Periferia de São Paulo – o preconceito da política militar e da sociedade

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“O enfrentamento se acirrou”, diz ela. “Antes, a polícia chegava e batia. Brigávamos, mas sem conhecimento. Agora, com a ascensão das pessoas da periferia, com o ProUni [programa de bolsa para estudantes em faculdades], temos conhecimento de causa. E a verdade é que a injustiça, a discriminação, tudo isso continua.”
 
MÔNICA BERGAMO
 
monica.bergamo@grupofolha.com.br
Mano a mano
Sob a vigilância incansável da mãe, os filhos de Mano Brown estrelam filme sobre a dura vida nas quebradas da periferia de São Paulo
 
Jorge Dias tem 18 anos e vive no Campo Limpo, na zona sul de SP, uma das regiões mais violentas da cidade. Ainda adolescente, recebeu a orientação da mãe: “Se você for parado pelos bandidos, fale o nome do seu pai. Se for parado pela polícia, fale o nome e a profissão da sua mãe”.
 
O pai dele é Mano Brown, o maior ícone do rap brasileiro e líder do grupo Racionais MC’s, com 1,5 milhão de discos vendidos e outros 4 milhões de cópias piratas. A mãe dele é Eliane Dias, mulher e empresária do rapper, advogada e assessora parlamentar. Ela imagina que, se ouvir o nome de Brown, o bandido pode desistir de assaltar o garoto, tal a popularidade do pai dele. Já a polícia, se souber que a mãe é advogada, pode, quem sabe, tratá-lo sem a rispidez com que em geral aborda jovens negros na periferia.
 
Só para registrar: Jorge diz que já foi abordado “umas 20 vezes” por PMs. “Por bandidos, até agora, nunca”, apesar dos temores da mãe.
 
A mulher de Brown foi parada recentemente pela polícia, quando dava carona a quatro amigos. Mostrou a carteira da OAB para o PM. Que reagiu, contrariado: “Odeio esse tipo de coisa”.
 
“O enfrentamento se acirrou”, diz ela. “Antes, a polícia chegava e batia. Brigávamos, mas sem conhecimento. Agora, com a ascensão das pessoas da periferia, com o ProUni [programa de bolsa para estudantes em faculdades], temos conhecimento de causa. E a verdade é que a injustiça, a discriminação, tudo isso continua.”
 
Jorge e sua irmã, Domênica, 15, vão mostrar na tela um pouco do que eles e os amigos veem e vivem na periferia. Os dois estão no elenco do filme “Na Quebrada”, do diretor Fernando Grostein Andrade, que estreia no dia 16. Jorge interpreta o filho de um presidiário que herda dívidas com traficantes quando o pai morre. E acaba no crime. Ela é uma jovem criada pelos pais cegos.
 
O filme é inspirado na rotina de cinco estudantes que frequentaram os cursos de cinema do Instituto Criar, ONG fundada por Luciano Huck, irmão do diretor. “São cinco das milhares de histórias da periferia”, diz Jorge. “Aqui você vê a menina abandonada, a que não tem mãe, o garoto que o pai tá preso.”
 
Com todos os percalços, o cotidiano da geração dos filhos de Brown melhorou em relação ao que os pais viviam quando crianças. O rapper e Eliane, por exemplo, não conheceram seus próprios pais. Foram criados só pelas mães.
 
Eliane começou a trabalhar aos 14 anos, como empregada. A mãe dela, Maria Aparecida, vibrou. “Ela sempre foi doméstica, adorava.” Eliane se lembra até hoje da primeira patroa, Maria Alice, que “namorava o Toquinho [cantor]. Andava nua e recebia os amigos assim. Aprendi que mulher tem independência”. No emprego só tinha arroz e Coca-Cola, “que eu nunca tinha tomado”.
 
Conheceu Brown há 25 anos. Era “toda linda, no salto, e ele magrinho”. Ela não dava pelota para o office-boy. Até que um dia “o Pedro Paulo [Soares Pereira, nome de batismo do cantor] me pegou no colo, jogou nas costas, saiu andando e disse: Só te largo se você falar comigo'”. “Dezoito anos depois”, diz ela, apontando para os dois filhos, “estão eles aí”.
 
Quando ficou grávida de Jorge, Eliane parou de trabalhar para se dedicar ao bebê (só voltaria a estudar seis anos depois). Os Racionais já tinham explodido. O rapper era um pai ausente. “O Pedro Paulo é um cara do mundo”, diz a mulher. “E ele não queria ter responsabilidade de pegar na escola, fazer a lição de casa.” Mano Brown dizia: “Eu não tive pai. Eu não sei ser pai”. Eliane não se importava –e pelo mesmo motivo do marido: “Eu também não tive pai. Eu sempre fui o homem da minha casa”. Ela era a primogênita de quatro filhos, de outros relacionamentos de sua mãe.
 
Jorge foi criado de forma regrada. Só comeu açúcar aos dois anos. Começou a fazer esporte cedo. Primeiro, capoeira. Depois, musculação e muay thai. Com 12 anos, falou sobre maconha pela primeira vez. “Enfiei ele no carro e levei para a cracolândia, no centro”, diz Eliane. Jorge diz que foi um trauma. “Eu vi que o negócio era feio.” Ele diz que hoje, “no máximo”, bebe “uma cerveja”. A mãe desaprova: “O pai é liberal. Eu, não. E o filho é meu”.
 
Jorge só teve autorização de Eliane para ir a um jogo de futebol com o pai quando tinha sete anos. E Mano Brown ainda deu azar: a câmera de TV flagrou o menino sozinho na arquibancada. “Eu estava em casa. Vi aquilo e não acreditei. Liguei pro Mano: Ô seu f.d.p, onde cê tá? Como deixa o meu filho sozinho?’. E ele: Tô perto, tá suave’.”
 
Eliane diz que é “uma mãe mais do que presente e que jamais fraquejaria em qualquer situação”. Sempre teve a certeza de que “tinha que direcionar” a vida dos filhos. “Eu cheguei a pensar em sair daqui. A pressão na cabeça do Jorge era muito grande: Pô, você não fuma, não bebe, não pega em arma, então é viado'”, relembra Eliane. “Na periferia, ou você pega firme na mão ou o teu filho acaba ao deus-dará.”
 
No filme “Na Quebrada”, os pais dos personagens têm papel decisivo na história dos filhos. Um deles é o homem tradicional, bem casado e atento às crianças. Outro é bêbado. Um terceiro é presidiário. E há ainda o pai solteiro, que dá pouco carinho mas não larga do pé do filho.
 
Nelson, o filho de presidiário que frequentava o Instituto Criar e inspirou o personagem de Jorge no longa, teve o mesmo destino do pai. “A saída dele, para não entrar no crime, seria bater de frente [com os traficantes]. Mas não basta querer. Precisa ter muito apoio”, diz o ator. “O Nelson cumpriu a pena e ficou três anos a mais na prisão, esquecido lá. Quando castigado, passava o mês numa cela, nu, tomando vento e banho gelado.”
 
Quando Domênica nasceu, há 15 anos, os Brown se mudaram para um apartamento de 72 m², num condomínio com dez blocos na estrada de Itapecerica. Cada prédio tem quatro apartamentos por andar, estimados, cada um, em R$ 400 mil. A família vive lá até hoje. Ana, 83, mãe do cantor, é vizinha de porta do filho, de quem ganhou o apartamento. Ela se recupera de um AVC.
 
O imóvel do líder dos Racionais é decorado com um sofá de veludo cinza de três lugares e mesa com quatro cadeiras. Duas caixas de papelão encostadas num canto ajudam a tornar o espaço ainda mais apertado. A cozinha, conjugada com a sala, tem um armário de duas portas.
 
Na semana passada, Domênica saiu de casa às 7h para tomar o ônibus, no ponto da avenida bem em frente à sua casa, até Santo Amaro, onde estuda em uma unidade do colégio Objetivo.
 
Ela quer fazer moda no Senac e depois tentar bolsa numa universidade italiana. “Vai me dar muito prestígio estudar em Milão, na cidade da moda.” Fala inglês, que aprendeu na Cultura Inglesa. Faz teatro. Para integrar o elenco de “Na Quebrada”, passou por testes. Está empolgada com a nova possibilidade: ser atriz profissional.
 
Jorge é produtor dos Racionais e viaja com o pai. Largou a faculdade de nutrição e pensa em estudar administração. Está lançando uma grife de roupas, a Müe, gíria que, na zona sul de SP, significa “causar”, “zoar”.

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