Raul Prebish e a re-construção da América Latina
R.Moraes
Resenha de: Edgar J. Dosman: Raúl Prebisch (1901-1986) A construção da América Latina e do Terceiro Mundo, editora Contraponto/Cemtro Celso Furtado, Rio de Janeiro, 2011
Vida e tempo de Raúl Prebisch – o livro de Dosman resume os dois eixos deste notável trabalho de pesquisa. De um lado, a biografia de Prebisch – suas aventuras e desventuras. De outro, as grandes transformações do século XX: a agitada história da América Latina, de sua inserção subordinada na economia mundial e nos cálculos das grandes potências, sobretudo dos Estados Unidos. Juntados os planos, temos um documentário fascinante, revelador, instigante.
Prebisch aparece como o criador de uma escola de pensamento – enquadrava os países latino-americanos e do Terceiro Mundo, em geral, como a periferia do sistema capitalista, o polo inseparável do centro. Não temos aí apenas uma separação geográfica – Sul versus Norte, por exemplo. Nem apenas uma “especialização” de funções – países industrializados versus países agrários. Além dessas reais e visíveis separações, Prebisch mostra como são diferentes as lógicas de funcionamento dos dois tipos de sociedade – e aponta a exigência de modelos intelectuais que sejam apropriados para a compreensão da periferia, coisa que a economia liberal de inspiração neoclássica era incapaz de prover. Talvez por isso alguns tenham apelidado don Raúl de “Keynes latino-americano”. Certa vez Prebisch confessou ter sido quase seduzido pela sereia liberal e seus sonhos de mercado autorregulado. Acrescentava, porém: veio a experiência da depressão, a ‘descoberta’ da América Latina e foram abaixo tais crenças confortáveis.
Mas Prebisch foi também o criador de instituições – a Cepal, a Unctad. Curiosamente, no final de 1947, a administração do FMI lhe oferecera – e Prebisch aceitara – um lugar naquela entidade, o coração do ‘centro’. O casamento não se concretizou – Prebisch parecia incômodo para os verdadeiros donos do FMI. O convite não se completou, Tio Sam velava por suas sobrinhas. As opções se estreitavam – também as universidades norte-americanas se fechavam para ele. Enquanto isso, a ONU criava uma comissão econômica para planejar o desenvolvimento em longo prazo da Europa, organizada sob a direção de Gunnar Myrdal e Nicholas Kaldor. Logo em seguida, a ONU foi sendo empurrada pelos países latino-americanos (Chile e México, sobretudo) a criar a Comissão Econômica Para a América Latina. O governo norte-americano se opunha – pensava em fortalecer sua união pan-americana e dar corpo à OEA, que alguns ironicamente apelidavam de “ministério de las colônias”. A Cepal é criada, inicialmente como organização provisória, com bilhete a vencer em três anos. Sobrevive a este estágio probatório em grande parte devido a Prebisch e sua teimosia. Seu estudo de lançamento – O desenvolvimento econômico da América Latina e seus principais problemas – acabou por ser apelidado de Manifesto da Cepal. Retrato das pressões e contrapressões internas, a publicação foi patrocinada pela ONU, mas não assinada por ela. A apresentação escrita pelo secretário-geral afirmava que ali estavam opiniões do autor, não da organização…
De qualquer modo, o comandante levou o barco entre as tempestades, recrutando uma equipe de jovens e talentosos economistas. Alguns desses nomes foram desenhando a cara da Cepal: Aníbal Pinto, Osvaldo Sunkel, Medina Echavarría, Maria Conceição Tavares. Entre eles, o brasileiro Celso Furtado em pouco tempo destacou-se como a estrela maior da constelação – o que talvez lhe tenha custado algumas rusgas com o chefe e, enfim, seu desligamento da Cepal. Furtado personificava o analista, o pensador, a caixa de elaborações. Prebisch assumia muito mais claramente o papel de articulador e inventor de lemas, instituições, movimentos, algo que mais uma vez se comprovou quando se pôs a organizar a Unctad – uma tribuna não apenas dos países latino-americanos, mas do conjunto dos países ditos subdesenvolvidos.
Argentino, nascido em Tucumán e apaixonado por Buenos Aires, não foi na sua terra que Prebisch se afirmou. Profeta que não vinga em sua pátria, foi sepultado no Chile. Recentemente, Alice Amsden, estudiosa dos processos de desenvolvimento no extremo-oriente, escreveu um instigante artigo dando conta das migrações intelectuais de don Raúl: Prebisch renasce na Ásia. O profeta segue sua marcha.
Conduzidos pela prosa elegante de Dosman, o leitor circula por esses labirintos do drama latino-americano e tem a chance de ver um passado que marca o presente e inspira escolhas futuras.
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