisa é o capital. É claro que no Brasil o capital tem sido representado politicamente por uma série de partidos políticos e organizações sociais formadoras de opinão, mas cada coisa tem certa independência da outra e num momento de crise de representatividade, como o atual, tal independência relativa poderia resultar em fratura.
A crise da candidatura tucana produz exatamente esta crise. O projeto conservador deixou de ter um interlocutor viável para um pretenso segundo turno. Hoje os dois projetos em disputa são o que representa o polo do trabalho, Dilma e o que representa a velha tradição messiânica da política brasileira e que nos brindou com líderes com Jânio Quadros ou Fernando Collor.
Apesar do projeto político divergente do que propõe o polo conservador, os governos trabalhistas vem honrando compromissos e assegurando um ambiente de negócios previsível e altamente lucrativo no Brasil, país que continua sendo, apesar do que propala a grande mídia, um dos principais destinos de investimento internacional. É verdade que os últimos semestres vêm sendo preocupantes para a indústria que vem recuando e que de alguma forma vem sendo exigida em sua produtividade e competitividade por uma política inegociável de salários crescentes. Entretanto, os acordos internacionais do Brasil e o que antecipa a presidente Dilma, sinalizam para dois fatos: primeiro: o Brasil escolheu de forma firme e respeitada internacionalmente a sua opção pelos BRICS parte viva da economia mundial e segundo a produtividade entrou na agenda da candidata.
No que toca ao comércio, a política de salários crescentes vêm criando um cenário sustentável de vendas em todas as áreas, sem que a inflação tenha ganho terreno. No que toca à agricultura e ao agrongócio o Brasil bate quase todo ano a produção agrícola anterior, sinalizando uma relação equilibrada e estimulante para o setor por parte do governo que tem nesta área papel crucial para assegurar liquidez, armazenamento e preços. Recentemente as boas relações com a Rússia, que decorrem de uma posição geopolítica afirmativa do Brasil que dificilmente poderia ter sido construída fora do eixo trabalhista, assegurou condições extremamete vantajosas para o país disputar o mercado que se abre com o bloqueio econômico ocidental. Fôssemos nós caudatários da política americana e esta oportunidade poderia ter sido perdida ou aproveitada de forma medíocre.
Entretanto, vamos reconhecer que a política de juros do governo, que vive viés de alta atual, pretende no longo prazo voltar à casa de um dígito, o que ocorrerá tão logo as pressões inflacionárias recuem e tão logo a economia nacional encontre novo patamar de produtividade e de capacidade produtiva. Isto coloca o setor financeiro como principal perdedor dos governos trabalhistas, mas este mesmo setor financeiro é quem sempre encareceu os custos do capital no Brasil inviabilizando ou dificultando o acesso ao investimento barato que somente uma economia com juros baixos pode oferecer, o que como disse é meta incontornável dos governos trabalhistas. A própria ideia de um Banco Central “autônomo” como bandeira do Itaú significa “devolvam para nós os juros altos”.
Outro setor perdedor no campo do capital é o da velha mídia que perdeu a relevância dada à presença de uma blogosfera afirmativa que obriga até mesmo ao invisível Bonner de responder à nação pelas críticas que recebeu desse veículo que atua coletivamente. Diferentemente do setor financeiro a grande mídia está ameaçada pela emergência de um modelo mais democrático e capilarizado de comunicação social. Vive o ocaso de uma glória que não retornará, até porque foi vivida nos tempos mais sombrios da vida nacional na ditadura. As razões que põem o capital financeiro e a grande mídia na oposição são portanto diferentes. Os bancos têm interesses táticos feridos, mas não vivem ameaça estratégica alguma. A mídia vive crise de modelo profunda e irremediável. Os dois setores, no entanto estão juntos. Os bancos, no entanto, no afã de assegurar juros altos, conspiram contra o comércio e a indústria e affetam fortemente a produtividade de toda a cadeia produtiva da economia nacional.
Aberta a crise de representatividade entre o PSDB e o capital devida à inviabilidade eleitoral do PSDB no pleito nacional, devemos nos perguntar com quem marchará o capital: com o messianismo que se faz apoiar pelo setor financeiro e pela mídia decadente ou com o polo trabalhista, previsível, cumpridor dos acordos, e soberano em suas relações internacionais?
Na crise que se avizinha (e podemos até viver uma crise do sistema financeiro internacional pós Bretton Woods num horizonte não muito distante) a prudência é provavelmente boa conselheira. Em tais circunstâncias a hegemonia de um capital financeiro casado com uma alterantiva messiânica e imprevisível para a política doméstica e internacional seria provavelmente o pior remédio, com chances reais de avinagrar por completo.
Inviabilizada a representação política via PSDB é hora do empresariado, através das suas organizações de classe e suas federações apontar para o que querem e em que confiam. Normalmente, em risco de enchente, convem salvar os móveis.
Penso que o presidente Lula já deve ter enxergado isto.
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