
O sistema financeiro merece impeachment já!, por Ceci Juruá
Em brilhante conferencia[1] apresentada durante o 3º. Encontro Nacional da CNTU[2], em dezembro deste ano, o prof. Ladislau Dowbor defendeu o ponto de vista que os intermediários financeiros são, na atualidade, meros atravessadores. A economia brasileira para, e está parando segundo Dowbor, porque o sistema de intermediação financeira trava os três motores da economia: a produção a cargo dos empresários, a demanda das famílias e os investimentos públicos.
Tais questões ficariam muito claras, explica Dowbor, se dispuséssemos no Brasil de um fluxo financeiro integrado. Como este fluxo não existe, tem sido difícil quantificar os efeitos da ação dos bancos sobre os distintos setores da economia real. Valendo-se de alguns exercícios, a partir das estatísticas disponíveis, Dowbor afirma, por exemplo:
.Abstraindo a divida pública, os bancos se apropriam de uma carga de juros anuais de R$ 880 bilhões, 15,4% do PIB. “Uma massa de recursos deste porte transforma a economia (…) esterilizando a dinamização da economia pelo lado da demanda (…) a parte da renda familiar que vai para o pagamento das dívidas passou de 19,3% em 2005 para 46,5% em 2015″…
.Além de travar a demanda das famílias, os juros extorsivos cobrados pelos bancos no Brasil impedem que os empresários privados recorram ao crédito. Em média, explica Dowbor, os juros são de 24% para capital de giro, 35% para desconto de duplicatas. Enquanto isto, “na zona euro o custo médio para pessoa jurídica é de 2,20% ao ano.”
Os resultados macroeconômicos fornecidos pelo IBGE[3] confirmam a percepção do ilustre professor da USP[4]. Em média, durante os últimos 20 anos, a repartição da renda interna bruta, gerada no processo econômico, privilegiou o capital, capaz de se apropriar de um percentual que oscila em torno de 40% desta renda. Outro tanto vai para os trabalhadores. O restante entre 15% e 20% fica com o governo, incluídos nesta parcela os benefícios da previdência social pública.
Em grandes linhas, os números da macroeconomia expõem o drama do subdesenvolvimento e da concentração de renda que o caracteriza: 5% da população, empresários e rentistas, absorvem parcela da renda nacional idêntica à que sustenta 95% da população brasileira. Além disso, estes mesmos 5%, privilegiados no processo produtivo, são capazes de um comportamento que pode ser visto como indigno, pois transferem para seus clientes, empregados e fornecedores, impostos diretos que deveriam ser de sua responsabilidade, caso do IPTU e ITR, do IPVA dos veículos luxuosos que os servem em suas empresas e, geralmente, do próprio Imposto de Renda que incide sobre ganhos empresariais. Estes impostos, diretos, deveriam constituir instrumentos de redistribuição de renda à disposição dos governos. Aqui, no entanto, eles se prestam a um novo mecanismo de extorsão, não-legal, da renda das famílias.
Também é de conhecimento público que a classe empresarial brasileira, assumindo postura de cúmplice da financeirização e do rentismo, que privilegiam particularmente bancos e atores financeiros mas também as grandes empresas, ousam uma campanha sórdida contra os trabalhadores, quando afirmam que o orçamento fiscal não suporta a democracia. Querem na verdade reduzir salários e direitos dos trabalhadores, em particular as transferências que o Governo faz para extirpar a fome e a miséria, caso do Bolsa Família. Querem também liquidar a previdência pública e deixá-la a reboque de planos privados que sugam mais dinheiro da renda familiar e o transferem ao sistema bancário.
Lideram por isto uma campanha feroz contra a atual presidente da República e contra os partidos que, com erros e acertos, vem procurando mitigar os efeitos perversos do neoliberalismo aqui reinstalado na década de 1990. Como oligarquia, a ação anti-democrática dos plutocratas dispõe de amplo apoio nas camadas mais bem pagas da burocracia, Judiciário e Legislativo. Apoio amplo mas não generalizado. Ainda hoje, a maioria de juízes e magistrados, de políticos, prefeitos e governadores, não se curvou às exigências da minoria que gostaria de reintroduzir no Brasil a escravidão e o sistema de agregados da “casa grande”.
Por isto é necessário um golpe, um golpe de Estado que reponha no poder senhores e vassalos da financeirização e do rentismo. Em lugar de apontar a causa real da estagnação da economia brasileira, como o faz brilhantemente o prof. Ladislau Dowbor[5], seus intelectuais orgânicos apontam como inimigos da nação a Constituição Cidadã, os direitos sociais e trabalhistas e os governantes que os respeitam.
Não passarão ! Mas é preciso que o povo nas ruas e nas tribunas democráticas imponha agora e já: IMPEACHMENT PARA O SISTEMA FINANCEIRO! DEVOLVAM ÀS FAMILIAS DOS TRABALHADORES BRASILEIROS OS RESULTADOS DE UMA PILHAGEM QUE JÁ DURA 25 ANOS !
Ceci Juruá é economista, doutora em políticas públicas, membro do Forum 21, do Conselho Consultivo da CNTU e da diretoria do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos/IBEP.
Rio de Janeiro, dezembro 2015 (blog: www.desenvolvimentistas.com.br/caleidoscópiobrasileiro)
[1] Ladislau Dowbor. Resgatando o potencial financeiro do Brasil. Outubro de 2015.
[2] Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados
[3] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
[4] Universidade Federal de São Paulo
[5] Seus livros e textos estão todos disponibilizados gratuitamente em seu blog.
Martin.
14 de dezembro de 2015 12:34 pmAuditoria Cidadã da Dívida
Auditoria Cidadã da Dívida Pública, JÁ !!!
# MARIA LUCIA FATTORELLI
drigoeira
14 de dezembro de 2015 1:35 pmComo já disseram em algum lugar…
Este Governo já foi derrotado pelo sistema financeiro na crise de 2008.
A taxa Selic vinha reduzindo e já estava a 7,8%, aí “do nada” começou a subir novamente. Além disto o BB e Caixa fazem um desserviço a população brasileira. Estes bancos deveriam ter lucro zero, mas…
Homb
14 de dezembro de 2015 1:45 pmRetifica, Dilma!
Dilma tem que retificar as diretrizes da política econômica, impondo ao sistema financeiro as mesmas limitações que sofrem os trabalhadores e as empresas (pequenas e médias).
A Constituição é clara e a democracia não pode tolerar cidadãos e empresas com privilégios e ganhos abusivos.
Nandex
14 de dezembro de 2015 2:24 pmOlha que interessante; o BC
Olha que interessante; o BC aumenta a taxa de juros para empréstimos, o país não pega empréstimos e quando pega, paga uma taxa altíssima para os bancos estrangeiros e nacionais. Nos EUA a taxa é quase zero, por isso tem-se muito crédito na praça e o dinheiro flui para todo mercado interno; alimentando o país como um rio que corre pelas matas. A solução que encontraram no BRasil é aumentar a taxa de juros no alto, para que nimguém pegue empréstimos e o dinheiro não flua pela economia como um rio flui pela natureza. O dinheiro fica estagnado com os bancos que lucram exorbitadamente. Qual o benefício de tudo isso? Ter a maior taxa de juros do mundo? Ter os bancos mais ricos do mundo e o mercado interno mais seco do mundo como o rio mais seco que estivermos a ter na natureza? Quem ganha com tudo isso? Os economistas pagos pelos bancos para que aumentemos a taxa de juros e beneficiá-los loucamente estagnando o país? Ou o país que está cada vez mais seco e morto como o Rio Doce que a samarco matou? Manter a taxa de juros alta, diminui o fluxo de dinheiro no mercado interno, aumenta o valor do dólar pois o real não flui e portanto perde valor; destroi a industria interna, aumenta-se a inflação ou o preço do pão, pois com a alta do dólar o preço do trigo fica maior entre outros produtos. Ou seja, destroi a economia brasileira, destroi o real e aumenta-se o lucro de bancos e das multinacionais estrangeiras que entram no brasil sem concorrência e tomam conta de tudo. Vejo no futuro um país desértico sem rio na natureza ou rios de dinheiro, aumentando o valor do dólar, o lucro dos bancos estrangeiros e a dominância das multinancionais nos escravizando salariamente.
altamiro souza
14 de dezembro de 2015 3:09 pmestá aí a essencia de nossos
está aí a essencia de nossos problemas .
e a luta real pela qual deveríamos
implementar forças para mudar realmente a sociedade…
dowbor mete o dedo na nossa ferida…
e lamenta e denuncia os verdadiros espoliadores do nosso dinheiro.
Tulio
14 de dezembro de 2015 3:36 pmSe o governo permite isso há
Se o governo permite isso há tanto tempo então ele não é tão de esquerda assim? Não é?
Chico O Cavalo Manso
14 de dezembro de 2015 7:00 pmExtamente, você foi direto ao
Extamente, você foi direto ao ponto.
Enquanto a esquerda não fizer as críticas que o PT e seus baluartes merecem – a começar pelo Lula – a retória será sempre essa dos coitadinhos que se esforçaram mas os malvadões capitalistas são muito cruéis, ó céus, ó vida.
Conversa mole pra boi dormir.
Não aprendem com os erros, não entendem que há na verdade incompetência de sobra, inépcia, falta de destreza, perícia.
Bruno Cabral
14 de dezembro de 2015 6:53 pmCrimes financeiros
O sistema financeiro diariamente comete os crimes dos artigos 158 e 160 do codigo penal, e ninguém faz nada!
Juros no cartão de 400% ao ano é extorsão (para não dizer estelionato) pura e simples.
Andre B
14 de dezembro de 2015 7:00 pmo autor perdeu uma oportunidade de ir a raiz do problema.
Realmente alguém chegou perto da raiz do problema: é o sistema financeiro quem governa de facto nossa sociedade. Os politicos de plantão são meros empregadinhos. Agora o final é patético:o ministro Joaquim Levy por exemplo levou ao Forum de Debates sobre Emprego, Trabalho e Renda e Previdência Social uma proposta de reforma da previdência que não deve nada às do PSDB e que atende ao patrão, o mercado financeiro. Manter esses empregados do mercado financeiro – afinal, as politicas de ajuste fiscal são para atender o patrão do governo, o mercado financeiro – ou trocá-los por outros tanto faz. É trocar seis por meia dúzia. Se o mercado financeiro quer dar um ‘golpe’ no governo não é porque esse é um empregado que se rebela contra o patrão, é porque o considera ‘pouco eficiente’.
É preciso ser radical, ir a raiz do problema, e como o artigo coloca no inicio a raiz do Problema não é Dilma, Temer Aécio ou Cunha é a aristocracia financeira que manda e desmanda nos seus empregadinhos da politica.
Paulo Silvestre
14 de dezembro de 2015 7:18 pmAquisição de bancos europeus
Com esses ganhos muito acima dos bancos americanos e europeus consegue-se entender porque seguidamente sabemos de bancos brasileiros adquirem bancos europeus como temos o caso do BTG PACTAUL que é dono de um banco suíço. Será que seremos a sede dos bancos europeus, será que eles deixarão, será que a teta não vai secar?
Renato Kern
14 de dezembro de 2015 8:22 pmOs cartões de crédito chegam a cobrar 457% ao ano
Os cartões de crédito chegam a cobrar 457% ao ano. Isto é crime contra a economia nacional. Cadeia neles.