5 de junho de 2026

O horror e os avisos – por Doney Corteletti Stinguel (Política Nada Imparcial)

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     Fiz uma extensa monografia, com mais de duzentas páginas, tendo como assunto a terceirização.

     É algo que todos os trabalhadores com um mínimo de experiência no mercado de trabalho sabem, mas o estudo comprova inapelavelmente que tal prática trabalhista – um subproduto do neoliberalismo – depaupera ainda mais a já diminuta remuneração dos trabalhadores brasileiros; mitiga (quando não elimina) os benefícios sociais; promove uma insegurança jurídica absurda para os proletários; aumenta a instabilidade no emprego; facilita relações autoritárias no trabalho; majora a jornada de trabalho sem contrapartida no salário; os expõe aos serviços mais sujos, degradantes e perigosos, etc.

     Excetuando alguns raros casos (onde o conhecimento envolvido nas atividades efetivamente requer um grau maior de domínio da mesma), a terceirização é uma estrutura abusiva e predatória, de inspiração escravista/servil, focada na redução de custos – e não no aumento da qualidade ou especialização no foco do trabalho executado, conforme apregoam os viciosos lobistas do capital.

     Devido a toda esta problemática, a rotatividade nesses sub-empregos (ou Mc empregos como alcunha Naomi Klein na obra “Sem Logo”) é altíssima e, por conseguinte, aumenta-se a insegurança na execução das atividades devido à falta de experiência dos trabalhadores em suas ocupações. Quando o proletário finalmente adquire a experiência que permite executar suas tarefas com maior eficiência e segurança, ora é substituído porque “a gata” (como alcunham com justificável despeito estas empresas de fachada) perdeu o contrato e será substituída por outra, ora porque o próprio trabalhador conseguiu uma ocupação melhor (ou menos pior).

     Normalmente mal qualificados, mal remunerados, em trabalhos exaustivos, estressantes e sem perspectivas, com benefícios sociais mínimos, a terceirização pode ser definida, em resumo, como o horror.

 

     Agora, o governo golpista e seus asseclas – em projeto estritamente coerente com todo o desmonte que promovem no (limitado) tecido social brasileiro – querem ampliar ainda mais algo que já é sumamente lesivo aos trabalhadores.

     Isto bem me lembra o dramaticamente necessário livro “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro (friso que, quem não leu esta obra, não leu nada):

      “As causas desse descompasso (do nosso desenvolvimento) devem ser buscadas em outras áreas. O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade.

     O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente.”

     É a isto que se resume as reformas (trabalhista, previdenciária, etc.) que a direita golpista aboletada no poder pretende nos impor.

     Tal contexto me lembrou também duas pichações em Bogotá, descritas no poético O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano:

     Uma, pertinho da Universidade Nacional:

     Deus vive.

     Embaixo, com outra letra:

     Só por milagre.

     Um pouco afastado dali a admoestação era distinta:

     Proletários de todos os países, uni-vos!

     Embaixo, com outra letra:

      (Último aviso.)

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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