Por Aldo Fornazieri, especial para a Sala Eleições 2012
RUSSOMANO E A AÇÃO PASTORAL
“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…”. Sun Tzu
As pesquisas do Datafolha e do Ibope divulgadas nesta semana apontam para tendências contrárias. O Datafolha aponta para tendências de queda de Russomano e de Serra e de ascensão de Haddad. O Ibope aponta para tendências de queda de Serra e Haddad e de ascensão de Russomano. Ao que tudo indica, um dos dois institutos está errando. Independentemente das dúvidas sobre qual a tendência real dos números, o desempenho que o candidato Celso Russomano vem obtendo êxito considerável.
Se Russomano passar para o segundo turno em primeiro lugar, derrubará alguns mitos arraigados sobre campanhas eleitorais. Por exemplo, o mito do tempo de TV, o mito da ação milagreira do bom marqueteiro etc. No Brasil, dá-se demasiada importância ao marketing e subestimam-se as estratégias de campanha. Mesmo no terreno do marketing, a campanha de Russomano, com menos da metade do tempo de TV das campanhas de Serra, Haddad e Chalita, está dando um verdadeiro nó nas equipes desses três candidatos.
As equipes de marketing de Serra e Haddad cometem o mesmo erro básico: apresentam os candidatos de forma demasiadamente racional e autocrática. Todo o foco é no “eu fiz”, “eu resolvo” e “eu farei”. O pronome pessoal sigular “eu” tem um amplo domínio na comunicação dos respectivos programas de TV. A racionalidade das propostas e programas de governo não vem devidamente ladeada pelo necessário aspecto sensível da interrelação entre comunicador e alvo da comunicação, que nunca é um objeto passivo. Qualquer estudante de sociologia ou política sabe que a sociabilidade brasileira se define mais pela sensibilidade e emotividade do que pela racionalidade. Assim, uma boa proposta de governo deve servir de pretexto para um bom discurso político que seja capaz de tocar a alma, a sensibilidade e os sentimentos do eleitor.
A maior parte das análises produzidas até agora sobre a liderança de Russomano nas pesquisas tem se caracterizado pela precariedade. Sugere-se que se trata de um novo Collor, de um neomalufismo ou neojanismo etc. Alguns analistas chegaram a afirmar que o eleitorado classe C que vota em Russomano constitui a base da nova direita em São Paulo. Na verdade, o desempenho de Russomano tem razões mais simples e eficazes do que supõem as análises contaminadas por vieses ideológicos.
Como alguns já disseram, não é apenas um único fator que explica o desempenho de Russomano: o apoio evangélico-pentecostal, desgaste de Serra-Kassab, um menor grau de Haddad pelo eleitor etc. Mas Serra e Haddad também têm algumas condições de vantagem que Russomano não tem. Sopesando vantagens e desvantagens de uns e de outros, há que se ver o que constitui a singularidade de Russomano que o projeta na liderança das pesquisas.
Ao que tudo indica, a singularidade de Russomano se assenta sobre dois elementos vinculados a uma estratégia de comunicação e de relacionamento político com o eleitorado, muito bem definidos. O primeiro pode ser caracterizado como ação pastoral. Esta técnica de comunicação e de abordagem das pessoas, muito usada pelas igrejas cristãs, foi trazida para a esfera da campanha política e no relacionamento do candidato com o eleitor.
A ação pastoral pode ser definida como uma abordagem das angústias e das aspirações das pessoas. Ela envolve a idéia do serviço aos necessitados, de diálogo com as pessoas, do cuidado com elas. Em parte, este tipo de comunicação pastoral já vinha sendo feito por Russomano no programa “Patrulha do Consumidor”. Ação pastoral é aquela do pastor que cuida do seu rebanho e, como se diz no âmbito do pastoreio pentecostal, “o bom pastor cheira as ovelhas e elas o identificam”. Na ação pastoral predomina os pronomes plurais “vocês” e “nós”. Na TV Russomano aparece conversando com o povo na rua ou conversa diretamente com o telespectador que está sentado na sala de estar de sua casa.
Se no primeiro aspecto daquilo que constitui a singularidade de Russomano ele se comporta como pastor, no segundo ele se comporta como psicanalista ou como psicólogo: ele escuta as pessoas. Aquele que escuta ouve alguém que tem a necessidade de falar e de ser ouvido e mostra interesse pelo outro. Ao mostrar-se interessado pelo outro (pelo eleitor), aquele que é ouvido sente-se valorizado e tem no ouvidor um interlocutor. O psicanalista que escuta usa palavras como “entendo”, “vamos buscar soluções para este problema” ou “compreendo como sua situação é difícil”.
Ao escutar o eleitor, o candidato estabelece um vínculo de afetividade, torna-se o destinatário dos desejos e das aspirações daquele que quer falar ao representante político que, no Brasil, é sempre pouco apto a ouvir e muito ativo em impor. A escuta cria um trânsito comunicativo entre o candidato que consegue escutar e que consegue cuidar. Este torna-se um paradigma do eleitor e surge como “o homem do povo”. Isto não significa que o será realmente. Uns usam essas técnicas para o engodo, ouros para realizar uma missão verdadeira, pois são vocacionados para liderar e conduzir. O discurso meramente racional do programa de governo, por mais qualificado que este seja, não consegue estabelecer as devidas conexões com o eleitor.
Aldo Fornazieri – Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
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