“Para pessoas trans, política não é opção, é destino”, diz Duda Salabert ao GGN

A vereadora trans mais votada da história de Belo Horizonte fala ao GGN sobre patrulhamento ideológico, agenda socioambiental, maternidade, ódio nas redes e muito mais. Assista

Por Duda Cambraia

Jornal GGN – Mãe da Sol, professora de Literatura, ambientalista, fundadora da ONG Transvest, primeira candidata trans ao Senado em um país da América Latina e vereadora mais votada da história de Belo Horizonte. Duda Salabert é uma mulher de luta com “um pé na rua e um pé no Parlamento”. 

Sua vida pública começou em 2018, quando se candidatou ao Senado, pelo PSOL, recebendo 351.874 votos. Foi a quarta maior votação para uma mulher no Estado, mas insuficiente para alcançar Rodrigo Pacheco (DEM) e Carlos Viana (PHS), os eleitos. Em 2020 ela concorreu ao cargo de vereadora, pelo PDT, angariando na capital mineira mais de 30 mil votos. 

A entrada de Duda na política foi acompanhada de toneladas de mensagens de ódio após receber ataques diretos da família Bolsonaro pelas redes sociais. Após a última eleição, ameaças de morte lhe custaram o emprego de professora, sua principal vocação. Os terroristas digitais prometeram transformar a escola em que ela lecionava em “um mar de sangue” caso não fosse demitida “por ser uma mulher transexual”. 

Afastada, não por vontade própria, das salas de aula, hoje Duda dedica-se a combater o avanço das mineradoras, entre outras ações do mandato, e liderar o projeto social responsável por executar o maior programa de transferência direta de renda às pessoas trans em situação de vulnerabilidade na pandemia.

Nesta entrevista exclusiva à jornalista Duda Cambraia, do GGN, a vereadora Duda Salabert fala sobre patrulhamento ideológico e escola sem partido; ataques de ódio, polarização e deterioração da democracia; a violência contumaz que fulmina os corpos e as vidas trans; os impactos da pandemia nas crianças; o enlace entre política e Literatura; a “revolução existencial” que é a maternidade, ‘sem romantização”; os preconceitos dentro da comunidade LGTBQI+; e seus medos e “não arrependimentos”, entre outros pontos. 

A mensagem de Duda é uma dose de perseverança e resiliência nesses tempos de “homens partidos”, como dizia Drummond. “Estamos na maior crise do capitalismo, que quer nos reduzir a coisa, máquina e objeto que só trabalha, não tem esperança, fé, utopia nem grandes sonhos. Não podemos perder isso que nos humaniza. É possível, sim, transformar a realidade brasileira”, diz.

Para Duda Salabert, “transformações profundas” na sociedade serão possíveis por meio da educação. “Novas consciências se constroem em sala de aula. Não existe outra forma de mudar a realidade.” 

“Para nós, pessoas travestis e transexuais, a política não é opção, ela é destino, sina. Os nossos corpos já são políticos, eles tencionam um binarismo que há na sociedade, tencionam uma lógica cisheteronormativa. A gente é político por natureza“, conclui.

A entrevista foi gravada e está disponível no canal do GGN no Youtube. Assista abaixo:

Confira os principais trechos abaixo:

Duda Cambraia: Você já disse algumas vezes que, independente de cargo político, não deixaria de ser professora. Como foi lidar com a demissão da escola em que trabalhava e como é passar esse período longe das salas de aula? 

Duda Salabert: A gente sai da sala de aula, mas a sala de aula não sai da gente. Eu posso estar na política, mas sou professora. No espaço Legislativo também desempenho esse papel. Há uma frase que fala que numa escola até os muros ensinam. Eu defendo que a cidade seja um lugar em que, por onde você passa, você aprenda algo. Onde todos os cidadãos sejam professores, no sentido de estar a serviço para promover uma educação ambiental, social, cultural e produzir um conhecimento a serviço da justiça social. 

Foi triste eu ter sido demitida. Sinto muita saudade da sala de aula. A sala de aula é nossa cachaça, faz bem para a alma. Pretendo voltar a dar aula, estou à disposição para lecionar. 

Duda Cambraia: Esse processo de demissão partiu de questões políticas?

Duda Salabert: É preciso lembrar que em 2018 eu me tornei a primeira mulher transexual da América Latina a disputar o cargo de Senadora da República, terminando as eleições com 351 mil votos, fato que me colocou como a quarta mulher mais votada da história das eleições em Minas Gerais. Na época eu já tinha assumido essa imagem de figura pública [e feito a transição de gênero], o que dificultou a minha participação em sala de aula, devido ao patrulhamento ideológico. 

O patrulhamento ideológico é uma das consequências da chamada escola sem partido como projeto de criminalização dos professores, um projeto moralista, antidemocrático, que quer censurar debates em sala de aula, reduzindo o papel da escola e sua função de combater as desigualdades sociais e formar alunos políticos, no sentido de produzir uma visão crítica. A escola não deve ser e nunca será um espaço puramente de transmissão de informação. Informação nós temos no Google. A escola tem que ser espaço de formação, o que pressupõe uma visão crítica do sujeito. Há um processo de esvaziamento dessas dimensões. 

A minha aula sempre foi muito politizada. A Literatura é uma ferramenta seriamente política. Mesmo quando a gente pega textos da Clarice Lispector, que mergulha na dimensão existencial das personagens, há conexão com a dimensão política quando reflete sobre as desigualdades de gênero. Então a Literatura é política e não tinha como fugir disso. 

Aí começou uma perseguição muito grande que se ampliou quando me candidatei ao Senado. A família Bolsonaro fez uma publicação contra a minha pessoa e meu Instagram foi bombardeado por mensagens de ódio. Os pais foram à escola, pedindo a minha demissão. Setores odiosos bolsonaristas começaram a avaliar negativamente a página da escola [no Facebook] e a mandar e-mails exigindo a minha demissão só por eu ser uma mulher transexual. 

Em 2020 isso se reedita de uma forma pior. Depois de ganhar as eleições municipais, eu recebo uma ameaça de morte do maior grupo de ódio da internet, grupo do qual surgiram aqueles terroristas que cometeram o massacre na escola de Suzano [São Paulo], matando pedagogas e alunos. Esse e-mail foi encaminhado para mim e para a escola, dizendo que iam transformar a instituição em um mar de sangue. Uma tentativa de forçar a escola a me demitir.  

O objetivo é que nós, pessoas travestis e transexuais, não estejamos no espaço escolar.

Duda Cambraia: Sendo professora, como você analisa os impactos da pandemia na Educação? É possível mensurar os efeitos da quarentena? 

Duda Salabert: É impossível mensurar os impactos na Educação. A gente vai conseguir uma análise mais substancial daqui a quatro ou cinco anos, quando vamos ver os desdobramentos psicopedagógicos da pandemia nos alunos, sobretudo nos mais novos. No ensino médio é possível se adaptar à tecnologia. Mesmo assim, a aula virtual não substitui a presencial. Se o Brasil levasse a Educação a sério, teríamos colocado em prática o clichê ‘a escola seria a última a fechar e a primeira a abrir’. Teríamos colocado os professores no grupo prioritário de vacinação. Investido na carreira e formação dos professores. 

É preciso considerar que temos desigualdades regionais absurdas, e essas desigualdades também são raciais e de gênero. Antes da pandemia, segundo pesquisas da UFMG, 91% das travestis e transexuais não tinham sequer concluído o ensino médio. Não existe evasão escolar para as pessoas trans. Elas são expulsas do espaço escolar.

Duda Cambraia: Como está sendo a maternidade na pandemia?

Duda Salabert: É importante reforçar que a Sol tem duas mães registradas e, até onde sei, eu fui a primeira mulher transexual a efetivar a licença maternidade por 120 dias pelo INSS. Não foi dado, foi uma conquista. Fiquei quatro meses vivendo profundamente a maternidade. 

Aprendi na minha formação política e nos livros de História que existem várias revoluções: a revolução cubana, a russa, a inglesa, dentre outras revoluções econômicas. A revolução existencial, de fato, é a maternidade. É legítimo o sentimento de algumas pessoas não quererem a maternidade para si, mas a experiência pela qual passei foi uma revolução na minha vida e esse discurso consigo perceber em várias outras mães. E não estou aqui romantizando a maternidade, que tem seus desafios, sobretudo na pandemia.

É difícil a maternidade nesse momento porque a Sol não está vivendo a primeira infância como poderia. O que nos leva a questionar esse modelo de sociedade voltado para adultos, que pensa pouco nas crianças e idosos. Para citar um exemplo histórico: quando teve a Revolução Russa, em 1917, o partido Bolchevique assume o poder e reza a história que foi debatido um projeto para criar cidades onde as crianças pudessem viver a infância em sua maior liberdade, tuteladas por pedagogos. A pandemia escancarou que as crianças são as que mais estão sofrendo. Nesse novo normal, temos que pensar em uma cidade para as crianças, estamos em dívida com elas. 

Duda Cambraia: Como a gente pode ver os impactos da pandemia nas mulheres trans?

Duda Salabert: Houve um aumento da violência contra pessoas transexuais. O número de homicídios e de suicídios na comunidade aumentou. Mas fazendo um paralelo em relação à pandemia: nós pessoas travestis e transexuais já experimentávamos seus efeitos de certa forma. O isolamento social que vocês passam hoje, nós já vivíamos. Nem direito ao sol é dado a uma pessoa transexual, porque dificilmente nos encontrávamos de manhã comprando pão na padaria. A saudade da família, nós já passamos. Cerca de 6% das travestis e transexuais de Belo Horizonte, segundo a UFMG, foram expulsas de casa com menos de 13 anos. O medo de sair às ruas e morrer é dado às transexuais, uma vez que o Brasil é o País que mais mata pessoas trans no planeta. E 80% são assassinadas com violência exagerada – paus enfiados no ânus, corpos esquartejados e deixados no espaço público. A diferença para nós é econômica. 

A crise econômica afeta substancialmente as pessoas mais vulneráveis, e o grupo mais vulnerável que há no Brasil, sem a menor sombra de dúvida, são as pessoas transexuais. Existe algum grupo em que 90% estão na prostituição? Existe no Brasil algum grupo que tenha a expectativa de vida de 35 anos? Não existe. Nós somos o grupo mais vulnerável que há no Brasil. 

Duda Cambraia: Como a mídia impacta na transfobia que se vê nas ruas e dentro de casa?

Duda Salabert: Temos no Brasil uma transfobia estrutural e institucional. Estrutural porque faz parte da formação brasileira esse processo de violência de gênero. Institucional porque as instituições, de modo geral, nos violentam.

A família é uma instituição e 6% das travestis e das transexuais em Belo Horizonte foram expulsas de casa com menos de 13 anos de idade. A escola é uma instituição que nos violenta: 91% das travestis e transexuais de BH não concluíram o ensino médio. O mercado de trabalho nos expulsa: 90% das travestis e transexuais estão na prostituição. 

O setor midiático, como instituição, também nos violenta porque nos trata como caricatura. São pessoas cisgêneras que fazem papel de travestis e transexuais. A mídia acaba reproduzindo [violência] e sendo espelho do que é a nossa sociedade, algo absurdo porque [as emissoras] são concessões públicas. A mídia deveria estar a serviço do processo pedagógico de combate às injustiças sociais, não a serviço da injustiça social. 

Duda Cambria: E a gente consegue mudar isso?

Duda Salabert: Consegue se pensar em transformações profundas, que acontecem no âmbito educacional. O que muda o mundo não são novas leis, são novas consciências, e novas consciências se constroem em sala de aula. Não existe outra forma de mudar a realidade que não seja pela sala de aula. É um processo lento, mas não tão lento assim. 

Duda Cambraia: Dentro da própria comunidade LGBTQIA+, pessoas trans ainda sofrem preconceito?

Duda Salabert: Na sigla LGBT, o ‘T’, muitas vezes, acaba sendo um adorno já que a própria comunidade reproduz transfobia. Nós temos setores do feminismo radical, por exemplo, que desconsideram as experiências trans. Muitos gays também reproduzem a transfobia. As pautas que têm mais visibilidade, em sua maioria, são voltadas para os homens homossexuais.

Nesse momento de crise, a gente pede uma sinergia maior no movimento, que entendam que as violências pelas quais passamos têm suas especificidades, mas temos um inimigo comum, que é a lógica capitalista alicerçada em uma perspectiva patriarcal que trabalha com a ideia de que as questões de gênero ou os gêneros ligados à dimensão feminina são sempre colocados em segundo plano. Temos que nos unir para combater esse processo de exploração e opressão.

Duda Cambraia: Como você vê o desmonte das políticas socioambientais?

Duda Salabert: A gente não pode perder as esperanças. É isso o que eles querem. Estamos na maior crise do capitalismo e, no contexto de crise, o capitalismo quer nos reduzir a coisa, máquina e objeto que só trabalha, não tem esperança, fé, utopia nem grandes sonhos. Não podemos perder isso que nos humaniza. É possível, sim, transformar a realidade brasileira. 

Esse desmonte ambiental que nós estamos passando não se iniciou no governo Bolsonaro, ele já vem de governos anteriores. Vamos lembrar que após o crime ambiental da Samarco, em Mariana, o governo [Fernando] Pimentel, aqui em Minas, flexibilizou as legislações ambientais. O governo do PT já tinha feito flexibilizações anteriores. Nós reconhecemos os avanços que o governo do PT trouxe para o Brasil, mas também reconhecemos os problemas ambientais que trouxe. Essa flexibilização assumiu uma dimensão muito maior no governo Bolsonaro.

Temos que defender o conselho de saúde único; entender que a saúde animal, humana e ambiental estão interligadas, são interdependentes. Desconsiderar uma dessas saúdes prejudica outras. Temos que substituir a perspectiva antropocêntrica, que coloca o ser humano como dono da natureza, por uma perspectiva biocêntrica, que coloca o ser humano como parte da natureza. 

O governo Bolsonaro está a serviço do desmonte ambiental, da perseguição às ONGs, da criminalização do ativismo ambiental; a serviço do agronegócio, dos agrotóxicos, da grilagem de terras e da bancada ruralista. É possível transformar isso. E mesmo que não fosse, não vamos nos ajoelhar. 

Estamos aqui lutando pelo tombamento da Serra do Curral, enfrentando grandes mineradoras, colocando a minha vida em risco, não vamos recuar. 

No Congresso estamos discutindo hoje o auxílio emergencial de 300 reais. Olha que visão pobre de política. É isso que eles querem, que nós tenhamos uma visão pobre de mundo e de política. Eles querem que a gente lute só por cota. A gente tem que lutar pelo fim do vestibular, a democratização completa da universidade. A Argentina conseguiu, o México conseguiu. As cotas são importantes, mas a gente não pode perder de horizonte o fim do vestibular.

Duda Cambraia: Essa sua sede por transformação ficou maior depois da Sol?

Salabert: Ser mãe nos deixa mais bunda-mole, sabe? Com mais medo de morrer. Se eu não tivesse a Sol, com essas mineradoras na Serra do Curral eu ia botar o dedo na cara. Mas o medo não nos impede de avançar. A gente só luta com mais responsabilidade agora. Antes da Sol eu fazia luta nas ruas; hoje faço no Parlamento. Os grandes ativistas não estão no Parlamento, estão nas ruas. A maternidade me obrigou a colocar o pé na Câmara Municipal, uma luta um pouco mais responsável.

Duda Cambraia: Depois das ameaças de morte, você ainda sente medo de sair na rua? 

Duda Salabert: Tenho medo quando saio na rua porque após as ameaças de morte, quando para um carro na porta da minha casa, ou então, de madrugada, quando vejo um carro na porta de casa, eu acho que vão meter bala. Hoje quando vou ao banheiro da Câmara, olho pelo vidro e fico pensando se tem alguém olhando pra mim. Eu tenho medo, muito medo. Não era assim antes das ameaças de morte. Eu ia ao banheiro e não olhava se tinha alguém mirando uma arma pra mim. Tenho medo, sim. Eu sei o que aconteceu com Marielle Franco.

Duda Cambraia: Você se arrepende de ter se tornado uma pessoa pública, de ter se candidatado em 2018 e em 2020. Faria alguma coisa diferente?

Duda Salabert: Para nós, pessoas travestis e transexuais, a política não é opção, ela é destino, ela é sina. Os nossos corpos já são políticos, eles tencionam um binarismo que há na sociedade, tencionam uma lógica cisheteronormativa. A gente é político por natureza, então não me arrependo. Tenho que usar os privilégios que tive para buscar políticas públicas para as pessoas trans e LGBTs. 

Duda Cambraia: Como está o seu projeto da ONG Transvest? 

Salabert: A gente criou aqui em Belo Horizonte, há cinco anos, a Transvest, que é uma ONG que oferece educação gratuita para travestis e transexuais. É a primeira casa de acolhimento de pessoas trans em situação de rua. Também fazemos trabalho nas alas prisionais onde há travestis e transexuais privadas de liberdade.

Na pandemia a gente não pôde oferecer aulas. É uma situação de vulnerabilidade tamanha que elas não têm acesso a computador, internet. Por isso criamos a renda mínima trans. Nós já distribuímos cerca de 200 mil reais para pessoas trans e em situação de vulnerabilidade. É o projeto com maior distribuição de renda a pessoas trans no Brasil. Nós ajudamos, com 100 a 200 reais, cerca de 200 travestis e transexuais da capital e região metropolitana. Vamos continuar até o fim da pandemia, até as travestis serem vacinadas.

Duda Cambraia: Com a polarização política que o Brasil vivencia hoje, o que podemos esperar da eleição de 2022? 

Duda Salabert: Essa polarização se amplifica em junho de 2013 com as grandes manifestações. A partir daí o Brasil começou a se polarizar cada vez mais. A democracia começou a se colocar em crise quando setores ultra-reacionários, que  defendem a volta do regime militar, começam a ocupar espaços de poder. Esses grupos saem do esgoto da história para o protagonismo na política. 

Eu torço para que em 2022 nós tenhamos um candidato que unifica o Brasil. Me refiro a um governo que de fato une o povo, porque o povo não é fascista em sua maioria. Precisamos de um candidato que tenha esse poder de unir o País. A polarização, se ela se mantiver, vai ser ruim para quem ganhar. O Brasil está um barril de pólvora, a América Latina está um barril de pólvora, e nós temos que tomar muito cuidado para que governos autocráticos não se apropriem desse cenário para dar golpes.

Edição: Cintia Alves

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