Os debates da Band e o prenúncio de um novo ciclo político no Brasil e no RS

No debate entre os candidatos à presidência da República, Marina Silva despolitizou tudo, substituindo os conflitos entre projetos políticos distintos pela criação de uma irmandade dos “bons” oriundos de diferentes partidos, e, assim, vem conseguindo falar ao coração dos eleitores. Mudou no estilo do discurso, mas continua dizendo o mesmo que dizia antes, quando se apresentava como a mensageira da antipolítica, a fundadora de uma organização sem qualquer hierarquia e contrária aos políticos e aos partidos “tradicionais”.

Agora, Marina Silva diz que vai fazer a “nova” política, como se ela, com mais de 60 anos de vida e tendo passado pelo PT, pelo PV, pela Rede e estando agora no PSB, não fosse uma política “velha”. Sua posição lembra Collor de Mello, que, com 30 anos, foi prefeito de Maceió nomeado pela ditadura, com 34 anos deputado federal, com 38 anos governador de Alagoas e, mesmo assim, se apresentou como “antipolítico” e como “novo” político.

Marina Silva disse que vai governar com os “melhores”, como se isso fosse possível. Governa-se, como se faz na vida, não com quem se quer, mas com o quem se pode. Será que foi por serem “maus” que FHC, Lula e Dilma governaram com “bons”, “médios” e “maus”? Seria ótimo se, na vida de cada um de nós, pudéssemos só (com)viver com os “bons”. Como é impossível, (com)vivemos com os “bons”, mas também com os “médios” e os “maus”, assim considerados por nossos próprios critérios, que, aliás, não são universais.

Quem são os “bons”? Quem os define? Esta é uma classificação que fica bem na religião, não na política. O que é bom para os que têm muito nem sempre é bom para os que têm muito pouco. Nas religiões que os possuem, bom é ir para o céu e escapar do inferno, uma decisão bem simples. No mundo terreno, em sociedade, fazer política é conciliar interesses diversos e, algumas vezes, até antagônicos. Nas democracias, faz-se isto consultando a maioria e fazendo-se concessões às minorias. Nas ditaduras, em que se incluem os governos de fundamentalistas e messiânicos, impõem-se interesses pela força da repressão.

No Brasil, sem estrutura partidária e sem maioria parlamentar (Câmara Federal e Senado), se eleita, Marina Silva terá que compor e fazer acordos com os partidos políticos e com os políticos “que estão aí”. Como conseguirá ela escolher apenas os “bons”, para compor o seu governo, excluir os “maus”, dos partidos com os quais terá que compor e, ainda, fazer maioria para aprovar projetos e obter autorizações do Congresso Nacional?

Leia também:  Quem poderia transmitir covid-19 a Bolsonaro?, por Maíra Mathias e Raquel Torres

Dilma Rousseff, por sua vez, manteve, no debate, a imagem da “gerentona”. Muito boa ao apresentar dados e fatos, falou com energia, ainda que tenha se enrolado em algumas frases (mas isto todo “gerentão” faz). Um pouco nervosa no início do debate, foi se acalmando e acabou se saindo melhor do que de costume. Apresentou bem os feitos de seu governo, a melhoria das condições de vida da população, a crise internacional e seus reflexos no Brasil, a geração de empregos e o crescimento da Petrobrás, mas não conseguiu falar ao coração de ninguém, não criou empatia e não cativou os eleitores.

Aécio Neves manteve a posturado eterno garotão. Bonito, sorridente e bem falante, ficou nisso. Não conseguiu inspirar confiança, ainda que tenha apresentado dados importantes de seu governo em Minas Gerais e feito questionamentos sérios sobre o governo Dilma. Centrou fogo em Dilma Rousseff, mas não levou. Muito além dos fatos e de sua veracidade ou não, a firmeza de Dilma se sobrepôs aos sorrisos e insinuações de Aécio.

Bem mesmo, talvez até pelo fato de não terem nenhuma chance eleitoral, saíram-se Eduardo Jorge e Luciana Genro, ficando Eduardo Jorge quilômetros à frente de todos os demais no tratamento de questões fundamentais para o país. Com seu jeito simplório (que é apenas aparente, pois Eduardo é um médico experiente, com anos de prática na administração pública na área de saúde e um dos principais idealizadores do SUS), Eduardo Jorge foi ao centro da questão da violência, ao afirmar que ela não será reduzida no Brasil sem mudanças na política antidrogas, e também ao centro da questão do aborto, mostrando que este é um problema de saúde pública que afeta milhares de mulheres todos os anos no país e que precisa ser enfrentado com coragem e sem hipocrisia. Tivesse mais tempo de rádio e TV e um partido melhor estruturado, Eduardo Jorge poderia se tornar o José Mujica brasileiro.

Luciana Genro, em que pese o ranço esquerdista e a repetição de velhas fórmulas da luta de classes, foi a única que politizou, de fato, o debate e explicitou acertadamente o papel despolitizante de Marina Silva. Como “governar com todos”,se há interesses de econômicos irreconciliáveis na sociedade? Esta poderia ser a frase resumo de seu desmascaramento do discurso falacioso de Marina.Luciana tocou na questão fundamental da reforma tributária e da taxação das grandes fortunas para que sejam obtidos recursos necessários para a distribuição das riquezas e o desenvolvimento do país.

No debate entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, Ana Amélia Lemos e José Ivo Sartori, disputando o mesmo eleitorado, preferiram, no entanto, não se enfrentar. Pelo contrário, Sartori serviu de “escada” para Ana Amélia. Trocaram figurinhas. Sartori está tentando um voo maior, mas não consegue ir além da Prefeitura de Caxias do Sul. Uma perda, porque se ele tivesse o “pique” necessário, talvez pudesse se viabilizar, de fato, como uma “terceira via”.

Leia também:  Relator diz que veto a desoneração é "grave erro"

Na dianteira das pesquisas, Ana Amélia preferiu não se arriscar e fugiu do debate com Tarso Genro, atual governador e seu adversário efetivo. Ana Amélia atacou, mas o fez de “esguelha”, nunca deixando de se apresentar como a “nova” política e de se afirmar como aquela que irá “governar com todos”.Manteve sua postura de despolitizar o debate e tentar negar a política e suas contradições e conflitos, como o faz Marina da Silva no âmbito nacional, mas, neste caso, coerentemente com seu papel de candidata pelo partido que sustentou a ditadura civil-militar brasileira por muitos anos.

Tarso Genro citou dados, mostrou realizações, mas, tal como Dilma Rousseff, pouco entusiasma o eleitor. Político competente, não se assemelha a um simples gerente, mas também não consegue cativar e falar ao coração dos eleitores. Vieira da Cunha, como uma versão light ou, talvez, como um arremedo de Roberto Robaina, centrou fogo em Tarso Genro, numa posição que acabou ajudando a colocar lenha na fogueira de Ana Amélia. O mesmo papel cumpriu Roberto Robaina pois, ainda que sua metralhadora atire para todos os lados, seu alvo preferencial é Tarso. Não por acaso, o maior embate da noite deu-se entre Tarso Genro e Roberto Robaina, um acusando o outro de fraudar os eleitores com promessas não cumpridas ou com posturas contraditórias.

João Carlos Rodrigues surpreendeu, não fazendo dobradinha e nem servindo de apoio a nenhum candidato adversário. Sem chance de vitória, tentou, ao menos, apresentar-se como alternativa de governo, ainda que não tenha apresentado propostas de políticas capazes de modificar o quadro político-econômico do Estado.

Os debates da Band e as pesquisas eleitorais até aqui divulgadas deixam antever que estamos vivendo o fim de um ciclo político no Brasil, muito bem apontado por LuisNassif no seu artigo O mito do cavaleiro solitário (http://jornalggn.com.br/noticia/marina-e-o-mito-do-cavaleiro-solitario).  A modernização do país, a inclusão social e  o aumento da participação política promovidos pelos governos peessedebistas e petistas que se sucederam no poder durante os últimos 20 anos produziram novos cidadãos, bem mais integrados ao mercado do que aos mecanismos e instituições de participação política e com exigências e expectativas que as antigas instituições sociais e políticas não estão satisfazendo.

Leia também:  Na ONU, Bolsonaro é denunciado por ataques contra mulheres jornalistas

Em momentos como este costumam surgir os “salvadores da pátria”, aqueles que se colocam contra a “velha política” e se apresentam “acima” dela, como capazes de unir o país, juntando os “bons” e excluindo os “maus”. Não por acaso, a grande figura pública do ano passado, surgido quase que no mesmo momento em que eclodiram os grandes protestos de rua no país, foi Joaquim Barbosa, o “carrasco do mensalão” com sua postura moralista – falsa ou não, pouco importa.Surgem, agora, Marina Silva, em todo o país, e Ana Amélia Lemos, no Rio Grande do Sul. Ambas utilizam o mesmo (velho) discurso de se apresentarem como o elemento “novo” e como as candidatas capazes de fazer a “nova política”, aquela que será realizada apenas pelos “bons”.

Na história brasileira, num final de ciclo semelhante ao que vivemos hoje, em 1960, depois das transformações ocorridas durante os governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubistchek, surgiu Jânio Quadros, utilizando a vassoura como símbolo para varrer a “sujeira” do país. Em 1989, após um período de intenso crescimento econômico, de urbanização do país e de crise da ditadura militar, seguido pela fase de caos econômico do governo Sarney, surgiu Collor de Mello, com sua campanha de “caça aos marajás”. Na história do Rio Grande do Sul, no final de ciclos políticos recentes, surgiram José Fogaça, em Porto Alegre, com a promessa de fazer o “novo”, de conservar o que era bom e de melhorar o que era ruim, e Yeda Crusius, com o discurso da nova política e do “novo jeito de governar”.

Na história brasileira, candidatos defensores da “moralização” do país, que não contavam com estrutura partidária, com apoios políticos expressivos e uma base social efetiva, pois seus eleitores eram muito mais contra uma determinada ordem do que defensores de um novo projeto de Nação e de Estado, revelaram-se, em poucos meses, sem forças para contrariar interesses e privilégios historicamente arraigados na sociedade. Perderam rapidamente o apoio daqueles que entusiasticamente os elegeram e que logo passaram a se sentir traídos e desiludidos. Tais governos fracassaram no passado e, com toda a certeza, qualquer governo “salvacionista” do mesmo tipo tenderá a fracassar no futuro que se prenuncia.

Benedito Tadeu César cientista político

Publicado originalmente no Sul21: http://www.sul21.com.br/jornal/os-debates-da-band-e-o-prenuncio-de-um-novo-ciclo-politico-no-brasil-e-no-rs/

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome