MÁRCIA SOMAN MORAES
DE SÃO PAULO
O britânico Ronald Biggs, conhecido como o “ladrão do século” pelo audacioso assalto ao trem pagador que ia de Glasgow a Londres em 1963, morreu aos 84 anos, em um asilo para idosos em East Barnet, no norte de Londres.
Biggs já teve ao menos três derrames, ataque cardíaco, ataques epilépticos, úlcera no estômago, além de uma fratura no quadril que o deixou internado por dias no hospital universitário de Norfolk e Norwich.
O britânico era o líder de uma gangue de cerca de 15 homens que conseguiu, em 8 de agosto de 1963, parar um comboio ferroviário manipulando a sinalização. Depois de ferir gravemente um funcionário, eles fugiram com 120 sacos de notas usadas contendo no total 2,6 milhões de libras, uma quantia recorde para a época equivalente a cerca de R$ 124 milhões.
Os ladrões, inclusive Biggs, foram presos em janeiro de 1964. Processado e condenado a 30 anos de prisão, Biggs foi para a penitenciária de Wandsworth (Londres), de onde conseguiu fugir 15 meses depois.
Ele passou por cirurgias estéticas e viveu como foragido na Espanha, na Austrália e, principalmente, no Brasil.

Ronald Biggs gesticula para fotógrafos no funeral de Bruce Reynolds, em Londres, em março de 2013; Reynolds, o ‘mentor’ do assalto ao trem pagador, morreu aos 81 anos em fevereiro
EXTRADIÇÃO
Biggs chegou ao Brasil ná década de 1970 e viveu aqui por cerca de 30 anos, mais especificamente no Rio de Janeiro. Ele teve um filho com sua namorada Raimunda, Michael Biggs, que se tornou seu maior defensor.
Ao descobrir que o “ladrão do século” estava em solo brasileiro, o governo britânico iniciou uma batalha judicial para sua extradição. A questão, contudo, é que a legislação britânica não admite a formulação de pedido oficial de extradição a país com o qual não tenha tratado de extradição. O acordo entre o Brasil e o governo britânico só entrou em vigor em outubro de 1997 –25 anos depois do assalto ao trem pagador.
O caso foi então para julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) –que considerou o Estatuto do Estrangeiro que estabelece que, antes de julgar a extradição, os juízes devem levar em conta o prazo estabelecido pela legislação brasileira. No Brasil, o audacioso assalto havia prescrito há cinco anos.
Após meses de uma batalha judicial entre o governo britânico e a Justiça do Brasil, o STF arquivou oficialmente o pedido de extradição de Biggs em novembro de 1997. Os ministros alegaram que a prescrição do crime impede o recebimento do pedido formulado pelo governo britânico.
FALIDO
Nos últimos anos de sua estadia no Brasil, Biggs vivia em dificuldades financeiras. Ele transformou sua casa em Santa Teresa (zona central do Rio) em uma espécie de museu para turistas britânicos e vendia camisetas, bonés e outros produtos de sua “marca” em uma página na internet.
Em 2001, Biggs afirmou que desejava retornar ao Reino Unido. Seu advogado brasileiro na época, Wellington Mousinho, afirmou à Folha que Biggs só voltaria “com o perdão judicial”. Rumores indicavam, contudo, que ele receberia uma grande quantia do tabloide “The Sun” pela exclusividade de sua história.
Biggs já havia sofrido dois derrames e vizinhos cariocas diziam que ele andava com dificuldades e quase não podia falar. Só saía de casa para ir de táxi a sessões de fisioterapia, na Tijuca (zona norte). Mousinho ressaltou, contudo, que ele estava lúcido e que voltava ao Reino Unido porque estava com saudades.
CONDICIONAL
Preso, Biggs cumpriu mais de um terço da pena no centro de detenção Belmarsh, centro de detenção de segurança máxima.
Em agosto de 2009, Biggs, que estava doente, foi libertado.
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Saiba como foi feito o assalto ao trem pagador
DE SÃO PAULO
Pouco depois das 3h do dia 8 de agosto de 1963, um grupo de 15 assaltantes, entre eles o inglês Ronald Biggs, que ganharia fama no Brasil, realizou em minutos o mais audacioso assalto a um trem no Reino Unido.
O grupo levou 2.631.784 libras (equivalente a cerca de R$ 124 milhões) do trem do correio que viajava de Glasgow a Londres, no Reino Unido. A maior parte do bando, contudo, foi presa por causa do trabalho mal feito de cúmplices e digitais encontradas nas peças do jogo Banco Imobiliário. O dinheiro, contudo, nunca foi encontrado.
Saiba como aconteceu o grande assalto ao trem pagador
OS LADRÕES
O mentor do plano foi Bruce Reynolds, um conhecido ladrão de joias do Reino Unido. Ele reuniu o resto do grupo após sair da prisão, em 1962. O bando era composto por outros nomes conhecidos da polícia londrina: Douglas Goody, o número 2 do plano, Charles Wilson, Thomas Wisbey, Robert Welch e James Hussey. Roger Coldrey, William Boal, Jimmy White, Bob Welch, Brian Field, Leonard Field, Jimmy White, John Daly e Ronald Edwards tiveram um papel secundário na trama, como o próprio Biggs –segundo Reynold declarou anos mais tarde.
O grupo teve ajuda ainda de alguns cúmplices, conhecidos como Sr. Um, Sr. Dois e Sr. Três. Há ainda um homem identificado apenas como Peter, trazido para dirigir o trem e John Wheater, que garantiu a segurança do esconderijo.

O trem pagador inglês após ser assaltado por Ronald Biggs e mais 14 homens, em 8 de agosto de 1963
O PLANEJAMENTO
Com seus contatos, Reynolds obteve todos os detalhes do trem: a rota, os horários, quantidade de dinheiro que seria transportada e número de trabalhadores a bordo.
O mentor descobriu ainda que o volume de dinheiro seria maior se esperassem uma data logo após um feriado bancário: o próximo seria 5 de agosto. Reynolds colocou um cúmplice dentro do banco, conhecido pela mídia como “Ulsterman”, para descobrir em que dia o trem com o dinheiro –a maioria notas miúdas e usadas, para as agências bancárias utilizarem nos caixas– levaria o dinheiro a Londres.
A AÇÃO
Na madrugada de 8 de agosto de 1963, o bando deixou o esconderijo –a fazenda Leatherslade, em Buckinghamshire– em duas Land Rovers. Aqui, os relatos divergem. Alguns dizem que eles vestiam roupas militares, outros que usavam máscaras de ski, capacetes e luvas.
Eles chegam à ponte Bridego. Seguindo uma ideia de Coldrey, eles cortam os fios telefônicos e mudam a luz dos sinalizadores em uma encruzilhada para obrigar o trem a parar. A locomotiva obedece o sinal vermelho adulterado com duas baterias e para a seis metros de distância.
O foguista, como de praxe, desce do trem para contatar a central. No escuro, é facilmente rendido por parte do grupo. Outros três desconectam a locomotiva e o vagão que levava os sacos de dinheiro do resto do trem. Os bandidos acertam o maquinista com um golpe na cabeça e o ferem gravemente. Contudo, percebem mais tarde que não sabiam operar o trem e, mesmo ferido, o maquinista é obrigado a levar o dinheiro e os ladrões até a ponte.
Liderados por Wilson, outros sete membros da quadrilha invadem o vagão dos malotes, atacam os funcionários com uma machadinha e iniciam uma corrente humana para esvaziar as 120 sacolas de dinheiro o mais rápido possível. Em 20 minutos, eles estavam no caminho de volta ao esconderijo.
O ERRO
Na fazenda, eles comemoram o roubo e o aniversário de Biggs com charutos, bebidas e uma partida de Banco Imobiliário com as notas recém-roubadas. Na manhã seguinte, deixam a fazenda após pagarem 28 mil libras a um cúmplice para que limpasse qualquer vestígio da casa.
O trabalho foi mal feito e a polícia, seguindo a denúncia de um vizinho, encontra digitais de quase todos eles nas peças do jogo, em revistas e talheres utilizados no local.
O jogo Banco Imobiliário virou peça de arte no Museu Thames Valley Police.
A PRISÃO
Os primeiros a serem presos foram Coldrey e Boal, que pagaram com dinheiro vivo e adiantado três meses de aluguel de uma garagem em Londres. Wilson foi capturado em 22 de agosto e, em dezembro, foi a vez de Roy James. Até abril do ano seguinte, a polícia havia capturado 11 acusados, incluindo Biggs, e recuperado apenas uma quantia pequena –336.518 libras– do roubo.
O grupo foi condenado a penas de entre 20 anos e 30 anos. Já Reynolds passou cinco anos foragido antes de ser condenado, em 1968, a dez anos de prisão.
A FUGA
Biggs passou menos de dois anos encarcerado e, em 8 de julho de 1965, pagou funcionários da penitenciária e conseguiu escapar –uma fuga que o levou mais tarde para o Brasil, onde viveu mais de 30 anos, teve um filho que virou astro infantil e gravou uma canção ao lado do Sex Pistols e um filme ao lado de José Wilker.
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No Brasil, Biggs participou de clipe dos Sex Pistols e fez filme com José Wilker
DE SÃO PAULO
Conhecido como o “ladrão do século” pelo assalto ao trem pagador em 1963, no Reino Unido, o inglês Ronald Biggs alcançou marcos tão grandiosos como o roubo de 2,6 milhões de libras nos mais de 30 anos que viveu no Brasil. Aqui, Biggs virou celebridade, foi dono de casa noturna, recebia turistas britânicos e gravou música com Sex Pistols e filme com José Wilker. No Rio de Janeiro, teve um filho com Raimunda de Castro, Michael Biggs, seu maior defensor.
Segundo relatou certa vez em entrevista, Biggs decidiu se mudar para o Rio quando fugia da Austrália –onde seu rosto havia sido reconhecido. Ele foi a uma agência de turismo, viu um folheto turístico com imagens da baía de Guanabara e do Pão de Açúcar à noite e pensou: “este lugar é para mim”.
Chegou ao Rio como Michael Haynes, na década de 1970. Adaptou-se rapidamente à cultura brasileira, encontrou Raimunda e passou nove anos como um desconhecido.
Em 1974, contudo, um repórter do tabloide “Daily Express” encontrou Biggs na Santa Teresa. A Scotland Yard ficou sabendo de seu paradeiro e a caçada ao prisioneiro foi noticiada na mídia britânica e brasileira.
Preso temporariamente no Brasil, foi convidado a aparecer no “Fantástico” ao lado de Raimunda. A revista “Manchete” chegou a estampar uma foto sua no banho.
Logo descobriu que, pela falta de um acordo entre governo britânico e brasileiro, não podia ser extraditado. Raimunda estava grávida e ele solto. Logo formaria sua família no Brasil, como um homem livre, tão livre quanto uma celebridade no Rio de Janeiro pode ser.

O assaltante do trem pagador inglês toca tamborim com a escola de samba Banda da Barra durante carnaval no Rio de Janeiro (RJ), em 1994
SEX PISTOLS
Em 1978, com a visita do príncipe Charles ao Brasil, Biggs foi fotografado para o “Sunday Times”.
Na mesma época, participou da gravação da música “No One Is Innocent” (“Ninguém é inocente”) do grupo de punk rock britânico Sex Pistols.
Em 1988, sua história –já mitificada pela mídia de cá e de lá– virou o filme “Prisioner of Rio” (1988), no qual atuou ao lado de José Wilker. Seu personagem foi interpretado por Paul Freeman.
Como não podia deixar de fazer, lançou duas autobiografias.
Até o filho de Biggs ganhou fama. Mike fez carreira na década de 80 no grupo Balão Mágico.
A exibição de sua história foi vista como um desafio à Justiça britânica. Em 1993, o Reino Unido tentou extraditar Biggs em um acordo de troca de prisioneiros. Ele iria em troca de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Mello.
Tranquilo, disse à Folha na época que “nem sabia que Brasil e Inglaterra não tinham tratado de extradição”. “Gosto muito do clima tropical”, disse.
FALIDO
O sucesso, como para muitas celebridades cariocas, não foi eterno. Biggs não fez mais filmes, livros ou gravações.
Para sobreviver, vendia camisetas e outros objetos de sua “marca” em um site e organizava encontros com turistas que quisessem conhecê-lo –em sua casa mesmo, que ganhou ares de museu.
Em 2001, Biggs afirmou que desejava retornar ao Reino Unido. Seu advogado brasileiro na época, Wellington Mousinho, afirmou à Folha que Biggs só voltaria “com o perdão judicial”. Rumores indicavam, contudo, que ele receberia uma grande quantia do tabloide “The Sun” pela exclusividade de sua história.
Biggs já havia sofrido dois derrames e vizinhos cariocas diziam que ele andava com dificuldades e quase não podia falar. Só saía de casa para ir de táxi a sessões de fisioterapia, na Tijuca.
Mousinho ressaltou, contudo, que ele estava lúcido e negou que voltava ao Reino Unido porque estava doente e falido. O advogado disse que, segundo o próprio Biggs, voltava porque estava com saudades. Ao chegar ao Reino Unido, foi preso, desta vez em uma prisão de segurança máxima.
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