Operação da polícia de Witzel matou o menino João Pedro no Rio de Janeiro

Após 17 horas desaparecido, corpo de João Pedro é encontrado pela família no IML. Nas redes sociais, personalidades da luta pelos Direitos Humanos, denunciam a política genocida de Wilson Witzel

Ilustração: Ribs/@o.ribs

Jornal GGN – As políticas de segurança de Wilson Witzel (PSC) matou mais uma criança negra no Rio de Janeiro. O menino João Pedro, 14 anos, brincava na tarde desta segunda-feira, 18 de maio, no quintal da casa do tio, na Praia da Luz, em São Gonçalo, quando foi atingido por um tiro na barriga, disparado por policiais que invadiram o local. João foi levado por um helicóptero e ficou desaparecido a noite inteira, até a família localizar seu corpo no Instituto Médico Legal (IML) nesta manhã de terça-feira, 19 de maio. 

Mais uma vez, o Estado justifica que o morte de um inocente negro é consequência da guerra contra o tráfico no estado. A Polícia Civil e a Polícia Federal realizavam uma operação no Complexo do Salgueiro quando mataram João Pedro. 

Segundo a Civil, dois guardas do tráfico da região tentaram fugir efetuando disparos e arremessando granadas contra os agentes, ao pular o muro de uma casa. Em reação, os policiais invadiram a casa do tio da vítima atirando, sem qualquer averiguação.

Após levar um tiro na barriga, o menino – que estava brincando com os primos – foi resgatado por um helicóptero, mas a família foi impedida de acompanhar João Pedro. Após 17 horas desaparecido, a família mobilizou centenas de usuários nas redes sociais e localizou o corpo do menino no IML. 

“Quero dizer, senhor governador [Wilson Witzel (PSC)], que a sua polícia não matou só um jovem de 14 anos com um sonho e projetos, a sua polícia matou uma família completa, matou um pai, matou uma mãe e o João Pedro. Foi isso que a sua polícia fez com a minha vida”, disse o pai de João Pedro em entrevista à TV Globo.

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) afirmou que abriu inquérito para apurar a morte de João Pedro. De acordo com o órgão “foi realizada perícia no local e duas testemunhas prestaram depoimento na delegacia”. 

“As balas perdidas que só encontram os corpos negros”

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O assassinato de João Pedro, que cumpria isolamento social imposto em meio a pandemia do novo coronavírus, foi denunciado nas redes socais por diversas personalidades marca da defesa dos Direitos Humanos. Foi o jornalista Rene Silva, por meio de seu perfil no Twitter, que confirmou a morte do garoto. 

 A filosofa e feminista do movimento negro, Djamila Ribeiro, também se manifestou por meio de seu perfil no Instagram e destacou que o menino cumpria a ordem de isolamento social, quando foi fuzilado pela polícia. “Fique em casa, dizem. Pois João Pedro estava em casa, brincando com seus primos, quando seu corpo foi mutilado com as balas perdidas que só encontram os corpos negros”, diz parte da pubicação. 

 

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Fiquem em casa, dizem. Pois João Pedro Mattos estava em casa, brincando com seus primos, quando seu corpo foi mutilado com as balas perdidas que só encontram corpos negros. Domingo, estava assistindo a um telejornal, numa matéria em que falava sobre essa Operação que subia uma comunidade e matou várias pessoas no Complexo do Alemão, como se fosse a coisa mais normal do mundo. É normalizado, não deve ser normal.Cenas do Caveirão do Bope, veículo conhecido do Tropa de Elite, filme que ainda é exibido semanalmente, apesar de glorificar tortura, corporação e máquina de guerra genocidas para depois a matéria cortar para uma pessoa da polícia, penso que o delegado, dizer que era para a população ficar tranquila, pois não havia morrido nenhum “inocente”. Historicamente ninguém dessas comunidades é ouvido em matérias como essa e, dessa vez, o formato se repetiu. Mais um discurso de supremacia branca produzido com sucesso na televisão, um discurso que produz mortes. João Pedro Mattos foi uma delas, juntando-se a Amarildo, Claudia, Ágatha e outras milhões de pessoas. Alvejado, e sob o risco de atrapalhar a sinfonia assassina entre polícia, governo e mídia, seu corpo foi subitamente colocado em um helicóptero, sem ninguém de sua família, que ficou dezesseis horas sem saber seu paradeiro! 16 horas! Tempos depois, após uma campanha na internet, descobriu que o corpo do menino estava no IML. O horror… o horror… Vale dizer, o governador do Rio de Janeiro foi eleito sob a promessa de uma política genocida, mais ainda da que já era praticada. Disse que sob seu comando a polícia ia mirar e “atirar na cabecinha”. Enojante, tudo muito revoltante. Existe uma guerra contra a população negra desse país. João Pedro, presente! . . Ps: prefiro não expor a foto do menino

Uma publicação compartilhada por Djamila Ribeiro (@djamilaribeiro1) em

 Políticos, marca da luta pelas minorias, também integram a comoção nas redes sociais. David Miranda e deputado federal pelo PSOL-RJ questionou o estado sobre a ação: “Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?”

A deputada federal Talita Petrone (PSOL/RJ) destacou que o episódio é “Desumano. Triste. Avassalador”.

 Outras pessoas pelo Twitter denunciaram a guerra contra o tráfico, que só mata inocentes. Kamilla Mello, da luta pelos Direitos Humanos, destaca em seu perfil na rede social, que “mais uma criança negra virou sacrifício no altar da paranóia daqueles que querem segurança para os “cidadãos de bem””.  

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2 comentários

  1. Débora X João Pedro

    Débora, 27 anos, mulher, branca, assassinada em tentativa de assalto saindo da faculdade.
    João Pedro, 14 anos, homem, negro, assassinado em operação da polícia enquanto brincava.

    Apresento-lhes os pontos em comum de ambos os casos:

    1- Ambos foram mortos por criminosos.
    2- Dois clássicos da nossa sociedade.
    3- Ambos eram vítimas vulneráveis, alvos perfeitos. Se Débora fosse homem, dificilmente estaria morta. Se João Pedro fosse branco, dificilmente estaria morto.
    4- A família de Débora nunca teve respostas. A família de João Pedro dificilmente terá respostas. Ninguém se interessa em buscá-las.
    5- Dois jovens. Ela estudava, ele brincava. Dois futuros interrompidos.

    Agora a diferença crucial entre eles:

    O assassino de Débora era um desses bandidos que batem carteira, roubam carros, nos fazem botar grades em casa e fechar o vidro do carro.
    O assassino de João Pedro usa farda, é protegido pelo Estado, é a quem recorremos para buscar segurança. É para quem abrimos nossas portas de casa. É para quem pagamos nossos impostos. É quem a gente escolhe quando aperta aquele botão verde de “confirma” na urna.

    Débora morreu porque não quis entregar o carro para seu assassino. João Pedro morreu porque era preto.

    Esta breve comparação é para dizer que nossa sociedade está em perigo. Os bons se confundem com os maus. Quem deveria proteger, mata. Quem deveria ser protegido, mata. Temos mais assassinos do que imaginamos circulando entre a gente. Tem assassino que nunca será taxado de assassino. Tem assassino que vai ser chamado de herói. Tem assassino que estipula o valor da vida em meia dúzia de trocados. Tem assassino que escolhe a vítima pela cor da pele e CEP. Estamos nas mãos deles. Dos que usam farda e dos que usam chinelo de dedos. A nós, cabe usar a fé.

    No Brasil, se tu não nascer negro, pobre e favelado, tu te livra da mira da polícia, mas calma lá, ainda tem a mira do bandidinho que te espera sair do portão de casa. Pensa bem, que tu vai ver que se não existissem os assassinos do João Pedro, seria mais fácil lutar contra os assassinos da Débora.

    Débora era minha mãe. Morreu em março de 2006, quando eu tinha 11 anos.

    Todo meu amor e respeito à família de João Pedro,
    Gabriela Koslowski.

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