
Jornal GGN – Para o professor associado do Instituto de Economia da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, o governo não têm como fazer o ajuste que havia imaginado e fazer um ajuste fiscal em meio à recessão é contraproducente. “Os cortes que eles fizeram e continuam fazendo já são maiores do que era previsto e não houve reversão”, diz.
Em novembro de 2014, Bastos liderou um manifesto de economistas heterodoxos em apoio à Dilma Rousseff, se colocando contra medidas de austeridade. Agora, ele se diz decepcionado com as decisões tomadas pela nova equipe econômica e critica o caminho da ortodoxia adotado por Joaquim Levy. Para ele, o governo deveria comunicar com transparência o abandono da meta de superávit primário de 1,2% e pergunta: vale a pena preservar a nota de investimento das agências de rating às custas de uma recessão de 2% do PIB?
Do Valor
Por Ligia Guimarães
Em novembro de 2014, o professor associado do Instituto de Economia da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, liderou um manifesto de economistas heterodoxos em apoio à presidente reeleita, Dilma Rousseff. Na petição, assinada por nomes como o do seu orientador de doutorado, Luiz Gonzaga Belluzzo, e pela economista Maria da Conceição Tavares, o grupo se opunha às propostas de austeridade fiscal defendidas, até então, por economistas e interlocutores do governo e da oposição. O argumento era que o corte de gastos seria um ‘tiro no pé’ porque desencadearia cenário que tampouco agradaria às agências de risco: levaria o país a uma profunda recessão, reduziria ainda mais a arrecadação de impostos e acabaria de derrubar o ânimo dos investidores.
Em fevereiro, decepcionado com as medidas que vieram com a nova equipe econômica, o economista veio a público em uma “revolta heterodoxa” para criticar a reviravolta de Dilma rumo à ortodoxia, comandada pelo ministro Joaquim Levy. À época, Bastos defendia que o governo comunicasse, com transparência, o abandono da meta de superávit primário de 1,2%, que teria sido baseada em projeções exageradamente otimistas de crescimento e arrecadação.
Em julho, a equipe econômica anunciou a redução da meta fiscal para esforço de 0,15%, seguida de corte adicional de R$ 8,6 bilhões no Orçamento. Para Bastos, a mudança na meta reflete a reação do governo à “resistência política” com que o ajuste foi recebido, mas ainda não é suficiente. “Os cortes que eles fizeram e continuam fazendo já são maiores do que era previsto e não houve reversão. Ajuste fiscal em meio à desaceleração é contraproducente”. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Em fevereiro, o sr. declarou decepção com a “virada neoliberal” de Dilma. O que sente agora?
Pedro Paulo Zahluth Bastos: A decepção continua. Ocorreu, pelo menos, uma resistência muito forte, seja pela base política do governo, seja pela base social. Isso envolve não apenas esses baixos índices de popularidade de uma presidente que se elegeu há pouco mais de seis meses, mas também a reação organizada de quase metade do partido principal da base do PT, de movimentos sociais e sindicatos. Isso era previsível, porque as expectativas que orientaram o ajuste eram, claramente, exageradamente otimistas.
Valor: Mas a justificativa do governo para a mudança da meta é que o cenário mudou. O ministro Joaquim Levy afirmou que o ajuste ainda não foi contracionista.
Bastos: Não é verdade que o ajuste não foi contracionista, o impacto é imediato. Imagina você tirar 1% do PIB esperado, que foi o que eles fizeram até maio, concentrado em quatro meses. Não tem nenhum economista que tenha a cara dura de dizer que isso não tem impacto contracionista. E a partir desse 1% cortado, o que o consumidor, investidor pretendiam gastar é reduzido. Então tem um efeito multiplicador e é por isso que a economia vai contrair mais de 2%. O Levy havia dito que o anúncio do ajuste ia produzir o contrário. Ia produzir uma melhoria da confiança, e teríamos no máximo um trimestre de recessão, por conta desse efeito favorável sobre o gasto privado e a confiança privada que o ajuste produziria. E o que a gente vê é exatamente o contrário.
Valor: Continuar a cortar gastos em julho foi um erro?
Bastos: Continuam incorrendo no mesmo erro. Graças à recessão, haverá um corte de arrecadação duas vezes maior do que o que eles haviam esperado economizar. Isso se chama economia burra. O que está entendendo agora, me parece, é que a economia era muito mais frágil do que meramente um reflexo da falta de credibilidade da gestão fiscal. Isso que vínhamos falando desde o ano passado. A economia vinha em uma desaceleração cíclica nítida.
Valor: Mantida a política atual, o que o sr. prevê para este ano?
Bastos: Para o ano que vem, vamos supor que eles resolvam de fato buscar a meta de 0,7% e cortar R$ 45 bilhões. Vai acontecer no começo do ano a mesma coisa [que houve neste]. Levy vai fazer o controle na boca do caixa e, imediatamente nos primeiros quatro meses, a sociedade vai ter retirado de sua renda 0,7% do PIB, mas a partir de um cenário de baixo crescimento ou de desaceleração. E os efeitos sobre o desemprego ainda não se manifestaram inteiramente. A única maneira da economia sair desse problema em que a própria meta fiscal irrealista a colocou, é uma política fiscal anticíclica, infelizmente. Caso contrário vamos ter que esperar milagres.
Valor: Mas o sr. se tornou um crítico das políticas anticíclicas do governo Dilma, não?
Bastos: Dilma tentou fazer uma política anticíclica muito mixuruca, com base em subsídios. E procurando chegar à meta definida a partir de mecanismos de contabilidade. É preciso lembrar que o primeiro ano de Dilma reforçou o ajuste contracionista iniciado por Lula depois das eleições de 2010. O Banco Central não apenas elevou juros, mas executou programas fortíssimos de regulação macroprudencial que tiveram forte impacto para a desaceleração do crédito; o governo fez ajuste fiscal de pouco mais de 1% do PIB em 2011. Depois que a economia desacelerou fortemente e a economia mundial deu mostras de entrar em um novo cenário crítico é que o BC reduziu juros, mas o Tesouro continuou segurando gastos até 2012. Política anticíclica boa seria parecida com a de 2009: imagina se o governo perseguisse superávit primário elevado ou meramente aumentasse subsídios em 2009! A política anticíclica ali contou com forte aceleração do gasto público e particularmente do investimento, o que incentiva diretamente a demanda efetiva.
Valor: Com a mudança na meta fiscal, vê uma “virada heterodoxa” na equipe econômica?
Bastos: Não. O que houve foi uma resistência política de um lado e de outro a realização de que as previsões que o Levy tinha feito em novembro e em fevereiro estavam erradas.
Valor: Mas o ministro Nelson Barbosa endossava também essas previsões…
Bastos: Endossava, mas o Nelson Barbosa reage mais às resistências [políticas]. Já cortaram R$ 70 bilhões, quanto mais vão ter que cortar para fazer o ajuste? Mais R$ 100 bilhões? É impossível. Por isso que eles decidiram cortar só mais R$ 8 bilhões. Mas não mudou o sentido do ajuste. Não foi um: “olha, nós erramos, a economia era muito mais frágil do que a economia ortodoxa vem dizendo há muito tempo”. A equipe atual ainda não reconheceu que a economia está em uma recessão da qual será muito difícil sair sem uma política anticíclica; estão novamente otimistas nas projeções de crescimento para o ano que vem e para 2017, e consideram que a economia tem uma força própria capaz de retirá-la desse ciclo vicioso.
Valor: Com a redução da meta, o ajuste fiscal programado para este ano foi “parcelado” até 2018. Isso é melhor ou pior?
Bastos: Na verdade eles não têm como fazer o ajuste que eles haviam imaginado. Os cortes que eles fizeram e continuam fazendo já são maiores do que era previsto e não houve reversão. Ajuste fiscal em meio à desaceleração é contraproducente. O que eles fizeram foi um desajuste fiscal. A não ser que o Levy me indique o seguinte: que a economia vai crescer 2% em 2016 ou 2017 por conta do milagre exportador. Então o que eu quero é que ele me aponte de onde vai vir esse crescimento da economia. Com os juros prejudicando o consumo; o investimento lá embaixo; as concessões prejudicadas pelas empreiteiras envolvidas na Lava Jato; as exportações dependentes da economia mundial. Como vamos crescer?
Valor: O que o sr. está sugerindo é que eles abram todas as projeções?
Bastos: Sim. Não quer credibilidade? Então fala. Estamos vendo que as exportações vão crescer X, o consumo vai aumentar X. Diz para nós avaliarmos se é uma projeção realista ou não.
Valor: E o que o governo deveria fazer agora?
Bastos: Deveria, em certas circunstâncias, admitir déficit primário. Isso sempre ocorreu em todas as economias, nas que se recuperaram da crise. Nos Estados Unidos se fez isso; a Europa, que não fez, ainda hoje não se recuperou. Se a dívida pública for aumentar, é melhor que aumente por um programa de gastos que tire a economia da recessão, do que por um programa de corte de gastos que produza uma recessão.
Valor: Mas o rebaixamento do país não vai aumentar o custo do capital para as empresas?
Bastos: O rebaixamento implicará alguma elevação do custo de financiamento, mas não deve ser grande. Afinal, o risco de crédito para captações brasileiras já está alto antes do rebaixamento, ou seja, o mercado é até mais rápido que as agências para precificar (e ao mesmo tempo mais irracional e instável). O ponto central é: vale a pena preservar o rating às custas de uma recessão de 2% do PIB? Claro que não. É outra conta irracional que os gestores da política econômica fizeram, ou então é uma conta que não fizeram. Em parte, primeiro, porque acham importante manter o rating, e em parte porque não consideravam que a economia estivesse já em uma desaceleração cíclica. Por que? Talvez porque o Levy acreditasse no discurso da fada da credibilidade, logo a desaceleração anterior teria resultado da ‘bruxa da descredibilidade’ do Guido [Mantega], o que é completamente equivocado. A política anticíclica não causou a desaceleração cíclica, apenas conseguiu moderá-la pouco.
Athos
6 de agosto de 2015 3:06 pmBom, ele concorda com o que é
Bom, ele concorda com o que é dito por aqui pelo Nassif há uma década.
Mas ressalto que ele classificou a política anticiclica de Dilma de “mixuruca”.
E este é o ponto principal desta entrevista.
Será que ninguém vai dar uma nota para a condução da política anti cíclica de Dilma?
Porque me parece que a avaliação ficou perdida em meio ao debate SE devemos fazer ou não.
Mas acho pertinente avaliar a forma como as coisas foram feitas e concordo com o economista. Para mim essa política foi uma piada de mal gosto.
O incentivo à linha branca até vai mas depois continuaram só com isso e os setores com lobbys mais fortes foram os contemplados, como os dominados por multinacionais. Justamente os setores que não precisam de incentivo($$$) foram incentivados.
Pelo visto pensaram só no emprego com a economia a pleno emprego, rsrsrs.
Quando faremos uma política anti cíclica baseada em gasto grana torrada e gasta na economia?
Porque não um grande projeto nacional, como levar gás para a população?
Ou ainda, levar banda larga barata a população, lembram?
Ou reformar todas as escolas públicas do Brasil, colocando teatros e instalações esportivas.
Ou use a sua imaginação, gasto!!!!
Porque ficar aumentando a dívida em troca de juros pagos, é demais para a junho inteligência.
oneide2
6 de agosto de 2015 4:23 pmQue pena que não da prar
Que pena que não da prar comentar levei strike do Nassif.
Tulio
6 de agosto de 2015 5:23 pmConcordo com a análise. O
Concordo com a análise. O pior da taxa de juros absurda e do ajuste fiscal não é nem o caso de fechar as contas no vermelho pois se gasta mais com juros do que se economiza com os cortes. A situação mais hedionda é com a expectativa do empresário, quem vai produzir em um canário em que todos sabem que a demanda agregada vai recuar? Mesmo que se tivesse um controle de preços efetivo (o que não ocorre pois a inflação é de custos e não de demanda) o empresário não produziria mais, inflação baixa só acalma mesmo o mercado financeiro que tem a garantia de ganhar comprando títulos pré e pós fixados. Quem produz vai fazer o quê em um país que a qualquer soluço de inflação sazonal os juros já vão pra extratosfera? Rendimento baixo com risco alto e longo prazo de retorno? Melhor aplicar no mercado financeiro e não investir no mercado real.
Durvalino Ferreira
6 de agosto de 2015 5:48 pmnada (de)novo
.. continuamos sem a indicaçao de um norte magnetico para seguir apos a travessia da ponte em ruinas q prosseguimos.
temos 350 bilhoes de dolares em titulos do governo americano q rendem menos q a selic.
temos 350 bilhoes de reais em deposito compulsorio paralisados.
temos uma fraqueza tradicional de falta de ousadia em exterminar os reajustes automaticos em preços e salarios – a famosa desindexaçao da economia.
portato, o q ha apos o arco-iris ?!?
Ferruccio Gobbo
6 de agosto de 2015 6:28 pmCausas da crise
No início de 2015 havia o consenso, entre a maioria dos economistas, de que a desaceleração da economia era devida à falta de confiança dos empresários na condução da política fiscal do governo. Segundo esses economistas, incluindo o Delfim Netto, era suficiente, para a retomada da confiança e do investimento, o governo se comprometer com um superávit primário de 1,2% do PIB para 2015 e 2% para 2016.
A Dilma, reeleita, comprou a tese do ajuste fiscal, contrariando tudo que tinha prometido na campanha da reeleição, e aceitando o inevitável desgaste político com suas bases.
A ideia inicial era de que, com o inequívoco compromisso da Dilma com o ajuste fiscal, e o decidido combate da inflação pelo Banco Central, a confiança dos investidos no governo seria recuperada, e com ela os investimentos. Esperava-se uma melhoria da atividade econômica já em fins de 2015.
Após sete meses de ajuste, a visão agora é totalmente diferente. A previsão é de recessão em 2015, 2016 e, possivelmente, em 2017. A relação dívida pública/PIB, que era 58,9 em fins de 2014, pulará par 70% em 2017.
O que deu errado nas previsões feitas somente há sete meses atrás?
O que deu errado foi não reconhecer as causas mais profundas da crise, que já vinha se delineando há vários anos, e atribuir a crise exclusivamente aos suposto erros do governo Dilma. E assumir que, num quadro de deterioração da economia, a solução é reduzir gastos do governo e aumentar juros.
Como seria possível acreditar que, após anos e anos de valorização cambial e consequente desindustrialização, não iriamos chegar a uma crise?
Em recente artigo no Valor, Delfim Netto reconheceu que a atual crise é uma crise anunciada, ao afirmar que “ A bomba fiscal é antiga, apenas amadureceu”. Segundo o Delfim, o problema é fiscal. Entre outros dados, cita o aumento da carga fiscal, entre 1994 e 2014, e o aumento da relação dívida bruta/PIB, que aumentou de 40% do PIB em 1994 para 58,9% em 2014.
O Delfim, como vários outros economistas, atribue o bomba fiscal ao excesso de gastos primários do governo, principalmente gastos sociais, em parte devido às vinculações da Constituição de 1988. Está se formando um consenso, entre os economistas ortodoxos, e os economistas do setor financeiro, que não será possível equilibrar as contas públicas sem redução dos benefícios sociais, entre eles, educação e saúde.
O interessante é que, quando esse pessoal fala em gastos do governo, se esquece de mencionar a parte que cabe, no aumento da relação dívida pública/PIB, aos juros pagos pelo governo.
nilo
8 de agosto de 2015 4:09 pmExcelente artigo.
É
Excelente artigo.
É inconcebível a “virada neo-liberal” do governo Dilma.
É mais do que a hora de Dilma desistir dessa aventura (financeira) neo-liberal.
Sua persistência, fará destruir todo um sonho de esperanças, parcialmente realizado nos 12 últimos anos.
Marcos César Danhoni Neves
9 de agosto de 2015 1:06 amMoro…
Sobre MORO e sua troupe de “justiceiros”, leiam http://www.facecrueldajusticabrasileira.blogspot.com.br