O incrível terraplanismo econômico da Lei do Teto, por Luis Nassif

A maior prova do atraso cultural brasileiro não é sequer o combate à pandemia e as excentricidades de Jair Bolsonaro. Bolsonaro é um aborto da natureza, um acidente que será extirpado do país no máximo até as próximas eleições. Seus seguidores, incluindo conselhos profissionais, gabinetes de ódio, terraplanistas, são o rebotalho do pensamento brasileiro, o que a sociologia denomina de ralé.

O terraplanismo está nas discussões econômicas, completamente tomadas por operadores de mercado primários, economistas de mercado incapazes de pensar além do próximo vencimento, economistas de melhor formação que se travestiram em propagandistas, e uma imprensa econômica, com raras exceções, meramente repetidora de bordões.

Entenda o raciocínio primário.

Até alguns dias atrás, os jornais limitavam-se a repetir que, se a Lei do Teto fosse rompida, a inflação explodiria. Havia uma crença similar à da hidroxicloroquina, sem preocupação de explicar correlações, a lógica por trás da afirmação.

Nas últimas semanas, o bordão se sofisticou um pouco. A inflação explodiria porque os investidores externos tirariam seus recursos do país, provocando uma desvalorização ainda maior do câmbio, com reflexos sobre os produtos comercializáveis. Alvíssaras!, conseguiram pensar em uma correlação: fuga de dólares —> desvalorização cambial —> inflação e aumento de juros.

Mas o que causaria a fuga de dólares? Lei do Teto, e não se fala mais nisso. A Lei do Tetos seria a garantia de que não haveria aumento na relação dívida-PIB, colocando em risco a solvência dos títulos públicos.

Nem vamos entrar na discussão sobre emissão de moedas em tempos de recessão. Vamos apenas identificar os fatores que impactam o mercado de dólares.

1. Perda de dinamismo da economia

Desde o infausto período de Joaquim Levy, no final do governo Dilma, seguido por Henrique Meirelles, do governo Temer, e Paulo Guedes, do governo Bolsonaro, a economia só cai. 

Multinacionais que fizeram parte da história industrial brasileira saíram do país, por falta de confiança no mercado de consumo. Já passaram por todas as crises, inclusive as grandes crises cambiais dos anos 50 e 90. Sabem que as reservas cambiais garantem a solvência externa do país. A única razão para sair do país é não acreditar na recuperação do mercado.

Nos últimos anos a política econômica focou em cortes de despesas e investimentos públicos, desmonte da legislação trabalhista, precarização da Previdência Social, com consequências óbvias. Sem carteira de trabalho assinado, o trabalho deixou de ter acesso ao crédito. A instabilidade no emprego tornou-o mais cauteloso com o consumo. A falta de investimentos públicos manteve a economia em queda.

No final, cumpriu-se a Lei do Teto e o capital produtivo passou a fugir do país, em função da queda da demanda provocada pelas reformas e pela Lei do Teto.

2. Questão ambiental

Grandes investidores globais – não esses operadores da Faria Lima – passaram a boicotar o país devido ao desleixo com a questão ambiental. Esse movimento foi potencializado pela decisão do governo Bolsonaro de romper com os financiadores do Fundo Amazônia, atacar ONGs ambientais, desmontar a fiscalização do IBAMA e colocar em cargos chave Ministros desqualificados. E também os cortes de verbas que afetaram a fiscalização.

3. Erros econômico no combate à pandemia.

A pandemia adquiriu dimensões ciclópicas não apenas devido ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, mas ao Ministro da Economia Paulo Guedes. Em um país com graves disparidades de renda, a renda emergencial seria fundamental para manter a população isolada e  o pequeno comércio fechado. Houve um início mais promissor graças ao Congresso. Depois, Guedes foi incapaz de dar sequencia ao auxilio e liberou uma quantia ridícula, incapaz de garantir o sustento de famílias pobres. 

A consequência foram a pressões pelo fim do isolamento e as aglomerações em coletivos que ajudaram a explodir a pandemia.

Mais que isso, uma queda na demanda que derrubou ainda mais a atividade econômica, as receitas fiscais e o déficit.

4. Crise política à vista

As grandes consultorias internacionais colocam como ponto central da instabilidade brasileira a perspectiva de uma grave crise política, provocada pela soma das crises sanitária, econômica e social. Entrevistam o presidente da consultoria da moda, a Eurasia, ele alerta para a instabilidade social e não é questionada. Sai de cena, e volta o bordão da Lei do Teto. 

Ontem, chegou-se ao auge dessa cegueira: uma chamada na CNN com a frase definitiva: “Recessão e desemprego derrubam inflação e devolvem poder de compra aos brasileiros”. Obviamente, devolveria se os preços voltassem ao patamar pré-explosão cambial. Mas a genialidade sem limites explica que, com a queda do poder de compra, há menos pressão sobre os preços e, por consequencia, uma melhoria no poder de compra.

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