4 de junho de 2026

O Rei, por Fernando Pessoa

31-7-1935

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O Rei, cuja coroa de oiro é luz

Fita do alto trono os seus mesquinhos.

Ao meu Rei coroaram-nO de espinhos

E por trono Lhe deram uma cruz.

 

O olhar fito do Rei a si conduz

Os olhares fitados e vizinhos

Mas mais me fitam, e mortas sem carinhos,

As pálpebras descidas de Jesus.

 

O Rei fala, e um seu gesto tudo prende,

O som da sua voz tudo transmuda.

E a sua viva majestade esplende;

 

Meu Rei morto tem mais que majestade;

Diz-me a Verdade aquela boca muda;

E essas mãos presas dão-me a Liberdade.

 

—————————————————————————

Adotou-se neste poema, a versão que tem como fonte a Tese de Doutorado de Carlos Pittella-Leite, Pequenos infinitos em Pessoa: uma aventura filológico-literária pelos sonetos de Fernando Pessoa. A estrutura deste soneto “diverge grandemente da edição da INCM (PRISTA, 2000)”; quanto aos versos 13 e 14, seguem a leitura da organizadora deste volume (*), “que identificou no manuscrito suas variantes finais”.

(*) Cleonice Berardinelli, Fernando Pessoa Antologia Poética, p.73,74, 1ª ed. –  Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012. 

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