A FAPESP firmou nesta semana um acordo de cooperação com o Instituto Butantan, o Hemocentro de Ribeirão Preto e a Universidade de São Paulo (USP) para avançar no desenvolvimento de terapias celulares voltadas ao tratamento de doenças autoimunes graves.
A parceria tem como foco a realização de ensaios clínicos com a tecnologia CAR-T para dois diagnósticos: o lúpus eritematoso sistêmico (LES) e a miastenia gravis generalizada (MGg). Os protocolos ainda estão em fase de tramitação regulatória e aguardam aprovação da Anvisa para ter início.
A assinatura reuniu lideranças das quatro instituições, entre elas o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, o diretor do Butantan, Esper Kallás, e o reitor da USP, Aluísio Segurado.
“A terapia celular tem revolucionado o combate ao câncer e às condições autoimunes porque age diretamente nas células afetadas. O objetivo é que essa tecnologia esteja disponível para os brasileiros, inclusive pelo SUS”, afirmou Kallás.
Doenças-alvo
O lúpus eritematoso sistêmico é uma condição inflamatória crônica de origem autoimune que pode comprometer múltiplos órgãos. Seus sintomas incluem febre, emagrecimento, perda de apetite e fraqueza, com evolução que varia de lenta e progressiva a episódios de agudização.
Já a miastenia gravis generalizada afeta a comunicação entre nervos e músculos, resultando em fraqueza muscular que pode chegar a comprometer funções vitais como falar, engolir e respirar.
Se aprovados, os ensaios clínicos vão selecionar 16 pacientes adultos com lúpus e 10 pacientes adultos com miastenia gravis, recrutados nos Hospitais das Clínicas das faculdades de medicina de Ribeirão Preto e de São Paulo, ambas vinculadas à USP.
Em ambos os casos, serão incluídos apenas pacientes com formas graves das doenças que já passaram por pelo menos dois tratamentos convencionais sem resposta satisfatória.
“Se os resultados forem favoráveis, o SUS estará na vanguarda mundial de terapias avançadas em sistemas públicos de saúde”, destacou Rodrigo Calado, diretor-presidente do Hemocentro de Ribeirão Preto.
CAR-T
Desenvolvida nos Estados Unidos a partir de 2010 e respaldada por mais de seis décadas de pesquisa científica, a terapia CAR-T funciona por meio da modificação genética dos linfócitos T do próprio paciente, tornando-os aptos a identificar e destruir células-alvo — sejam tumorais ou autoimunes.
No Brasil, a tecnologia foi testada pela primeira vez em 2019 em pacientes com leucemia e linfoma refratários, alcançando 80% de eficácia na redução tumoral. Desde 2022, Butantan, Hemocentro e USP trabalham juntos no desenvolvimento da CAR-T para leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não Hodgkin de células B, no âmbito do Núcleo de Terapias Avançadas (Nutera) — com unidades em São Paulo e Ribeirão Preto, financiado pela FAPESP pelo programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs).
Em 2024, foi iniciado o ensaio clínico de fase 1 nessa frente oncológica, com resultados que chegam a 87% de eficácia nos casos mais graves — base que agora inspira a expansão da tecnologia para o campo autoimune.
*Com informações da Agência Fapesp.
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