“Pré-diabetes”, um diagnóstico a favor da indústria farmacêutica

Pessoas diagnosticadas com pré-diabetes são também alvo de empresas de venda de monitores contínuos de glicose que se ligam ao corpo e transmitem dados para smartphones

Edição de março da revista americana Science publicou importante artigo no qual é questionado o diagnóstico de pré-diabetes, uma construção que leva milhões de pessoas a usarem medicamentos. A medida, no entanto, não beneficia os usuários, e beneficia a indústria farmacêutica. O diabetes é a doença crônica mais comum no mundo, depois da obesidade, atingindo mais de 1 bilhão de pessoas.

O artigo, que tem como título Diagnóstico dúbio, assinado pelo jornalista Charles Piller, abre relatando a ação de Relações Públicas da Associação Americana de Diabetes (ADA, na sigla em inglês), utilizada para persuadir médicos e público a “levar a sério uma pequena elevação na glicose no sangue”, chegando a um termo pouco utilizado que parecia certo para “assustar”: pré-diabetes. Em período de tempo relativamente curto, destaca o texto, os termos a glicose em jejum prejudicada e a tolerância à glicose prejudicada foram eliminados da literatura sobre a doença e substituídos por pré-diabetes.

“Logo, o termo foi amplamente considerado como a bíblia do diabetes”, relata Piller, acrescentando que a associação, bem como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla americana) “declararam guerra ao pré-diabetes”, classificado como o primeiro passo no caminho para o diabetes, que pode levar a amputações, cegueira e ataques cardíacos.

Gastar vastas somas de dinheiro público em programas de prevenção [ao pré-diabetes] tem quase o mesmo efeito de queimá-lo em um incêndio

No entanto, como destaca o jornalista, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça, e autoridades médicas rejeitaram o pré-diabetes como categoria diagnóstica, por não estarem convencidos de que essa condição conduz ao diabetes ou que os tratamentos disponíveis fazem bem ao organismo. O texto traz a fala do pesquisador de diabetes e professor emérito de medicina na University College London, John Yudkin, para quem os avisos ameaçadores sobre pré-diabetes da ADA são “alarmismo”.

A ADA, apresentada no artigo como organização sem fins lucrativos que financia pesquisas, publica padrões de tratamento e conscientiza o público, ampliara gradualmente sua definição de pré-diabetes para abranger mais pessoas. O diretor científico e médico da associação, William Cefalu, divulgou o alerta de que uma em cada três pessoas “pode ter algum aspecto de anormalidade da glicose, particularmente em grupos étnicos selecionados”. O CDC seguiu o exemplo, tendo à frente da divisão de Prevenção, a pesquisadora Ann Albright, que disse repetidamente que 15% a 30% dos pacientes pré-diabetes não tratados evoluem para diabetes em cinco anos. O índice foi logo acatado e divulgado por hospitais, organizações profissionais e departamentos de saúde locais e estaduais. O CDC acabou recuando dessa afirmação, tendo em vista que dados produzidos pelo próprio centro mostram que a progressão de pré-diabetes para diabetes se dá a menos de 2% ao ano, ou menos que 10% em cinco anos – sendo que outros estudos apontaram taxas ainda mais baixas.

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“Gastar vastas somas de dinheiro público em programas de prevenção [ao pré-diabetes] tem quase o mesmo efeito de queimá-lo em um incêndio … no geral, é um terrível desperdício de dinheiro”, afirma Richard Kahn, o relações públicas da ADA, que agora diz lamentar o dia em que ajudou a promover o termo pré-diabetes, “um grande erro”.

Para baixar o nível de açúcar no sangue, relata, ainda Piller, a ADA mantém-se defendendo medidas cada vez mais agressivas, como remédios de uso controlado. O texto relata, ainda, descoberta da Science de que a associação e seus especialistas, promotores desse tratamento agressivo, aceitam grandes somas de recursos de fabricantes de medicamentos para diabetes. Até agora, nenhuma droga foi aprovada especificamente para pré-diabetes, mas as farmacêuticas seguem testando dezenas deles, na esperança de explorar um potencial mercado mundial de centenas de milhões de pessoas.

A definição de pré-diabetes nasceu em 2009, com a convocação de um comitê de especialistas para revisar pesquisas sobre testes de açúcar no sangue

A definição de pré-diabetes da ADA nasceu em 2009, depois que o grupo, juntamente com a Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD) e a Federação Internacional de Diabetes (IDF), convocou comitê de especialistas para revisar pesquisas sobre testes de açúcar no sangue. O comitê de especialistas recomendou que pessoas com determinado tipo de leitura dessas taxas fossem consideradas como alvo de intervenções preventivas. O termo pré-diabetes, no entanto, foi rejeitado por unanimidade por esse mesmo grupo. Ainda assim, a ADA manteve o termo e manejou os percentuais [ver os detalhes aqui], criando cerca de 72 milhões de novos pacientes pré-diabetes só nos Estados Unidos – podendo haver outras centenas de milhões se o procedimento for adotado em todo o mundo.

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A definição ampliada de pré-diabetes desencadeou mudanças de longo alcance no panorama médico. O orçamento do CDC para prevenção da doença saltou de 66 milhões de dólares, em 2010, para 173 milhões, em 2017 – um aumento de 123%. Ao mesmo tempo, o orçamento de prevenção de câncer da agência despencou.

Pessoas diagnosticadas com pré-diabetes visitam médicos com mais frequência para testes de açúcar no sangue e conselhos sobre dieta e exercícios. Com isso, uma grande oportunidade de marketing se abriu. As empresas pressionaram a agência americana que regula medicamentos e alimentos (FDA) por um selo de aprovação em alimentos ou suplementos – como café, produtos lácteos e substitutos do açúcar – que, segundo eles, pode ajudar a prevenir o diabetes. Uma indústria caseira de treinadores especializados em condicionamento físico surgiu para atender uma multidão de pacientes preocupados.

Pessoas diagnosticadas com pré-diabetes são também alvo de empresas de venda de monitores contínuos de glicose que se ligam ao corpo e transmitem dados para smartphones. Analistas de mercado dizem que os fabricantes desses dispositivos – que podem custar milhares de dólares anualmente – adicionariam 25 milhões de clientes nos próximos 12 anos só nos Estados Unidos.

Em relação a testes de glicose caseiros mais simples, um médico e consultor de nutrição chegou a recomendá-lo, na revista Psicology Today, após cada refeição como a principal necessidade médica para todas as pessoas – independentemente de sua saúde ou nível de açúcar no sangue.

Se, de maneira geral, os cientistas endossam dietas saudáveis ​​e exercícios regulares e apontam que níveis de glicose substancialmente elevados podem levar ao diabetes, divergem sobre a frequência e a rapidez com que essa condição de pré-diabetes progride para a doença. Os periódicos da ADA são os mais influentes do campo. A associação e o CDC financiam grande parte da pesquisa e dos programas dos Estados Unidos sobre prevenção da doença.

O American College of Physicians situa os conflitos de interesses da Associação Americana de Diabetes com empresas farmacêuticas entre os mais extremos

Especialistas em ética criticaram durante anos a ADA por dependência financeira dos fabricantes de remédios contra o diabetes. A associação informa recebimento de 18 milhões a 27 milhões de dólares por ano de empresas farmacêuticas, incluindo doações de 500 mil a um 1 milhão de dólares por ano. O American College of Physicians situa os conflitos de interesses da ADA com empresas farmacêuticas entre os mais extremos. Médicos que agora recomendam remédios para pré-diabetes também receberam grandes somas nos últimos anos de empresas cujas vendas poderiam ser afetadas por tais endossos. Piller aponta que a Science documentou parte dessa compensação, examinando dados de meados de 2013 a 2017 no Open Payments, banco de dados federal que rastreia o dinheiro que os fabricantes de equipamentos ou drogas dão aos profissionais clínicos para consultoria, taxas de ensino, viagens e outros propósitos.

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Do outro lado estão as autoridades de saúde pública e de atenção primária, incluindo a OMS, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido, a EASD e a IDF. Esses grupos não usam ou não enfatizam o termo pré-diabetes, e normalmente aconselham tratamento apenas quando os níveis de açúcar no sangue se aproximam dos do “diabetes franco”.

Estudos realizados pela Cochrane Library, em Londres, mostraram que a maioria das pessoas que se qualificam como pré-diabéticas nunca evoluem para diabetes em qualquer período estudado. As que progridem, geralmente, começam no limite superior do intervalo de teste de pré-diabetes da ADA. A revisão também observou que estudos de pessoas rotuladas como pré-diabéticas, muitas vezes, não levam em conta o peso, a idade e a atividade física, que podem afetar a glicose, assim como o estresse diário, inflamação e outros fatores. De acordo com a revisão, até 59% dos pacientes pré-diabetes retornaram aos valores glicêmicos normais ao longo de 1 a 11 anos sem tratamento algum.

“Parece não intuitivo tomar um remédio para prevenir algo para o qual você tomaria esse remédio”, analisa Gojka Roglic, médica responsável pelo programa de diabetes da OMS. “O raciocínio é um pouco distorcido”.

Leia o artigo da Science na íntegra (em inglês)