A prevalência do sobrepeso e da obesidade no Brasil pode custar entre R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões por ano aos cofres públicos, o equivalente a 2% do PIB nacional. Os números são de uma análise conduzida pelo Instituto Cordial, realizador do Painel Brasileiro da Obesidade, e apontam ainda que o valor pode ultrapassar R$ 60,5 bilhões até 2033.
O estudo foi financiado pela Novo Nordisk, farmacêutica fabricante dos medicamentos Ozempic e Wegovy, e adaptou ao contexto brasileiro um modelo fiscal internacional desenvolvido pela consultoria GMAS (Global Market Access Solutions), cruzando dados de saúde, mercado de trabalho e arrecadação tributária.
Os pesquisadores utilizaram microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, combinando variáveis de gênero, idade e mortalidade para medir o impacto da obesidade em três frentes: custos no sistema de saúde, reflexos no mercado de trabalho e impacto fiscal nas contas do governo. A metodologia aplicou modelos de regressão estatística que compararam indicadores reais de 2024 com um cenário hipotético de prevalência zero da doença.
O maior bloco do impacto refere-se aos custos de saúde associados à obesidade e suas comorbidades, que chegam a R$ 29,56 bilhões anuais, valor que engloba não apenas a doença em si, mas condições associadas como hipertensão, diabetes e dislipidemias. Só dentro do SUS, os custos diretos já ultrapassam R$ 1,89 bilhão ao ano, sendo R$ 911,6 milhões em internações hospitalares e R$ 983,8 milhões em medicamentos.
Em 2022, o Brasil gastou cerca de R$ 3,4 bilhões com doenças crônicas não transmissíveis ligadas ao sobrepeso e à obesidade no sistema público, com destaque para enfermidades cardiovasculares, respiratórias e neoplasias.
A perda de arrecadação tributária causada pela doença é estimada em R$ 9,94 bilhões, R$ 7,35 bilhões em impostos diretos e R$ 2,59 bilhões em indiretos. Os gastos com invalidez somam R$ 6,05 bilhões por ano, considerando que mais de 240 mil aposentadorias no país estão associadas a condições relacionadas à obesidade. Cada ponto adicional no IMC médio da população representa um custo extra de R$ 387,3 milhões ao sistema público de saúde por ano.
Impacto
O estudo revela uma disparidade significativa entre os sexos. Mulheres com obesidade recebem salários entre 4% e 9% menores do que mulheres sem a condição, diferença que pode chegar a 15%. A participação feminina na força de trabalho também cai progressivamente conforme o IMC aumenta, padrão que não se repete entre os homens com a mesma intensidade.
“O impacto cultural no corpo das mulheres é muito pior. Isso no mercado de trabalho se reflete em salários mais baixos, cargos piores, e isso acaba impactando na massa salarial das pessoas”, afirma Luís Fernando Villaça Meyer, diretor de operações do Instituto Cordial.
Para os homens, parte dos modelos analisados indica que a obesidade não apresenta efeito estatisticamente significativo sobre salários, e em alguns cenários está até associada a resultados melhores. Meyer pondera que isso pode refletir o fato de homens em posições de liderança apresentarem maior índice de obesidade, sem que a condição seja necessariamente a causa do sucesso na carreira.
Prevenção
O estudo conclui que investir em prevenção e tratamento da obesidade é uma estratégia tanto sanitária quanto fiscal. Cada 1% de redução na prevalência da doença gera uma economia de R$ 444,6 milhões por ano aos cofres públicos.
Para Meyer, o caminho passa pela atualização das linhas de cuidado nacionais, com equipes multiprofissionais capacitadas para acolher pacientes com obesidade. “A palavra de ordem agora é implementação de política pública”, afirma.
Medicamentos no SUS
O tratamento da obesidade ganhou maior visibilidade com a popularização dos análogos ao GLP-1, os chamados medicamentos emagrecedores. No Brasil, os autorizados pela Anvisa para esse fim são: Saxenda e Olire (liraglutida), Wegovy e Poviztra (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida).
No último mês, a Novo Nordisk fez nova submissão à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) para incluir o Wegovy no sistema público, desta vez voltado a pacientes com obesidade que já sofreram infarto.
Em 2025, uma solicitação anterior, abrangendo um público mais amplo — foi negada pela comissão, que apontou impacto de até R$ 8 bilhões aos cofres públicos. Na nova proposta, a farmacêutica oferece desconto de 59%, estimando atender 38.598 pacientes ao custo de R$ 500 milhões a R$ 650 milhões por ano.
*Com informações da Folha de São Paulo.
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