21 de maio de 2026

O dia pós golpe: Gabinete de Crise de Bolsonaro planejou ações de controle da opinião pública

Gabinete usaria a ABIN para monitorar, censurar e catalizar informações de inteligência necessárias à manutenção do golpe
Jair Bolsonaro, Braga Netto e militares
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Polícia Federal encontrou, no âmbito da investigação que apurou o planejamento do golpe de Estado pelos aliados de Jair Bolsonaro, um documento que lista estratégias que seriam deflagradas a partir de 16 de outubro de 2022, dia que os golpistas acreditavam se tratar do day after da ruptura democrática, quando começaria o que eles mesmos chamaram de “crise institucional”.

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O documento — que consta no relatório de mais de 800 páginas da PF, ao qual o GGN teve acesso — se trata da minuta para criação do Gabinete Institucional de Gestão de Crise, que seria implementado pelo então ministro Augusto Heleno, titular do GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República).

Além de Heleno, Jair Bolsonaro, Walter Braga Netto, Filipi Martins e outros expoentes e membros do antigo governo foram indiciados pela Polícia Federal nesta semana. O Supremo Tribunal Federal levantou sigilo do caso e deu vistas à Procuradoria-Geral da República, a quem compete apresentar denúncia formal contra os investigados.

O Gabinete de Crise seria criado na sala de reunião suprema do segundo andar do Palácio do Planalto, e seus colaboradores teriam de atuar 24 horas por dias, 7 dias na semana. O núcleo tinha várias missões. Entre elas, (1) assessorar Jair Bolsonaro e o núcleo jurídico do golpe, (2) traçar estratégias de mídia para influenciar a opinião pública, o Congresso e a comunidade internacional e (3) convencer o maior número possível de parlamentares a aderir ao golpe.

O golpe seria consumado por Bolsonaro em 15 de dezembro de 2022, através de um decreto de estado de sítio ou de exceção. O ex-presidente, no entanto, não assinou o decreto por falta de apoio dos comandos da Marinha e Exército.

“As evidências descritas ao longo do presente relatório, demonstraram que o comandante da marinha, Almirante ALMIR GARNIER, e o ministro da Defesa, PAULO SÉRGIO, aderiram ao intento golpista. No entanto, os comandantes FREIRE GOMES, do Exército e BAPTISTA JUNIOR, da Aeronáutica se posicionaram contrários a qualquer medida que causasse a ruptura institucional no país”, informa a PF.

No cenário de golpe concretizado, o Gabinete de Crise seria responsável por “estabelecer discurso único, em todos os níveis, nas atividades de comunicação social para evitar interpretações e ilações que desinformação a população” e “designar porta-voz com notoriedade nacional e internacional”. Também seria papel do Gabinete “minimizar as narrativas da mídias” e manter contato com inúmeros segmentos da sociedade tidas como favoráveis ao golpe, além de monitorar os segmentos mais resistentes.

Junto com a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), o grupo pretendia criar uma rede de inteligência entre agências governamentais, nos níveis estaduais e municipais, “para atuar como gesto das informações, sensor e catalizador de conhecimentos de inteligência oriundos da coleta de informações das instituições e da população civil”.

O documento também revela os principais nomes de integrantes do Gabinete de Crise: “O GENERAL AUGUSTO HELENO seria o chefe de gabinete, tendo como coordenador-geral o GENERAL BRAGA NETTO. Logo abaixo dos dois mais importantes, o próprio GENERAL MARIO FERNANDES e o CORONEL ELCIO fariam parte da assessoria estratégica. Após alguns nomes de menor relevância, a assessoria de inteligência parece ser composta por pessoas próximas a MARIO: CORONEL AZEVEDO, CORONEL VIEIRA DE ABREU, de apelido “VELAME”, então chefe de gabinete de MARIO FERNANDES na Secretaria Executiva da Presidência da República e o CORONEL KORMANN. A maioria do Gabinete é composto por militares. No entanto, destaca-se que a Assessoria de Relações Internacionais seria ocupada pelo investigado FILIPE MARTINS.”

De acordo com as investigações, “a data de ativação do gabinete consta como 16/12/2022, ou seja, um dia após a realização do evento Copa 2022, que teve o objetivo de prender/executar o ministro ALEXANDRE DE MORAES, com funcionamento no Palácio do Planalto.”

A possível versão final do documento que instauraria o Gabinete de Crise tinha cerca de 30 páginas e foi impressa no Palácio do Planalto, em seis cópias. No dia 17 de dezembro de 2022, o general Mário Fernandes, chefe-substituto da Secretaria-Geral da Presidência da República, deixou rastros de que esteve no Palácio do Planalto para reunião com Bolsonaro e outros militares e assessores presidenciais.

Após narrar o encontro, a PF descreveu que há provas suficientes para acreditar que os golpistas pensavam em forçar a ruptura democrática mesmo sem ter executado as ações previstas anteriormente, como prisão e execução de autoridades da República.

“Os elementos de prova identificados no material apreendido em poder de MARIO FERNANDES demonstram que o grupo investigado já atuava prevendo o cenário posterior à consumação do Golpe de Estado, vislumbrando um ambiente de crise decorrente da ruptura institucional. Nesse sentido, planejaram a criação de um Gabinete vinculado à Presidência da República, que seria composta em sua maioria por militares e alguns civis, liderados pelos generais AUGUSTO HELENO e BRAGA NETTO, para assessorar o então presidente da República JAIR BOLSONARO na implementação das ações previstas no Decreto golpista, criando uma rede de inteligência e contra-inteligência para monitorar o cenário pós golpe e ainda atuar o campo informacional para obter o apoio da opinião pública interna e internacional.”

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Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.
alvesscintiaa@gmail.com

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8 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    28 de novembro de 2024 1:19 pm

    De acordo com o Ives Gandra, o Poder Executivo poderia usar o Poder Moderador, que são as FFAA, para garantir a lei e a ordem. Mas o Poder Moderador, no caso os Comandantes Freire Gomes e o Batista Júnior, e o “day after” ao golpe impediram, sem qualquer iniciativa de qualquer dos outros três poderes, que o Rato-Mór Bolsonaro e a Rataria rompessem a lei e a ordem:

    Eis o que escreveu o Ives Gandra:

    “Por fim, cabe às Forças Armadas assegurarem a lei e a ordem sempre que, por iniciativa de qualquer dos poderes constituídos, ou seja, por iniciativa dos Poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário, forem chamados a intervir.
    Nesse caso, as Forças Armadas são convocadas para garantir a lei a ordem, e não para rompê-las, já que o risco de ruptura provém da ação de pessoas ou entidades preocupadas em desestabilizar o Estado”.

  2. Douglas da Mata

    28 de novembro de 2024 4:37 pm

    A Abin?

    Se der duas tartarugas a Abin,uma foge e a outra engravida.

    Nassif, a Abin é tão ruim ou pior que as FFAA.

    Coletar Intel durante ditaduras é moleza.

    Angaria Intel em ambiente de estado de direito é coisa para quem sabe.

    E a Abin é um restolho da doutrina de Intel militarizada do SNI.

    Um lixo.

    Se eu fosse advogado de defesa desse pessoal eu diria que o crime era impossível.

    Pela total impossibilidade cognitiva dos agentes.

  3. EDUARDO PEREIRA

    28 de novembro de 2024 6:13 pm

    Parece uma cruza de Big Brother com a Revolução dos Bichos do Orwell . Vigiavam para que o GHrande Irmão assumisse o poder e riscasse da História o que s urnas determinaram. E parace que não falta a candidato a porco, principalmente entre a galera e familia do Bozo , já que todos são iguais , só que uns são mais iguais que outros.

  4. Wagner Lemes

    28 de novembro de 2024 9:37 pm

    Este jurista, cidadão que diz ser do bem, Ives Gandra, é um mafioso, a rede vida ainda dá um programa para este pilantra de gravata. A OAB e a maçonaria também passaram a mão na cabeça deste pilantra é o assassino mor Bozo tá aí com editorial na folha de São Paulo. A rataria é nojenta e muito articulada. Temos que ser resilientes e tratar estes ratos sem anistia.

  5. Mario

    29 de novembro de 2024 5:31 am

    Eu questionaria se a ABIN iniciou de fato o que foi combinado. Apos o fatídico 8 de Janeiro, recebi as inacreditáveis “informações” de bolsonaristas de que era o PT e a esquerda promovendo o quebra-quebra. E com informações de quem para provar? Pois é, da ABIN… na ocasião eu nem me preocupei em verificar, só respondi: “Abin do Gen Heleno? Você está de palhaçada, né?”. Daria pra incluir como execução de parte do plano de golpe. No mínimo foi peculato. E funcionou bem com o gado… para surpresa de ninguém…

  6. Rui Ribeiro

    29 de novembro de 2024 6:08 am

    Suplicar por anistia equivale a confessar seus crimes.
    De acordo com a Inteligência Artificial, “anistia é um benefício jurídico que consiste na extinção da punibilidade de um crime ou de um grupo de crimes, ou seja, é o perdão concedido a quem cometeu um delito”.
    Bolsonaro está apelando para a anistia. Amnestia/esquecimento é meu zovo.

  7. Douglas da Mata

    29 de novembro de 2024 9:03 pm

    O diabo mora nos detalhes.

    Além de propagarem a versão de que só uma parte das FFAA articularam o golpe, os veículos de mídia saíram a campo para o contra ataque:

    Ontem, a Record veiculou matéria propaganda sobre o EB, com cenas de deslocamento em áreas remotas, e como isso foi fundamental na tragédia do RS.

    Hoje, Band e Globo veiculam uma baboseira de um foguetinho da FAB e da AEB com cartinhas de alunos da rede pública.

    São uns canalhas …

    1. Douglas da Mata

      30 de novembro de 2024 6:22 am

      *”(…)articulou(…)”.

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