Reinaldo Azevedo e o caminho de Damasco, por Luis Nassif

Para uma boa análise do caráter público brasileiro, é significativo comparar o Reinaldo pós-Conversão de Damasco - o episódio de conversão de Paulo ao cristianismo - e o Reinaldo da campanha do impeachment.

Na UOL de hoje, Reinaldo Azevedo publica um artigo demolidor de críticas à Lava Jato. Crítica o atropelo do devido processo legal, critica a mídia, que endossou todas as arbitrariedades, critica o oportunismo dos procuradores e do juiz Sérgio Moro e denuncia as manipulações dos inquéritos.

Para uma boa análise do caráter público brasileiro, é significativo comparar o Reinaldo no Caminho de Damasco – o episódio de conversão de Paulo ao cristianismo – e o Reinaldo da campanha do impeachment.

Na época, investir contra a Lava Jato era um ato de coragem. Defender a legalidade era um risco permanente. O próprio Reinaldo denunciou como traficante uma professora da USP, por ter orientado uma tese de doutorado sobre redução de danos no tratamento de viciados. E suas denúncias contra o Colégio Pedro II no Rio de Janeiro alimentam até hoje inquéritos buscando criminalizar os “subversivos”.

O Reinaldo pré-Damasco defendia Eduardo Cunha, dizia que o ódio a Cunha era o ódio à democracia. Criticava a Lava Jato pela demora em denunciar Lula. Ou seja, criticava a Lava Jato por ser tímida, não pelos excessos.

Aqui, um pequeno manual de como entender as ondas da opinião pública e a arte de surfar nas ondas. E a esperança de que, quando a onda virar novamente, e o estado de exceção voltar a ser bandeira da aliança mercado-mídia-Temer, Reinaldo permaneça impávido que nem Muhammad Ali em defesa da democracia.

04.02.2021

Sobre a Lava Jato

“ A Lava Jato de Curitiba acabou? Nem morrer sabe o que viver não soube. Na despedida, operação anuncia ter pedido R$ 15 bilhões em reparação aos cofres públicos. Entre pedir e conseguir, vai uma distância. E quanto custou a destruição da indústria de construção de base no país? E quanto custou em empregos? E quanto custou em agressão ao estado de direito e ao devido processo legal? E quanto custou e tem custado, inclusive em vidas, ao ter ajudado a levar Bolsonaro ao poder? Acabou, mas é “cadáver adiado que procria”. Vaza Jato trouxe as entranhas dessa gente à luz.

(…) Na sua despedida, os valentes anunciam ao mundo o seu “produtivismo punitivista”: 1.450 mandados de busca e apreensão; 211 mandados de condução coercitiva; 132 mandados de prisão preventiva; 163 mandados de prisão temporária… Os tontos e os vagabundos intelectuais tomarão isso como medida de eficiência. Dadas todas essas ações, quantas transgrediram o devido processo legal? Entre as conduções, por exemplo, deve estar a de Lula, não é? Há arreganho mais autoritário do que aquele?

Sobre a condenação de Lula

Vem muito mais da Operação Spoofing, tudo indica. Custou a condenação sem provas de um ex-presidente, tornado peça do jogo eleitoral. E conversas revelam isso. O Brasil se deu muito mal, mas procuradores e ex-juiz se deram muito bem.

Sobre o papel da imprensa

“E, sim, a imprensa como um todo tem de pensar o papel que desempenhou nesse desastre ao se comportar como porta-voz e torcida. Tornou o combate à corrupção valor absoluto, acima da democracia e do estado de direito. É bom lembrar que alguns dos maiores desastres da humanidade se deram em nome de Deus — que, suponho, pode estar num patamar ligeiramente mais elevado do que o do combate à corrupção”

Sobre a Lava Jato e a ameaça à democracia

O que nós vimos foi a ascensão de um projeto de poder, que assaltou a institucionalidade em nome do bem. Que esse desastre não se repita. E, sim, estou de olho para saber se Bolsonaro pretende ter a sua própria “Lava Jato”, com ou sem a condescendência da Procuradoria-Geral da República. Este jornalista repudia aqueles que, individualmente ou em grupo, tentam se colocar acima das instituições, pouco me importa a cor da bandeira que levantam: se verde-e-amarela ou vermelha.

Reinaldo na fase pré-impeachment

06.02.2015

“Chamar a roubalheira institucionalizada, liderada por um partido, de “cartel” ou é erro de tipo criminal ou é licença poética.

Ao arrolar como testemunhas de defesa os petistaços Jaques Wagner, José de Filippi Júnior e Paulo Bernardo, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC, deve estar querendo algo mais do que anunciar que esses três indivíduos podem abonar a sua conduta.

Barusco –que aceitou devolver US$ 97 milhões aos cofres públicos– afirma que Vaccari foi uma espécie de celebrante de um acordo entre a quadrilha que tomava conta da Petrobras e agentes de estaleiros nacionais e estrangeiros. Em pauta, 21 contratos, orçados em US$ 22 bilhões, para a construção de navios-sonda. Um por cento teria de ser convertido em propina: dois terços para o tesoureiro e um terço dividido entre Paulo Roberto Costa e agentes da Sete Brasil”.

06.03.2015

Já estava claro para mim que se desenharia, como se desenhou, a farsa da “investigação rigorosa, doa a quem doer”, que terminaria por preservar… os donos do galinheiro. Lula nem sequer foi ouvido pelos “Heróis de Curitiba”. Heróis? O único que reconheço é o Superpateta, amigo do Mickey.

Rodrigo Janot não vê motivos para investigar nem Dilma Rousseff nem Aécio Neves, como se ambos exercessem, prestem atenção!, o mesmo “não papel” nessa história. A questão é de tal sorte absurda que nem errada consegue ser. Não existem denunciados no elenco escalado por Janot, só alvos de inquérito. Os políticos no geral, e os petistas em particular, seriam apenas atores coadjuvantes desse filme ruim, que disputa o Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado”. A farsa original foi escrita no mensalão”.

29.05.2015

Gosto da pauta –com exceções– e do estilo do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. Há muito tempo não havia uma pessoa tão determinada e operosa sentada naquela cadeira, disposta a fazer uso das prerrogativas que lhe facultam a Constituição e as leis. E isso significa levar ao limite a independência do Poder Legislativo –ao menos no âmbito da Casa sob o seu comando.

Como sou um fanático da democracia representativa e um discípulo de Montesquieu, eu o aplaudo. E entendo que esquerdistas possam atacá-lo, não é? Sonham ver em seu lugar um militante socialista. Vamos fazer um acordo, camaradas? Primeiro vocês vençam a revolução e, depois, implementem o socialismo. Que tal? Enquanto não fizerem a primeira no berro, não tentem ter o segundo no… berro

Sim, eu sei que Cunha é um dos investigados da Operação Lava Jato. Caso venha a ser colhido por algo que eventualmente tenha feito (ou que não tenha) –e torço para que seja inocente –, será uma pena..”

24.07.2015

Às vezes, tenho a impressão de que o Brasil acabará abrigando os últimos esquerdistas do mundo em posições, como direi?, de cátedra. E é muito provável, vamos ver, que a verdade venha à luz como decorrência do esforço do bom jornalismo, não das delações premiadas, cuja narrativa vai sendo ajustada segundo a vontade dos narradores. (…)

O petrolão é a versão vitaminada do mensalão, cuja natureza se perdeu de forma miserável. Tratou-se ali de um assalto ao Estado de Direito e à institucionalidade, de uma afronta à independência entre os Poderes, de uma agressão aos mais comezinhos princípios republicanos. E não se organiza uma máquina como essa sem um comando claro e um centro de operações.

É a essa natureza do petrolão que a Operação Lava-Jato ainda não chegou. É essa essência que pode ficar escondida nas dobras da ideologia se o jornalismo não fizer direito o seu trabalho. Mas eu expresso a convicção de que fará e de que, desta vez, será possível chegar ao chefe e revelar o seu crime mais grave: o assalto à democracia”.

25.08.2015

“Ocorre que considero –coisa de que esta Folha absolutamente não está convencida, segundo li em editorial– que ela atropelou também a ordem legal e cometeu crimes de responsabilidade, no plural.

Se o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ainda não a denunciou, é porque faz uma leitura obtusa do parágrafo 4º do artigo 86 da Constituição. Se o que ele diz estivesse correto, o constituinte teria dado autorização a um presidente para delinquir no primeiro mandato, com vistas a obter um segundo, sem que tivesse de responder por isso”.

16.10.2015

“Ah, que graça! Luiz Inácio Lula da Silva está, consta, chateado com a prisão de seu amigão do peito José Carlos Bumlai, cujo papel nas tramoias do mensalão e do petrolão começa a ficar mais claro. Sim, está chateado, mas, como Lula é Lula, pensa, antes de mais nada, em manter a cabeça colada ao pescoço. Comentou com o seu entorno ser ele o verdadeiro alvo da Lava Jato. É mesmo?

Infelizmente, até agora, não é o que se percebe. Muito pelo contrário. Ele está é sendo poupado. Vamos relembrar? Lula é tão vaidoso que disputa protagonismo até com bandidos”.

25.11.2015

Ah, que graça! Luiz Inácio Lula da Silva está, consta, chateado com a prisão de seu amigão do peito José Carlos Bumlai, cujo papel nas tramoias do mensalão e do petrolão começa a ficar mais claro. Sim, está chateado, mas, como Lula é Lula, pensa, antes de mais nada, em manter a cabeça colada ao pescoço. Comentou com o seu entorno ser ele o verdadeiro alvo da Lava Jato. É mesmo?

Infelizmente, até agora, não é o que se percebe. Muito pelo contrário. Ele está é sendo poupado. Vamos relembrar? Lula é tão vaidoso que disputa protagonismo até com bandidos.

Eu ainda estou em busca de boa explicação. Ninguém tem nenhuma. Salim Schahin diz que perdoou uma dívida do PT porque seu grupo conseguiu, com a interferência de Lula, operar um dos navios-sonda da Petrobras. Qualquer pessoa ógica infere o óbvio: foi a estatal que pagou o empréstimo contraído pelo partido.

Muito bem! Até agora, não existe nem sequer um miserável inquérito para apurar a atuação do ex-presidente num caso em que o delator admite, sem receios, a falcatrua. Pagou por isso uma multa de R$ 1,5 milhão.

Lula, segundo seus “aliados”, informa a Folha, estaria reclamando da condução “espetaculosa” da investigação e diz saber “que querem atingi-lo politicamente”. Suas críticas são direcionadas também ao juiz Sergio Moro.

Até agora, ao menos, ele deveria ser grato à Polícia Federal, ao Ministério Público e a Moro. Dilma também.

(…) Outro escândalo? No fim das contas, é tudo a mesma coisa: trata-se de uma quadrilha, disfarçada de projeto de poder, organizada para assaltar o estado brasileiro.

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