Os absurdos da Lava-Jato no programa 60 minutes

O programa 60 minutes (CBS), um dos mais prestigiados do jornalismo norte-americano, dedicou boa parte de edição ao trabalho da Lava-Jato no Brasil.

A entrevista com os procuradores e o juiz federal de Curitiba Sérgio Moro resume bem como uma operação contra o crime pode – sob júbilo midiático e desrespeito às leis – fomentar vaidades, atropelar direitos, desnutrir a política e piorar a vida da população.

Chamam a atenção pelo menos seis absurdos só tratados com naturalidade no vídeo porque a sanha pelos holofotes há muito tempo engoliu o bom senso por aqui:

1. A Lava-Jato estimulou e se beneficiou do ódio contra a esquerda para desestabilizar o governo e provocar a queda de Dilma Rousseff, jamais acusada formalmente de corrupção. O uso político de uma investigação judicial é tratado como prática normal, mesmo à custa do debacle social e do estímulo ao fascismo.

2. A Lava-Jato é um processo montado para gerar acusadores e punidos. A defesa é mero obstáculo a ser desmoralizado e transposto. Promotores e juiz, ao arrepio do direito, se fundem no papel de algoz. A cautela sobre casos em andamento inexiste frente à necessidade de destruir o investigado aos olhos da opinião pública e publicada através de vazamentos seletivos e atuação parcial.

3. A comparação de Moro com Eliot Ness, um dos artífices da prisão de Al Capone no esteio da Lei Seca norte-americana, só não é risível porque o juiz acredita e saboreia. Detalhe: Eliot era um agente do Tesouro – e a história reserva a ele um papel menos glorioso após a perseguição ao contraventor. Moro é um juiz, a quem a lei delega o poder de decidir com isenção após ponderar os dois lados e sob a lei do país.

4. A privação de liberdade virou trunfo em detrimento da presunção de inocência. Delações são arrancadas depois da tortura psicológica de uma prisão por meses. No vídeo, o juiz brasileiro justifica: “É uma situação especial”. E danem-se os direitos, as prerrogativas individuais.

5. O deslumbramento com o próprio trabalho trai a eficácia da operação. Procuradores citam as centenas de acusados para se gabar e se colocar acima até de Watergate, o mais emblemático caso de investigação dos EUA, capaz de levar à renúncia o presidente Richard Nixon. Mas omitem a boa vida proporcionada aos delatores, com penas reduzidas e sequer punidos pela prestação de informações falsas. O presidente de uma empreiteira, basta recordar, chegou a recuar no depoimento depois de desmentido o envio de um cheque à campanha de Dilma Rousseff e saiu ileso da falácia.

6. A Lava-Jato despreza o impacto negativo dos próprios métodos sobre a economia e a realidade social do país. Sem o devido cuidado de punir as pessoas e preservar as empresas, desmantelou cadeias produtivas, contribuiu para a demissão de milhares de pessoas e inviabilizou projetos. Diante da paralisação de uma refinaria mostrada no programa, por exemplo, a culpa recai, claro, sobre a corrupção.

A versão distorcida da realidade repetida à exaustão pode até agradar setores beneficiados, hoje, com o desmantelamento do estado. Mas serão certamente corrigidos pela história empenhada em separar o combate ao crime de um discurso vazio adornado de vaidades, capaz de levar ao poder uma quadrilha de criminosos e deixar um país conflagrado na busca por direitos básicos. 

 

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