Publicado pela primeira vez em 1975 pela Editora Jorge Zahar e agora na sexta edição, A Revolução Burguesa no Brasil representa uma “encruzilhada” na carreira de Florestan, na opinião do professor Bernardo Ricupero. Ao mesmo tempo em que resulta de pesquisas realizadas pelo sociólogo até então, a obra se abre para o que ele vai realizar nos anos seguintes, como um “publicista revolucionário”, considera o professor. “O livro é também uma resposta intelectual ao golpe de 1964 e, como Florestan mesmo diz, só pôde ter sido escrito por ele ser o sociólogo que era.”
Para a diretora da FFLCH, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda – que nos anos 2000 foi responsável pela reedição de obras de Florestan pela Editora Globo -, A Revolução Burguesa no Brasil é um livro “notável”, que explica a forma de desenvolvimento da sociedade brasileira e a origem de problemas enfrentados pelo País atualmente. “É um livro que tem ‘revolução’ no título, mas trata de uma revolução que não aconteceu”, diz Maria Arminda. “O que houve foi um processo de modernização burguesa com muitas particularidades, o que resultou numa modernização conservadora e excludente. Ou seja, é uma obra de um grande intelectual que elaborou uma visão crítica sobre a modernização do Brasil.”
Maria Arminda chama a atenção para um conceito que Florestan concebe em A Revolução Burguesa no Brasil – a ideia de “autocracia burguesa”. Segundo ela, esse conceito diz respeito a uma relação privatista com o poder, independente do regime. “É quando o poder é apropriado por alguns”, diz a professora, que destaca a atualidade dessa concepção de Florestan. “Nós estamos vivendo isso hoje no Brasil. Chegamos ao limite de famílias se apoderarem do poder.”
Autocracia burguesa” é um dos temas analisados pelo professor Gabriel Cohn na entrevista publicada como posfácio do primeiro volume da Coleção Florestan Fernandes. Segundo ele, em A Revolução Burguesa no Brasil, Florestan está a todo momento apontando para a dificuldade da constituição de uma classe, destacando que a burguesia não se formou integralmente – ou, na linguagem do sociólogo, nunca chegou a “saturar” seu papel histórico. “Florestan demonstra que aquela classe que deveria ascender cortando os laços com as classes anteriores, na realidade simplesmente criou novos elos, menos subalternos, porém de manutenção de uma estrutura que, supostamente, deveria ser superada”, afirma Cohn. “É que todo esse processo histórico que conduziu a uma burguesia que chega a um ponto em que revela não ser transformadora surge de uma classe que não consegue se constituir plenamente, até porque é incapaz de formular um projeto claro.”
Para Cohn, havia no Brasil amplo espaço para a burguesia transformar as bases da sociedade, mas ela não teve “apetite” para ocupá-lo. “A burguesia brasileira sempre tendeu a agir, pontualmente, para atender aos seus interesses imediatos, o que talvez responda em parte à questão da inapetência de classe”, diz o professor. “Havia, sim, margem de movimento para a burguesia local, e ela, dentro dos seus limites, tinha espaço para atuar, mas usou-o muito pouco. Ela concentrou sua atuação na busca de resultados ‘satisfatórios’ e não ‘ótimos’.”
Formando uma espécie de “burguesia oportunista” – que busca simplesmente garantir a sua parte -, a classe se dedica então a um exercício autocrático do poder. “O exercício autocrático do poder tende a ganhar autonomia em relação à classe e, dadas certas circunstâncias (em geral devidas a rupturas no interior da classe), ela caminha no rumo da institucionalização na forma da ditadura”, continua o professor na entrevista. “O problema, no entanto, é que não se constrói uma sociedade de modo autocrático. Ninguém consegue, não há nenhum caso. Você pode sufocar uma sociedade de modo autocrático, mas a sua construção tem que passar por outras formas de organização, outros mecanismos. A questão que ocupava Florestan no tocante ao que seria a revolução burguesa era a de como foi possível criar uma estrutura de poder incapaz de pensar o País, de formular um projeto.”
A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica, de Florestan Fernandes, Coleção Florestan Fernandes, volume 1, Editora Contracorrente e Kotter Editorial, 536 páginas, R$ 70,20.
Colaborou Maria Laura López
O texto acima faz parte da série de reportagens Florestan 100 Anos, produzida pelo Jornal da USP em comemoração ao centenário de nascimento do sociólogo e professor da USP Florestan Fernandes (1920-1995), a ser completado nesta quarta-feira, dia 22.
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