Os selvagens das motocicletas e as pedaladas da mídia em favor das armas de fogo

A imprensa ficou aparentemente chocada com o tiroteio entre motoqueiros norte-americanos. A culpa do ocorrido foi atribuída pela BBC à cultura violenta das gangues e ao envolvimento das mesmas com o crime organizado: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150518_eua_motos_gangues_fd

O Estadão enfatizou que os donos do local sabiam da rivalidade entre as gangues e não fizeram nada para impedir o encontro e o confronto entre elas: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,tiroteio-entre-gangues-rivais-de-motoqueiros-deixa-9-mortos-no-texas,1689358

No portal Terra o destaque foi dado à proibição da venda de bebidas no local por sete dias em razão do “…perigo que representa para a comunidade”:

http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/tiroteio-entre-gangues-rivais-de-motociclistas-deixa-9-mortos-no-texas,27a2a2eaf4a4ea74f2971fe52ce47b407mzjRCRD.html

O jornal O Globo afirmou que “o encontro entre as gangues rivais foi marcado anteriormente para que discutissem sobre territórios e recrutamentos, questões que já provocavam disputas violentas”:

http://oglobo.globo.com/mundo/policia-prende-192-pessoas-apos-tiroteio-entre-gangues-de-motoqueiros-matar-nove-no-texas-16188533#ixzz3aZQ5Lo7t

No R7 o que mais chama a atenção é o fato da cobertura do incidente ter sido feita exclusivamente com informações divulgadas pela polícia no Facebook e no Twitter: http://noticias.r7.com/internacional/tiroteio-entre-gangues-de-motoqueiros-em-bar-no-texas-deixa-9-mortos-18052015

A Veja também enfatizou que os gerentes do estabelecimento ignoraram procedimentos de segurança e alertas para evitar encontros entre as gangues rivais: http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/texas-processara-170-pessoas-envolvidas-em-tiroteio-entre-motoqueiros/

Em nenhum das matérias acima foi dada a devida enfase ao fato mais importante: os motoqueiros estavam armados e tinham munição farta. De fato, os veículos de comunicação acima relacionados sequer fizeram referência aos incentivos sociais, comerciais e culturais que os norte-americanos recebem para comprar pistolas, espingardas e fuzis automáticos.

O local onde ocorreu o tiroteio é próximo a um supermercado. No Brasil os supermercados não podem vender armas e munição. Nos EUA a realidade é bem outra. Onde aqueles motoqueiros compraram as pistolas e os projéteis que utilizaram durante o tiroteio? Os jornalistas não fizeram e não responderam esta pergunta.

Se os motoqueiros não estivessem portando armas de fogo haveria tantas vítimas? A resposta a esta outra pergunta é não. Neste caso teria ocorrido o que sempre ocorre no Brasil nas brigas entre membros de torcidas organizadas de futebol: escoriações, luxações, fraturas, ferimentos causados por facadas… um ou dois óbitos no máximo. A elevada quantidade de mortos na guerra dos motoqueiros norte-americanos deveria, portanto, ser creditada não à violência das gangues motorizadas, à incúria dos donos do estabelecimento ou à venda de bebidas no local, e sim à perversidade da cultura dos EUA, país que permite e até encoraja sua população a comprar e portar armas de fogo.

A imprensa brasileira não defende mais o desarmamento dos norte-americanos ou quer evitar notícias consideradas ruins por aqueles que desejam armar os brasileiros? Esta pergunta desagradável é sugerida pela omissão que ocorreu na cobertura do tiroteio entre os motoqueiros nos EUA. Pelo visto, a influência da Bancada da Bala já está se projetando do Congresso para a mídia.

A julgar pela qualidade do jornalismo praticado no Brasil, caso aquela guerra seja retomada em outro local, como sugerido em uma das matérias, a imprensa provavelmente culpará… as motos. Se as mesmas não fossem fabricadas ou não pudessem ser livremente vendidas nos EUA as gangues não existiriam ou não conseguiriam se deslocar e se encontrar para trocar tiros.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora